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A desconstrução social feita por Rick and Morty

terça-feira, setembro 19, 2017


Nas duas temporadas anteriores os criadores fizeram críticas evidentes e muito bem sacadas sobre o processo social e seu funcionamento, seja anestesiado sentado em frente a televisão escolhendo ignorar o que não era pra ser ignorado, seja expurgando o ódio em favor "de um bem maior". E "The Rixlantis Mix Up" (S03E07) é mais um daqueles episódios consagradores que nos faz memorizar seu nome e sua numeração quando formos recomendar a série animada a um amigo nosso, tal qual "Ozymandias", "Amarsi Un Po", "The Book of Nora" ou "Battle of Bastards" das respectivas "Breaking Bad", "Master of None", "The Leftovers" e "Game of Thrones".

A premissa é muito simples, o Rick e o Morty que conhecemos da dimensão C-137 são convidados para a Cidadela dos Rick's que no momento de "The Rickshank Redemption" (S07E01) desfrutava de uma certa prosperidade, no objetivo de proporcionar aos Rick's das infinitas dimensões um lugar para viver sem serem perseguidos pela justiça intergaláctica. A questão é que com o tempo, a Cidadela tornou-se igual a tantas outras sociedades: desiguais, violentas e caóticas graças a população crescente, logo, potencializando tais problemas.

Com uma sociedade se organizando, naturalmente as castas vão surgindo e com ela a principal pergunta surge: se todos os Rick's são rigorosamente iguais, porque há Rick's médicos enquanto outros estão confinados em fábricas? Será que um se esforçou mais que o outro pra merecer seu lugar ou isso é dividido de outra forma escusa? Será que não vivemos em uma sociedade de privilegiados? Será que no final das contas vivemos numa engrenagem que nossos reais desejos são rendidos em favor ao futuro? É aí que se encaixa a propaganda virtual dos wafers cobertos de morango "Simple Rick's" e a escola onde os Morty's são "doutrinados" por um professor que parece o Severo Snape. Numa sociedade onde os Rick's tem a certeza de ter o seu lugar conquistado, os Morty's em contrapartida são os marginalizados. Então enquanto esses são relegados a invisibilidade por serem julgados inferiores intelectualmente, os Rick's, apesar das questionáveis diferenças, tem seus questionamentos inibidos em favor da certeza da promessa da meritocracia.

No meio de todo esse rebuliço surge um Morty, um candidato que veio da casta inferior cansado dessas injustiças e se candidata com a suposta crença de que todos são iguais, prometendo em sua campanha que transformará essa sociedade desigual em que as individualidades são negadas pelo medo, em finalmente um lugar melhor para Rick's e Morty's conviverem juntos de verdade.

Morty ganha a eleição e chega ao poder. E enquanto o seu assessor Morty que trabalhou em sua campanha é assassinado pelos capangas do Morty, agora eleito, para a tal verdade não ser revelada. Corpos de Rick's são atirados ao espaço revelando um Morty que acredita sim na sua verdade, mas tanto, que torna-se um ditador ao chegar finalmente ao poder. Tudo se resume nisso, essa era a verdade e que foi fabricada. O populista que tanto adoramos, tornou-se o opressor que era oprimido e que acredita que é necessária uma limpeza moral antes de tornar essa realidade atual na sua promessa. Daí a questão é: qual é a verdade melhor?

O que mais gosto de Rick and Morty e é o motivo que me faz querer recomendar esse desenho a quem não sabe o que assistir na Netflix, é a forma como são extremamente imaginativos com a ficção científica, ao mesmo tempo em que abordam da mais vagabunda até a mais profunda filosofia não sendo pedantes e sem perder a paixão pelo absurdo. Limitar Rick and Morty a um simples "não achei graça" é limitar o desenho. A risada não se dá pelas piadas, mas sim por aquele sorriso amarelado que aparece quando se escuta uma sacada que nos faz pensar.

Nessa ferida aberta, Rick and Morty expõe um looping que persiste em toda organização social, como se a esperança fosse algo fabricado para nos conformarmos de novo e de novo com os absurdos que somos obrigados a presenciar. É paradoxal, é incômodo. É para mim um motivo de invasão do horário nobre para todos os brasileiros pelo menos pararem e pensarem sobre a figura do salvador da pátria que hoje está tão em voga. Enquanto isso, a sociedade recente da Cidadela dos Rick's sobrevive com cada um desempenhando a sua função com uma voz superior comandando cada passo em favor de um "bem maior", uma engrenagem onde nossos sonhos são somente sonhos.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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