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Resenha Filme: 1922

sexta-feira, outubro 27, 2017


Verossimil. Aquilo que é coerente, admissível; sobretudo plausível de ser verdadeiro.

Para quem conhece ao menos um pouco da obra de Stephen King e/ou da cultura pop em geral, sabe que a identificação entre público e arte é fundamental na construção de toda história. Indo de Star Wars até a sua versão moderna chamada Harry Potter, nenhuma das obras que aplicam a "Jornada do Herói" descrita brilhantemente por Joseph Campbell, contém uma história espetacular, marcante, de grandes personagens. Mas antes de fazer textão, reflita. O que te atrai de verdade nessas histórias? De coração? Pois é, é ele mesmo que é conquistado pelos universos constituídos em tais obras, e é aí que a verossimilhança transparece na ideia de que a fantasia de bruxos ou sabres de luz servem para fazer o que tais obras fazem de melhor: proporcionar a fuga da realidade, quer dizer, transportar a gente pra outro mundo aonde somos muito mais poderosos que somos. Mundos em que podemos de verdade  tirarmos lições de como ser alguém melhor.

Mas o que isso tem a ver com o Estevão Rei? Tudo. Confesso que não conheço tão a fundo a extensa bibliografia do autor, porém em um ou outro livro lido e em filmes vistos, nota-se que o mestre do terror alcançou essa alcunha justamente por trazer o terror para nossa realidade. A verossimilhança, lembra? E nessa verdadeira onda de adaptações, umas fracassadas como "A Torre Negra" (quem teve a ideia de adaptar uma série dessa em filme?) e a série "O Nevoeiro", outra em contrapartida foram excelentes como a primeira parte do "IT" e a adaptação do livro "Jogo Perigoso" protagonizada por Carla Gugino (a Spectral de Watchmen) chamada... "Jogo Perigoso" são justas homenagens ao autor e quando bem feitas, elevam o que entendemos de terror para outro nível.

Esse outro nível é quando terror vira horror, o ponto em que ele deixa de nos assustar e nos paralisa. Em outras palavras, o horror é aquilo intrínseco a nós mesmos e é o que diariamente devemos reaprender a lidar.

Na resenha que fiz pra série "Mindhunter", também com o selo Netflix, pontuei que é necessário conhecer nossa sombra pra nos tornarmos pessoas melhores; porém, se lá Holden Ford, curioso, olha para o abismo, aqui no conto "1922" o abismo está dentro do próprio homem. O melhor e mais mórbido conto do livro "Escuridão Total, Sem Estrelas", expõe juntamente com as outras quatro histórias, situações em que o homem é dominado por sentimentos que lhe causam a escuridão total.


O modelo de um homem trabalhador, bom pai, com uma família de poucas posses mas fundamentadas em valores e tradições cristãs, servem também para esconder aquilo que imaginamos: as feições da mulher avarenta, do filho impulsivo e do homem calculista. Wilfred James (Thomas Jane) representa a desesperança do homem sobre o próprio homem  Inveja, orgulho, ódio... Os sentimentos ruins só crescem e florescem graças à sua esposa Arlette (Molly Parker) que deseja vender a fazenda e ir para a cidade.

Na casa em ruínas e nas paredes que se quebram, o rato é o animal que melhor representa o que há de mais vil para buscar a própria sobrevivência, usados pouco-a-pouco durante a trama para ilustrar a desconstrução mental de Wilfred ao longo da história.

O assassinato que ele cometeu ao matar a própria mulher devido à seu ódio, o orgulho de suas conquistas em detrimento da realidade. Um homem dentro de homem que convenceu seu filho Henry (Dylan Schimdt) a ser cúmplice nesse crime... É na forte e empática presença de Thomas Jane ao interpretar Wilfred, que traz a verossimilhança necessária para entendermos e a real ausência de limites na corrosão de um homem que antes tinha uma família digna, numa situação insanamente crível que nos faz duvidar se realmente o bem prevalece sobre o mal.

Em uma história absurdamente simples, tão direta e enxuta quanto o filme (em um roteiro acertado de Zak Hilditch), sem sobrenaturalismos e com um só pensamento escolhendo assim explorar o horror contido em nós mesmos; Stephen King em 1922 conta uma história que é tão presente naquela época quanto é hoje em dia. Na verdade, um prato cheio para Holden.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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