post Resenha Série: The Handmaid's Tale (1ª Temporada) - DescafeinadoBlog

Resenha Série: The Handmaid's Tale (1ª Temporada)

segunda-feira, outubro 09, 2017


O Relógio do Juízo Final foi criado no final da II Guerra, e o consequente início da Guerra Fria, com a simbologia do quanto a raça humana estaria ameaçada por uma guerra nuclear. Atualmente está marcando 11h57m30s devido às marmotagens do valentão e do gordinho mimado, e penso que podemos ampliar essa simbologia aos tempos políticos atuais. Digo, eu e você.

Meu caro amigo, lhe confidencio que estamos a um passo para o apocalipse. Constantemente. E o que nos salva do totalitarismo de pessoas de bem e de moral, não são os erros com cheiro de mofo do passado que deram origem justamente a esse relógio simbólico, mas principalmente as ideias que julgam-se transgressoras da moral e dos bons costumes que construíram grande parte do que temos hoje. Mas enfim, deixando de lado o "discurso de esquerda" que me faz escroto, vagabundo e agora apoiador da pedofilia; nesses tempos que estão nos aproximando cada vez mais a realidade à distopia que faz com que 1984 de George Orwell apareça na lista de mais vendidos, o livro de 1985 "O Conto da Aia" escrito por Margareth Atwood, voltou as rodas de conversa graças a série premiadíssima pelo Emmy com 8 estatuetas e produzida pelo canal de streaming Hulu.

Na sua adaptação em "The Handmaid's Tale", esse passo em direção ao abismo foi dado: as mulheres se tornaram inférteis. A roteiro não é didático sobre, mas é fácil imaginar o que e como aconteceria, e isto é o que assusta. Mesma medida em que se tornará moda "isso é tão Handmaid's Tale" em relação à sociedade, quanto "isso é tão Black Mirror" já é em relação à tecnologia.

Mulheres inférteis significa apocalipse. Não basta a taxa de fertilidade ter caído vertiginosamente ao longo das décadas nos países desenvolvidos, mas agora graças aos problemas que Trump hoje ignora, alguma merda aconteceu. O problema não são mais as causas do aquecimento global e das demais porcarias que fazemos com o nosso planeta, e sim a consequência disso. Portanto, sem ignorar o elefante rosa no meio da sala e ao melhor estilo humano de deixar a merda acontecer pra fazer alguma coisa de fato, torna-se responsabilidade de aristocratas, empresários e poderosos à solução made in america para esse probleminha que ameaça a raça humana. O resultado desse brainstorming de propostas foi a proposta de simplesmente forçar os americanos a retornar aos tempos onde tudo funcionava. O tradicional. No entanto, penso que um dos focos de "The Handmaid's Tale" seja justamente fazer todos que assistem questionar: o que é o tradicional?

Nós falamos da sociedade mais fundamentalista do capitalismo, muito devido à seu braço protestante. Tradição significa conservadorismo, e é irônico traçar esse paralelo diante de um país que é tão consumista atualmente. A salvação dos EUA cai no colo da bancada de bíblia, da bala, da família, e daqueles que marcham chorando pelo tempo que as coisas eram melhores, com a tarefa de corrigir a trilha desse caminho e que por essas escolhas de seus filhos, entendeu-se que Deus acabou punindo a todos.

Nessa missão, o elo mais fraco arrebenta naturalmente para as minorias. Gays, lésbicas? Não são humanos, devem ser jogados as Colônias, fadados a morte ou expurgados ao menos que se convertam a nova ordem, assim como aqueles que apoiam ele. Mulheres? Como Eva, devem ser reduzidas a procriação, assim como os homens, mas que em sua maioria acabam aceitando de boa pois agora mandam na porra toda realmente. E assim, através de uma lei marcial que estabelece a Bíblia como justiça penal, o Estado é agora totalitarista e teocrático reduzindo-se a castas, limando qualquer escolha à cultura e acesso das mulheres a um simples espelho; dando-lhes um teto, comida e roupa lavada desde que elas engravidem, e recriando o estupro com uma nova roupagem institucionalizada.

Nessa milícia que se tornou os braços do país, diversos Comandantes dirigem a República de Gilead e são responsáveis pelo "repovoamento", com suas esposas condescendentes cuidando das casas que abrigam as Aias como meio de produção humano. Ter filho é uma benção irrestrita. Em suma, quem pode ter filhos e consegue, agora tem um valor inestimável; quem não consegue, é descartada.


Mas aí você me pergunta. E a ONU? E os Direitos Humanos? E os outros países? Não sabemos, exceto uma menção ao México e ao Canadá que abriga refugiados, mas o ponto é propositalmente esse - afinal, não sabemos o que acontece numa Coreia do Norte, por exemplo.

A sensação que temos é a mesma de June (Elizabeth Moss): de estar em uma prisão. Podemos encaixar "The Handmaid's Tale" no gênero horror nesse aspecto. Como ela, não sabemos de nada, e nós não podemos fazer nada por ela. E essa sensação é agoniante, totalmente transparecida no olhar da June, agora Offred (De Fred), que se vê sendo um mero objeto e pede socorro. É como um soco e uma cuspida na nossa cara, que exagera na crítica, mas expõe o enraizado pensamento conservador que resiste e é cada vez mais ativo e real, tornando a série a mais necessária de ser assistida de todos os tempos (isso se não vier outras séries baseadas em livros distópicos).

Em dez episódios baseados em um livro de mais de trinta anos de idade, é de se assustar que a série seja tão aproximada a atuais movimentos da sociedade. Acho que a história fala por si só e não vale muito a pena enumerar todos os fatos que se assemelham a ela, mas torna-se evidente o fato de que a história é cíclica. Nada mais que uma distopia se afastando da utopia que pouco temos a fazer sobre, restando a nós nos conformarmos com esse jogo de empurra-empurra eterno sobre a difusão entre liberdade e ordem que vai empurrando o relógio do apocalipse pra meia-noite.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários