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A meia-noite de Woody Allen e o eterno retorno de Nietzsche

quinta-feira, novembro 09, 2017


Escrito no final do século 19, o livro "Assim Falava Zaratustra" de Friedrich Nietzsche deu início a ideia do "eterno retorno".

Resumindo, na conclusão de Nietzsche de que Deus ESTÁ morto e que nós o matamos, chegou-se a conclusão da vida puramente mundana. O eterno retorno, portanto, origina-se na conclusão de que, se Deus está morto, ele não é mais o ponto máximo da onde podemos retirar valores para a construção de uma moral; agora e sempre, somos nós as únicas pessoas capazes de avaliar, medir e estimar tais valores.

Assim, o homem para ele tornou-se Dioníasco, onde a tragédia está intimamente ligada com a vida. Num teatro, num palco, quando se abrem as cortinas, nós somos os atores das nossas próprias vidas e lidar com a iminente tragédia grega e a sua consequente sublimação aonde tudo no final das contas se transforma, constrói e se desconstrói. Em suma, não há destino, nós somos infinitamente responsáveis pelas nossas atitudes e reconhecendo isso, somos aqueles que devem reconhecer e agradecer o fato de que a repetição da vida é a uma bênção, pois, esse eterno retorno sem sentido da vida abre também a possibilidade da mudança, de revermos nossas atitudes para que esse retorno contenha sempre algum sentido. Nietzsche num olhar pessimista, traz a realidade à tona ao transformar obstáculos e estímulos, a situação onde o infeliz acaso, o incerto e o súbito sempre nos tornam pessoas melhores e mais fortes.

Woody Allen nunca escondeu de ninguém a sua admiração por filosófos e escritores em seus filmes, e talvez em "Meia Noite em Paris" de 2011 ele guarda a maior de suas homenagens.

A história do filme se confunde com a nostalgia pelo passado e com o eterno retorno de Nietzsche. O personagem de Gil Pender (Owen Wilson) viaja com a noiva Inez (Rachael McAdams) e família dela à Paris.

Prestes a se casar com Inez e confrontar de vez a sua família conservadora, Gil é um roteirista bem sucedido de Hollywood, porém, ao contrário do que pode parecer a primeira vista, o sonho de Gil é justamente largar essa carreira que considera um lixo para virar um escritor como seus ídolos do passado como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Se encontrando em um certo bloqueio criativo para dar prosseguimento a seu primeiro livro, Gil acaba vendo a oportunidade de viajar à Paris perfeita para "libertar" a arte que está presa em si, já que a capital é conhecida por ter abrigado os maiores escritores, pintores e cineastas que se tem notícia.

Porém a medida que a história se desenrola, fica evidente a qualquer espectador que esse bloqueio se dá pelo conflito de uma vida já planejada.

Vivendo um presente que contém trabalho e um "amor" garantidos, Gil tem um futuro, porém a sua vontade de ser um algo a mais fala mais alto. Contudo, ele é constantemente desencorajado por Inez que naturalmente está mais atenta ao casamento do que a Paris e até ao próprio Gil que ela trata como sonhador demais. Então a nostalgia vai tomando cada vez mais conta dele ao ponto em que o livro torna-se apenas um relato da sua tragédia com o fato de que o casamento e o trabalho acabaram se misturando, pois a Inez que era pra ser um refúgio e um incentivo para ele e seus sonhos, acabou tornando a vida de Gil vazia de certa forma.

E essa é uma palavra-chave do filme: nostalgia. O eterno retorno de Nietzsche pode também ser interpretado com a nossa inerente vontade que temos ao retornar o passado. Pode não ser de fato, mas repetimos constantemente que "no nosso tempo era melhor" não é mesmo? Não necessariamente. Mas assim caminhamos, com isso como mantra, abraçados com a nostalgia devido ao eterno retorno que nos obriga a viver mais um dia.

A cidade da luz desperta a nostalgia em Gil, e também aos poucos a vontade de abandonar a carreira e de fato se sentir apaixonado por alguém que o encoraje a seguir atrás de seu sonho.

Apaixonado por Adriana (Marion Cotillard) que vive nos anos 20 juntamente os reconhecidos pintores Dalí, Matisse e Picasso, nós juntamente com Gil acabamos percebendo que Adriana deseja viver em outros tempos também, no final do século 19 precisamente, época que a arte pós-impressionista de Toulouse-Latrec surpreendia o mundo.

Desiludida com o mundo, os amores e com as pessoas em geral, Adriana, como Gil, também acaba enxergando nas visitas mágicas ao passado que vive um presente vazio como ele, logo, despertando o desejo de fuga constante. Os dois se refletem e nessa realidade demonstram a nossa vontade de fugir dos problemas, de escapar aos tempos onde tudo "era mais simples e colorido". Como Gil, Adriana apesar de não estar escrevendo um livro, não encontra inspiração e criatividade em seus tempos para escrever a própria vida, caminhando sem rumo pela cidade como Gil e crendo que só no passado que não vivemos encontra-se um refúgio para a sua própria felicidade.

Vivendo uma nostalgia constante de um tempo que não viveram, de lembranças expostas e não vívidas. Adriana e Gil refletem também a nós mesmos que assistimos o filme com o sorriso no rosto ao reencontrar Hemingway, Dali e Gauguin e suas décadas mais "coloridas" que nos fazem automaticamente pensar que nosso presente é sempre mais cinza. Em outras palavras, como eles, julgamos que nessa fenda histórica tudo era mais fácil, mais musical, mais artístico e mais verdadeiro. E assim sorrimos e eternamente retornamos, assim como eu e você na casa dos 30 anos tratamos os anos 80 e 90 como melhores e mais criativos, ao mesmo tempo que julgamos a geração atual como a mais vazia de todos os tempos, e que na realidade, vai se tornar cult também num círculo que não será quebrado.

Woody Allen trabalha em Meia Noite em Paris um conceito simples e que nos aterroriza a todo momento: as lembranças e a nostalgia. Num roteiro BRILHANTE, Allen torna realidade a magia que cerca a cidade para nos mostrar nossos desejos na tela, colocando em debate o amor que sempre deve ser construído juntamente com o presente.

A meia-noite Gil e Adriana sonham acordados e vivem a década que amam, mas é nas caminhadas noturnas e solitárias que Gil percebe que a magia está sim na cidade, mas sobretudo em si mesmo. É o "eterno retorno" que nos proporciona a possibilidade de sempre tomarmos uma decisão para tornar nossa vida menos dolorosa, e ao viver a sua nostalgia de toda meia-noite, Gil percebe que deve usar a arte que o inspira para libertar das amarras do sonho e da realidade para se tornar de vez muito mais do que é. Não é a toa que ele sugere ao cineasta Buñuel uma história em que as pessoas se encontram em um lugar aonde são surpreendidas por não poderem sair pela porta, assim sendo obrigadas a confrontarem consigo mesmas.

Como diria Heráclito na metáfora com o rio, não podemos ser as mesmas pessoas que fomos ontem, portanto nosso amor pelas pessoas e coisas mundanas também não pode ser o mesmo. A vida é uma eterna mudança.

Então no final, Gil muda toma uma decisão, larga Inez e permanece em Paris caminhando com as mãos nos bolsos de certa forma conformado e esperançoso, pensando no surrealismo de Dalí como a vida, linda e sem sentido, vendo a chuva provocar a mudança nos céus e tornando a cidade-luz mais bonita. Talvez é o que deveríamos fazer.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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