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Resenha Série: Mindhunter (1ª Temporada)

quinta-feira, outubro 26, 2017


O homem arruína o próprio homem. E por mais que seja fácil justificar que os homens são maus porque escolheram isso ou que meramente são loucos, entender o lado humano que transformou-se em monstro só ajuda a tentar entender a sombra que nos persegue. Não é falta de deus no coração como alardeou Datena ou demônio no corpo como diz minha tia, o "conhece-te a ti mesmo" que Sócrates cansou de dizer nos ensina, que bem ou mal, infelizmente, isso aí é o que (também) nós somos. E num exercício de humildade ao aceitarmos que somos todos iguais aonde somos separados desse terror apenas por um triz, às vezes reconhecer a existência dessa maldade é muito mais dolorosa do que aceitar a nossa própria culpa nas coisas que acontecem na própria vida. De certa forma, a maldade floresce ao perceber que ela não existe dentro de nós.

A nova série do Netflix "Mindhunter" lida com o tipo do assunto que nos acostumamos a ver na televisão e principalmente na cinematografia de David Fincher (este, que dirige os dois primeiros e dois últimos episódios da série): conheça seu inimigo. Sim, se formos botar a série com os devidos "pingos nos i's", a série é isso. É aquele jogo de polícia e bandido, aliás, é fácil em seus primeiros episódios relacionar a série com aquele esquema Hannibal e Clarice. No entanto a grande sacada de "Mindhunter" é ampliar esse leque e aos poucos, bem aos poucos, ir nos fisgando.

Era o final dos anos 60, era aquele ponto em que a sociedade americana aos poucos acordava daquele sonho narcotizante do american way of life que eles mesmos venderam, ao ver o seu país experimentar a corrupção no caso Watergate e ao perder a guerra no Vietnã, por exemplo. Foi em 1969 que o homem chegava à Lua e Charles Manson matava brutalmente Sharon Tate - que estava grávida de Roman Polanski - e mais quatro amigos, baleados, espancados, e esfaqueados até a morte. Mas por quê? Por que o homem enlouquecia?!

A pergunta, claro, instigava o FBI, tanto que em 1977 foi instituída a Unidade da Ciência do Comportamento com o objetivo de entender o que se passava em suas mentes que transformavam o assassinato em profissão e uma fonte de prazer. No entanto, tal loucura ainda era compreendida como a consequência sobre a causa, e não o contrário. Então naquele tempo, a missão de John E. Douglas (aqui Holden Ford) e seu parceiro de campo Mark Olshaker (Bill Tench) foi traçar um perfil psicológico destes serial killers (termo que eles mesmos inventaram) enxergando que a infelicidade que todos querem no fundo negar, ao se arriscar a conhecer o que passava em suas mentes e assim traçando um modus operandi, um tipo de "guia", uma bíblia de perfis psicológicos, assim ajudando na prevenção e captura destes "loucos" para a sociedade.


Detalhista, "Mindhunter" conta tudo isso misturando ficção à forma documental de uma forma simples e fácil de se gostar, aonde a suposta lentidão narrativa da trama é integralmente substituída pela sensação de estarmos vendo sobretudo uma grande história. Quem estaria afim de estar disposto a ouvir o que um assassino tem a dizer? Bom, é isso, com uma trilha sonora matadora e criada pelo famoso escritor inglês Joe Penhall, "Mindhunter" simplesmente conta histórias e gostamos de ouvi-las por mais absurdas que sejam, sejam histórias contadas por fascínoras estupradores ou seja qual for outro personagem da série. Ao lado de de Ford, sentimos que também estamos desbravamos mentes, investigando, estudando para buscar meios para que essas pessoas sejam identificadas e paradas antes que uma tragédia aconteça.

Ao final dos dez episódios de "Mindhunter" em que Ford almeja entrevistar diversos assassinos até chegar a Charles Manson (e torcemos para que isso aconteça, já que a série foi renovada para uma segunda temporada), Bill Tench funciona como o contraponto, personificando nosso embarque nessa "montanha da loucura".

Na melhor série da Netflix ("House of Cards" tinha esse posto a muito tempo), que nem parece da Netflix de tão boa e tão séria, Penhall consegue trabalhar uma dinâmica gasta (dupla policial) ao moldar particularidades psicológicas em cada um dos personagens que se contrapõem e se complementam, numa ambientação investigativa que escolhe em não simplificar o roteiro no esquema de "causa e efeito". Aliás, esse efeito é lento e é em quem assiste, "Mindhunter" é uma experiência. Para resumir, Ford (Jonathan Groff), Bill (Holt McCallany), Wendy (Anna Torv) e os serial killers levam a série e deixam serem levados, e assim, lentamente, embarcamos nesse mesmo barco.

E ao final dos dez episódios de "Mindhunter", também entendemos o perigo. Não há UM caso, A série intriga por si só, e naquele ponto, Fincher com sua linguagem cinematográfica resume tudo da forma mais simples e comovente; em pequenos detalhes. Em um abraço do seu amigo Ed Camper (Cameron Britton), é aonde Ford esmorece e sente que "olhou para o abismo, e o abismo olhou para ele". Como Nietzsche alertava.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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