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Resenha Livro: Caixa de Pássaros (Josh Malerman)

segunda-feira, setembro 04, 2017


Um homem arranca seus olhos com uma colher, uma mãe enterra seus filhos vivos e depois se suicida com cacos de vidro. Pessoas normais após ver algo aterrorizante lá fora enlouquecem, matam os outros e depois se suicidam. A narrativa de Malerman em primeira pessoa nos deixa vendados assim como cada personagem da história, e como eles a todo momento queremos saber que porra está acontecendo com o mundo.

Se formos utilizar o livro como uma alegoria da realidade, o absurdo e a violência não compreendidas - e por igual temidas - escritas em suas páginas, são nada mais do que o medo dessa nossa realidade que a gente vê na televisão e internet pra qual não há explicação alguma de existir. Em suma, não sabemos mais bem o que é verdade num mundo lotado de boatos e pós-verdades.

"Caixa de Pássaros" é o desconhecido da qual somos separados por uma decisão. A sensação claustrofóbica que é sentir que a própria realidade que é a sensação de estarmos navegando em um rio a mercê da correnteza e como ela, sem podermos abrir os olhos com receio daquilo que ainda não conhecemos. Separando o passado e o presente de Malorie que se alternam em suas 272 páginas.

Estamos separados desse enfrentamento apenas por uma decisão. A caixa de pássaros, o mundo lá fora em que habita o monstro desconhecido que irá nos enlouquecer, e logo, se torna a "venda" em nossos olhos nos salvando da realidade. Adentrando uma escuridão absoluta. Onde o real e o irreal que Malorie usa para se salvar e salvar seus filhos sem nomes nesse mundo pós-apocalíptico construído por Malerman, torna-se apenas um mero ato de sobrevivência; um mundo apenas aonde o misterioso personagem de Gary inexplicavelmente consegue sobreviver, mas por quê?

Não comparando Malerman a H.P. Lovecraft, mas quando penso em Cthulhu, penso que ele é o desconhecido, a personificação do medo que a nossa própria imaginação é capaz de criar quando sonhamos acordados. E sendo bem direto, o objetivo de Josh Malerman com seu "Caixa de Pássaros" é claramente de usar desse artifício psicológico para prender sua atenção, mas sem nome algum. Essa curiosidade que temos pela descoberta, só é comparável ao medo do desconhecido que convivemos diariamente que constrói uma verdadeira caixa ao nosso redor provocando a tensão que é sermos cegos sem ser. Por isso seu romance de estreia fica na lembrança de quem leu.


Sendo um livro relativamente curto, a sua principal qualidade é ir direto ao ponto aonde o mundo pós-apocalíptico se reduz à mera sobrevivência e não sobre explicações do que estaria acontecendo lá fora ou sobre a busca de uma possível cura ou o enfrentamento. Não. Penso que certas histórias batidas não são passíveis de explicações, já que é justamente na parte do abrigo onde as pessoas sobrevivem alternando a todo momento da mais pura compaixão à mais pura desconfiança que o romance ganha ainda mais brilho. Foi difícil largar esse thriller de lado. E se não o li em alguns dias como pretendia, foi o abrir e tirar seu marcador de páginas pra me dar conta de que estava chegando à seu final.

E não procure respostas aqui, fique com as perguntas e use da metáfora que citei mais acima, do contrário ele se torna aquele livro de amor ou ódio em que a sua falta de explicação e certos furos não podem se sobrepor às suas qualidades. De qualquer forma, você irá chegar ao final da história sem ar, sem de dar conta de que você leu mais de cem páginas e imaginava-se não poder conseguir isso. Aliás é justamente nessa agonia que toma conta de nós que "Caixa de Pássaros" ganha o seu jogo,

No caso, abra os seus olhos.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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