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Resenha Filme: Corra!

quinta-feira, setembro 14, 2017


"Qual o limite do humor?". A pergunta que assombra os comediantes e expõe a hipocrisia diária serve pra revelar preconceitos diários e cutucar a verdade com o intuito de que ela apareça. A piada provoca o debate. E se a piada esconde talvez o pior do ser humano, ela também expõe as suas fraquezas e em contrapartida nos torna mais fortes para encarar a realidade. É assim que funciona o tal bom humor; o não-falso, o sarcasmo. A ironia que abraçamos. E "Corra!" nasceu assim, de uma piada; aquela que revela muitas verdades travestidas de boas intenções e velado preconceito cômico.

Portanto, se a piada tem várias vertentes, o terror também. Mexer com o psicológico significa também usar o artifício da piada para nos fazer refletir após "desembaçarmos" o espelho. Será mesmo que é necessário reafirmar que se é uma pessoa sem preconceito algum a quem sofre esse preconceito?

Entre diversas camadas, "Corra!", principalmente em seu segundo ato nos diz isso. Quando Chris Washington (Daniel Kaluunya) vai para a casa de Rose Armitage (Allison Williams) conhecer seus pais já bate aquele terror natural. Todos que passaram por isso tiveram aquele frio na barriga. Porém há um agravante: as suas cores. É o terror social, os agonizantes olhares. Essa diferença não poderia existir, ele sabe, mas sabe também que é o mundo em que ele vive apesar dos votos de confiança de Rose sobre seus pais. "Eles não são esses tipos de pessoas ela diz". Mas Chris sabe que tem uma pulga que insiste em o picar lembrando que ele é um garoto negro e ela é uma garota branca apesar de tudo e que isso implica olhares, o espanto de ver o diferente: um negro e uma branca, pessoas que o vitimizam quando pregam a igualdade com o objetivo de validar o discurso próprio de preconceito.

Seja pelo policial que pede a identificação de Chris, mesmo esse sendo apenas um passageiro, após eles sem querer atropelarem um veado; ou pelas afirmações dos Armitage que a primeiro momento são amistosas mas acabam revelando uma insistência em reafirmar que amam o Obama; o verdadeiro "errado que está muito algo" que a troca de olhares entre o agonizante veado e Chris trocaram aparece. Seja pelos funcionários, negros totalmente automatizados que apontam o clichê de uma tradicional família branca de margarina e nos olhares agoniados dizem muito a Chris; passando pelo irmão de Rose que estranha o fato de Chris ter praticado judô e não gostar de UFC. A festa tradicional da classe média-alta americana revela a estranheza daquele lugar e nos provoca a mesma agonia que Chris revela em seus expressivos olhares, aliás, é irônico um cego dono de uma galeria de arte ser justamente aquele que nos traz um pouco de normalidade ao pesadelo social de Chris naquele final de semana que não termina.


O terror social é presente o tempo todo, mas ele está bem encaixado debaixo de uma camada do terror mais tradicional que reconhecemos e aplaudimos. O temor aqui é constante, sabemos que algo acontecerá, mas o quê? Essa é a principal agonia que habilidosamente torna o final simples e possível envolto em genialidade e meta-linguagem. O "Corra!" que batiza o filme é nada mais que uma libertação. Um pesadelo em que Chris viveu acordado que um jovem negro - seja também gay ou mesmo pobre - convive diariamente, e que só o bom humor de seu amigo negro Rod (Lil Rel Howery) quando sem mais palavras só disse "eu avisei" é capaz de aliviar a indignação mesmo que seja um pouco. Em suma, somos libertos da mesma agonia quando damos risada de tudo isso, ocasião essa que vivemos quando lembramos de alguma cagada que sobrevivemos com um amigo, certo?

O roteirista Jordan Peele usa o "terrir" como escape e construiu um dos filmes mais simples e geniais do ano. O também comediante que assistiu o stand-up de Eddie Murphy nos anos 80 quando ele conta a situação que foi conhecer a família de sua namorada branca, transformou esse "terror social" em piada porque é só assim que sobrevivemos diariamente ao preconceito velado que perdura no século 21 através de uma nova categoria social que usa das piadinhas avacalhadas e afirmações do tipo: "eu tenho amigos negros e estou muito triste com o que vocês sofrem" entre um copo e outro de vinho caro, ao invés de enxergar o trato normal como o ato de simplesmente não ter que precisar verbalizar isso. O preconceito velado não é muitas vezes físico, é agoniante, o que nos faz entender a existência do argumento de "vitimismo" alheio partido de quem critica o filme nesse ponto. As feministas, pobres, gays e negros sempre exageram e fantasiam para os hipócritas que não veem direito de eles falarem nada graças à aqueles poucos que exageram.

Na verdade, por mais paradoxal que possa parecer, penso que o humor nesse ponto, além da empatia, é a principal característica humana que nos torna iguais apesar de tudo. Os dois sabem disso, sabem que o debate está de pé graças a piada usada com inteligência e da arte também.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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