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Resenha Filme: Jogo Perigoso

sexta-feira, outubro 20, 2017


O terror funciona quando ele cria vida na realidade, quando se enraiza na nossa imaginação e provoca aquele temor por aquela situação que pode ser absolutamente crível. E a ótima adaptação de "Jogo Perigoso" (Gerald's Game), romance de 1992 de Stephen King realizada por Mike Flanagan e bancada pela Netflix, é tão boa por ser simples e objetiva no que a história essencialmente é.

Para salvar o casamento, Gerald (Bruce Greenwood) entra em acordo com Jessie (Carla Gugino) para dar aquela "fugidinha do mundo real", dedicando um fim de semana de sexo numa casa alugada no meio do nada para sórdidos prazeres. Ok. Partindo daí deste casamento morto, Gerald algema Jessie na cama e este sofre um enfarte.

O terror começa.

O que seria mais aterrorizante ao estar algemada(o) a uma cama de madeira reforçada no meio no nada? Essa sensação de tensão crescente a uma Jessie que mal acredita no que vê, definhando na cama enquanto um cachorro esquisito (referência direta a Cujo) come a cara de seu falecido marido, esconde um passado de abuso e prisão. É ai que a produção brilha apesar de a história transitar naquela zona de conforto do escritor, afinal, IT (abuso infantil) também se faz presente aqui.

Envolta em diversas prisões na vida (por mais que essa metáfora acabe sendo didática demais a certo ponto do filme), Jessie, algemada, assiste um filme da sua vida enquanto definha na cama. O passado e o presente assombram, o futuro não entrega nada mais senão a morte. 

"Jogo Perigoso" é cheio de metáforas e utiliza desse jogo de linguagem para abordar assuntos pertinentes como a pedofilia de um pai amoroso e um matrimônio que não tem mais razão de existir. O silêncio, a pura agonia de se sentir aprisionado na própria vida. Jessie se sentia assim e os diálogos com as alucinações dela própria e com Gerald expõem isso.

O sobrenatural é seu pai (Henry Thomas), é o terror encrustado em sua mente de homens que aprisionaram sua vida em algum momento. Seu pai, o anel, seu marido, a algema. O silêncio. O eclipse que se formou no céu e causou aquele momento de escuridão

Pode parece que seu final é sem sentido, mas é isso, ela precisava encarar seu medo. Algo tão doloroso pra ela quanto rasgar o pulso para se libertar da algema que a prendia naquela cama.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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