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O valor das lembranças em Blade Runner

segunda-feira, outubro 16, 2017


O prazo de validade dos replicantes é de quatro anos. Sim, por mais que eles não sejam vida, a "vida" se tornou descartável. Em uma terra pós-apocalíptica onde a humanidade foi quase que obrigada (como aos poucos está sendo) a conquistar outros planetas devido à exploração desenfreada dos recursos da pequena Terra, além da própria ignorância dos que estão no poder; quem está ainda no planeta, que Ridley Scott faz questão de evidenciar a tristeza e desolação através da chuva e da desordem de suas ruas, são os "incapazes" por diversos motivos.

Logo entendemos a crise de identidade de uma nação; quer dizer, os EUA ainda existem, Los Angeles ainda existe, mas é um lixão. Como é ser humano no meio daquele ambiente, agora, sendo uma mera sombra do que já foi? Talvez a replicante Pris (Daryl Hannah), ironicamente, ao ser esconder da fria chuva no meio do lixo antes de J.F. Sebastian (William Sanderson) a encontrar, explique grande parte do que quis dizer agora. Quem está fora da Terra tem uma boa vida. Mas quem? Essa distopia é tão provável quanto assustadora de acontecer nas próximas décadas, aliás, distopias são formas de recontar o presente. Por exemplo, naquela Los Angeles o ser humano e o replicante são "aposentados" numa simplificação alegórica da morte, e oras, mesmo se Rick Deckard (Harrison Ford) não tenha errado na distinção de um humano e de um replicante através do teste Voight-Kampff, o que dirá da força dos mais "fortes" socialmente então?

Contudo, quando se assiste a "Blade Runner" e sua lenta contemplação, percebemos que ele se afasta da distopia no que se refere a discussão política, um caminho deveras comum de uma história que propõe a esse tema pode cair e girar apenas em torno de si mesma. Ela brilha pela abordagem filosófica do que nos faz ser humanos, dos olhos que são a janela d'alma, como diria Edgar Allan Poe, evidenciando a nossa constante negação da própria identidade através da publicidade, logo ficando claro ao observarmos a promessa de "uma nova vida em outro planeta" prometida nos escuros céus no começo do filme.

Em um cenário de absurda tecnologia, os seres humanos perderam-se e têm fixação pela reprodução do passado. Talvez hoje já convivamos com isso. Porém Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkell) sabe o valor das lembranças; o lema de sua corporação: "mais humano que um humano", é fabricar quem entenda um só propósito, sobretudo uma distinção. É pela manipulação de memórias que serve à doutrinação do ser, como se o mais humano que um humano do Nexus 6 fosse uma forma de reinvenção do que na Terra não deu certo. Na verdade, a meta do aspirante a deus, como ele próprio diz, é o comércio. E assim, o capitalismo atinge o ser humano mais do que nos damos conta.

O que nos faz humanos? A discussão acerca do tema que domina o livro do Philip K. Dick e é sintetizada pela história do "caçador de androides" - por mais que seja de dúbio entendimento e possa ficar restrito a discussão de Deckard é um replicante ou não - e sobretudo, a demonstração do que o que nos faz ser o que nós somos. Deckard aliás, é o caçador de androides que se apaixona por uma, Rachael (Sean Young), que chora quando ele conta "uma piada" sobre ela ter memórias da sobrinha de Tyrell. É nessa empatia por uma caça que ele percebe que sua própria vida não é diferente desses replicantes, pois tanto um como outro sonham com uma vida melhor.

Entendo que esse borrão em nossa mente que são as memórias da nossa infância, é a busca de Tyrell pela perfeição absoluta de suas obras de arte. Ele sabe que dar um passado a seu replicante é torná-lo um semelhante. São os olhos que veem e a memória faz acreditar que vimos. Quantas vezes na vida que somos confrontados pela dúvida do que aconteceu? Repito, são as lembranças, é o unicórnio que Deckard sonha e no final encontra na entrada de seu apartamento. Aliás, é na fixação pelos olhos na história de Blade Runner; aquela mesma da coruja robô, dos olhos que saem das telas no teste Voight-Kampff, e dos dedos enfiados de Roy (Rutger Hauer) nas órbitas de Tyrell, dando o beijo da morte após ele ouvir que "a luz que brilha arde a metade do tempo"; que nasce a discussão do que é ser humano e de como a reprodução dele próprio se dá pela busca da imortalidade pelas suas memórias.

Com a mão perfurada esperando a ressurreição, Roy segura uma pomba branca e diz ao perceber quando viu que o seu final se aproximava, que "viu coisas que ele (Deckard) nunca acreditaria" e que "as suas memórias se perderão como lágrimas na chuva". Ali rendido, Deckard só observa, e posteriormente ouve de Gaff (Edward James Olffos): "...mas o que é viver, não é?". É isso, nessa discussão atemporal onde passado e futuro se encontram, é a pergunta do que torna Deckard mais "humano do que um humano"? Nem ele sabe ao certo, e propositalmente é aí que se elucida o porquê da sua dubiedade diante ao espectador.

O que nos torna humanos? Creio que seja a luta de que um dia as lembranças não se percam como lágrimas na chuva.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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