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Resenha Cinema: IT - A Coisa (Parte 1)

domingo, outubro 08, 2017


Não li o calhamaço oitentista de Stephen King, uma obra de terror que graças ao detalhismo do escritor, aterroriza pelo seu tamanho bíblico, coisa do tipo "se eu tacar na cabeça de alguém, eu mato o infeliz", saca? Contudo, mesmo para quem não leu esse livro especificamente e leu alguma outra obra mais curta dele (mais de 500 páginas) ou algum conto, que seja, saca logo de cara que o terror que ele aborda é relacionado ao terror de vermos a que ponto os humanos são capazes de espalhar a maldade. Em suma, o terror é construído através da realidade. Muito mais que sustos de entidades e de bonecos, a maldade do ser humano é o que nos deixa apavorados e o palhaço é somente a incorporação disso. Em "IT", o medo é plantado, nasce, se desenvolve e cresce dentro de nós. Ele existe e devemos enfrentá-lo.

A realidade daquelas sete crianças são divididas em experiências de vida traumáticas, cada um de sua maneira. Indo desde o pai (Stephen Boagert) de Beverly e a pedofilia (me disseram que no livro é ao ponto do estupro), até o preconceito tanto racial de Mike ou físico no caso de Ben, o bullying sem limites da gangue de Henry Bowers, ou simplesmente uma alienada mãe super-protetora que mente para seu filho com a desculpa de protegê-lo; caso de Sônia Kaspbrak (Molly Atkinson), uma figura autoritária com seu filho Eddie, como o pai de Bowers (Stuart Hughes) que mesmo aparecendo brevemente deixa claro porque seu filho tem esses desvios psicológicos. Enfim, parece que os placebos receitados pelo farmacêutico Sr. Keene (Joe Bostick) que Eddie toma para seu braço quebrado, acabam representando um lugar que mal existe. A maldade residida na cidade de Derry é o que faz A Coisa sobreviver, a cidade que as pessoas vivas nem se importam mais com as desaparecidas.  

Seja ela o que for, A Coisa vive através do medo e da indiferença de cartazes colados por cima um do outro alertando sobre os desaparecidos, todos com a mesma fonte e diagramação colados em muros e postes. Pela época representada, creio que não é proposital, mas tudo é igual em Derry. Tanto que não sei até agora se é Pennywise que assusta mais ou a cidadezinha de pessoas que passam de carro vendo a barriga de Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor) ser "autografada" por Henry Bowers (Nicholas Hamilton) e não fazem absolutamente nada. Derry é uma cidade que enerva. Cadê as pessoas? Notem que em quase todo momento as crianças aparecem sozinhas, pedalando em ruas vazias e sofrendo pela perseguição das mesmas pessoas, com os poucos adultos sendo aqueles em que não se pode confiar nem um pouco. Parece que crescer ali te torna um psicopata como Bowers.


Essa segunda versão americana de "IT" (a primeira foi um telefilme realizado em 1990) é tão boa justamente por não tentar ser didática sobre nada. É de forma gradativa que passamos a saber porque Pennywise existe, e assim logo entendemos que "IT" vai muito além do terror ao tratar o relacionamento entre as crianças com o mundo como a mecânica que faz o filme ser um sucesso. A história separa muito bem o que é ser criança, do que é ser um adolescente, e do que é ser um adulto. Muito mais do que terror, a história de Stephen King é sobre amadurecimento, sobre enfrentar os medos que cada um tem sobre a fronteira difusa entre a maldade e a bondade na exploração do ser interior semeada através das pequenas escolhas. Entende o que é o verdadeiro terror? Ele reside em nós e para nós, tal qual o balão vermelho como o sangue que sobrevoa entre uma cena ou outra, a simbologia mais perfeita que pontua a maldade e a existência de Pennywise. 

Aliás o Pennywise de Bill Skarsgard é aterrorizante. E apesar de ele ter diluído o seu horror devido às suas aparições frequentes, o palhaço arlequino renascentista ficou muito bem caracterizado tanto em seu vestuário, como na pintura de seu rosto que evidencia a sua vesguice (de um olho na caça e outro no espectador) e seu lado constantemente ameaçador. Pennywise aqui parece drogado, extremo, psicopata. Aquele que choca e come o braço de Georgie sem dó. Sua função creio que nem seja assustar, pois nada mais nos assusta nos tempos atuais, convenhamos. Ao contrário do palhaço afetivo e até misterioso de Tim Curry na adaptação de 1990, ele é medonho, é um monstro ancestral pura e simplesmente que acaba provando que a escolha foi um acerto nesse ponto.

A escolha de dividir o filme em duas partes foi decisiva pra construção de Derry e seus personagens, apesar de seus naturais atalhos e modificações que para quem não leu o livro como eu, são completamente irrelevantes. O roteiro do trio Cary Fukunaga (sim, aquele que conhecia pelo primor da primeira temporada de True Detective), Chase Palmer e Gary Dauberman, é ágil e nos carrega, mas sem dizer porque tudo aquilo existe; captando perfeitamente o que o livro de Stephen King quer passar com o que ele intitula como terror ao transparecer o que Derry é e por quem ela foi construída.

Derry é uma maldição. A existência de cada uma das crianças é apenas um reflexo da cidade, e é pelo seu drama que nos apavoramos de verdade e ficamos sem nos mexer na cadeira atentos para a próxima sequência. Como disse, o medo se constrói; quer dizer, Pennywise se constrói. Aquela "história" que nos faz "pular" no cinema contendo aquela sequência conhecida de casa, sustos e gags de um grupo adolescente não faz o terror ser terror. Tudo isso existe aqui, mas há história e envolvimento. Nos importamos de verdade se alguém morrer. E claro que é uma adaptação de um livro, mas o filme "IT" é aquele digno tratamento com um mestre, ao trabalhar simbologias e o medo que faz ele ser permanente em nossa lembrança. 

E bom, é daqui a 27 anos que A Coisa aparecerá novamente (claro que não se refere ao intervalo de um filme pra outro) e todos irão se reunir, e é nessa divisão de roteiro que conseguimos sentimos de verdade o que é ser um membro do Clube dos Perdedores em sua luta pela amizade e pela amadurecimento. Agora resta saber o trio de roteiristas irão continuar próximos a obra original ou irão abrandar um pouco, já que daqui na segunda parte, o terror irá ficar mais violento e com dolorosas perdas.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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