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Resenha Filme: Fome de Poder

terça-feira, setembro 26, 2017


Em inglês "The Founder", em português "Fome de Poder". Normalmente criticamos a tradução de títulos em língua estrangeira para o português, mas curiosamente nessa tradução meio "Sessão da Tarde" se expôs a principal discussão do filme.

Quem fundou o McDonald's, você sabe? Provavelmente você chutaria que foi alguém chamado McDonald, e você acertou; porém o proprietário da franquia (se atentem para essa palavra) se chama Ray Kroc.

Na luta constante pelo american way of life que se encontrava em seu auge naquela época, valia empreender, valia correr atrás de um futuro melhor. Ray Kroc (Micheal Keaton) era esse tipo de pessoa nos anos 50 que cala a boca e trabalha, o cara que Temer adoraria.

Típico vendedor americano que topava vender qualquer coisa desde copos de papel e mixers de milk shake recebendo muitas portas na cara em contrapartida, Kroc nunca perdeu as esperanças, porém não acreditou no dia em que sua esposa e secretária lhe disse: "alguém quer comprar seis máquinas de mixers de você".

Descrente da sorte, como um homem de meia idade que não tinha nada a perder, foi verificar o pedido. Chegando lá se deparou com um drive thru diferente. Ao invés de o cliente ser atendido pela garçonete em seu carro, era o cliente que precisava ir até o caixa realizar seu pedido; reduzindo assim o tempo de entrega e aumentando dramaticamente sua eficiência do atendimento de 30 minutos para meros 30 segundos (talvez no McDonald's original isso fosse verdade) e a cara de Ray Kroc ao receber seu pedido é a mesma que sermos atendidos com eficiência num órgão público hoje em dia...

Os responsáveis pelo serviço eram os irmãos McDonald (na história original Richard e Maurice), Dick (Nick Offerman) e Mac (John Carroll Lynch), que arquitetaram e colocaram em prática um sistema fordiano de produção e atendimento conhecido como o ilustre fast food. Impressionado com o que viu, Kroc não pensou duas vezes em conhecer o funcionamento do restaurante a fundo e seus donos, que escutando a história e o funcionamento, via florescer ali a oportunidade de sua vida. E assim, empolgado e numa discussão com sua esposa sobre a ausência de Kroc com a família, Joan (Linda Cardellini) pergunta quando sua incessante busca pelo sucesso (poder) iria diminuir.

Ele responde: "talvez nunca".


Kroc, impressionado com o sistema, diz aos irmãos que precisa transformar isso em franquia, ao menos tentar novamente, após uma tentativa fracassada deles que sofreram para manter o mesmo padrão de qualidade numa filial distante. Ele se oferecia desesperadamente pra ser esse cara de confiança que eles não tinham, o cara que finalmente ligaria o funcionamento ao padrão de qualidade e ao conceito de singularidade do próprio nome (elogiado posteriormente por Ronald Reagan).

Nessa desconstrução do McDonalds, acompanhamos o conflito em que os irmãos McDonald pagaram caro (calculam-se os royalties em US$ 200 milhões de dólares) pela sua ingenuidade diante a um homem perseverante e ambicioso, que moldou a ideia até amarrá-la como a sua propriedade intelectual, diminuindo assim os irmãos a simplesmente uma frase na história da companhia.

Foi só através da cabeça publicitária de Kroc, ambiciosa e de moral discutível, que o fast food nasceu definitivamente por ele ter sabiamente trabalhado com a conveniência na industrialização do alimento, e principalmente com a coletividade que o restaurante proporcionava debaixo dos arcos. Uma história contada e recontada pelo capitalismo e um caminho percorrido na história até hoje com a campanha publicitária do "amo muito tudo isso".

Micheal Keaton está muito bem no papel, afinal ele é um puta ator. Mas ele e todos infelizmente sofrem pelo roteiro básico que não é ambicioso o suficiente ao querer explorar o que rodeava Ray Kroc, como sua esposa, seu divórcio e os próprios irmãos McDonald (transformando Mac em um mero atendente de telefone), parecendo que o diretor John Lee Hancock tinha pressa em terminar o filme num terceiro ato bem ruim. Assim, o que resta a "Fome de Poder" é ser um competente filme de pipoca que se dedica a contar o que há por trás do "The Founder", a história documentada de uma das maiores franquias do mundo.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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