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Resenha Série: Ozark (1ª Temporada)

segunda-feira, agosto 14, 2017


Breaking Bad e Ozark guardam muitas semelhanças, não há como negar. Desde o alicerce familiar que justifica qualquer ato até o fato de as séries mostrarem pessoas normais a primeira vista praticando atos moralmente questionáveis, a principal diferença entre as duas séries está em seu protagonista.

Se os dois personagens estão igualmente desesperados e quebrados na sua alma, enquanto Walter White de certa forma age por si próprio ao produzir sua própria droga para ganhar uns trocados, Marty Byrde (Jason Bateman) reage por medo após assumir um papel secundário na lavagem do dinheiro. Walter White só se transformou no temido Heisenberg quando este viu que isso o satisfazia, já Marty, pelo menos por enquanto, age como o homem comum sem esperança. Motivado pelo medo e com a esperança cega de que ele irá se livrar ileso do mundo do crime, Marty era apenas aquele homem traído pela mulher com um talento contábil que quis ganhar alguma vantagem lavando uma quantidade incontável de dinheiro para tirar o seu. Como disse, o dinheiro corrompe, e não foi diferente com Marty.

Essa sensação constante de descontrole em Marty apesar da sua frieza (não indiferença) latente e quase assustadora de quem demonstra que não tem qualquer esperança sobre o mundo, juntamente com sua ida pro misterioso lago Ozark, é aonde a série guarda o seu principal potencial; não em superar Breaking Bad, mas em pelo menos juntamente com House of Cards e Stranger Things preencher o cartaz de grandes produções da Netflix.

A certo ponto da trama Marty diz que as escolhas simplesmente desdobramentos de outras escolhas e assim por diante, para ele as coisas simplesmente acontecem e em Ozark todas as ações são cercadas em escolhas.

Poderia Marty abrir mão do "sonho americano" e da família após descobrir o adultério de sua esposa, poderia ela ter partido em direção de volta a Chicago assim que Marty conseguiu identidades novas para ela e seus filhos, na verdade, poderia ele ter decidido por absolutamente nada disso, mas não, apesar de ele ver os olhos do contador anterior a ele sendo arrancados, Marty decidiu continuar nessa. Talvez essa moralidade quebrada transpareça morbidamente ao ele executar uma dezena de vezes um vídeo pornô de sua esposa enquanto atende um cliente. Aliás, Wendy (Laura Linney) e seus filhos Charlotte (Sofia Hublitz) e Jonah (Skylar Gaertner) preferiram ficar com seu pai no odiado e misterioso lago Ozark, mostrando que independentemente da situação, a família é tudo e só existe unida, para o bem e para o mal.


Seja para Marty ou Ruth, é na concepção deles de família que a série constrói todo o seu brilho e demonstra o peso que seus personagens carregam, mesmo aquele carcomido vizinho da família Byrde que mal respira sozinho. Toda ação e todo personagem tem sua importância, algo que toda série precisa pra ser verdadeiramente consistente.

Assim como não quer nada, Ozark desperta curiosidade. Ela tem um ritmo lento e pesado, e falando por mim, dificilmente consegui assistir mais que dois episódios seguidamente. Mas é isso, é uma série propositalmente lenta, como se quisesse tomar cuidado com os desdobramentos e construções de seus personagens conflituosos bem aos poucos, onde na sua fotografia fria e pouco acolhedora, o pesadelo que Marty vive no quase o filme de terror que o lago em Ozark constrói. Com pontas muito bem amarradas e personagens muito interessantes, o sonho americano é desconstruído e remetendo a Narcos, esse american way of life é quase que uma história da carochinha, onde o dinheiro do narcotráfico e do crime movem uma economia inteira.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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