post Resenha Cinema: Thor: Ragnarok - DescafeinadoBlog

Resenha Cinema: Thor: Ragnarok

quarta-feira, novembro 08, 2017


A primeira e única coisa até agora que conclui sobre "Thor: Ragnarok" é: porque ele não foi assim desde o começo?

É claro e evidente que a Marvel para estabelecer seu universo no cinema quis e precisava de uma fórmula. Tal qual um plano "infalível" do Cebolinha (com um alto nível de acerto), a Marvel moldou uma fórmula em comum entre seus filmes que estabeleceram os super-heróis na telona e não apenas nas páginas de quadrinhos. E por mais que você reclame e diga que é "plastificado" (já que sei hater é a profissão da vez da internet), é fundamental dar o braço a torcer e dizer que sim, a Marvel praticamente fez o nerd ser o "novo sexy" da jogada e o grande público pensar o Hulk (por exemplo) nunca mais como algo limitado a um nicho.

Mas só que pera ae, se é uma fórmula, falamos de uma espécie de industrialização, logo, ligado a perda da espontaneidade, criatividade. A Marvel que foi acusada de não dar espaço para a criatividade principalmente após as saídas de Edgar Wright (que iria dirigir Homem-Formiga) e do intocável Joss Whedon (de Vingadores), quase dez anos depois do lançamento do primeiro Homem de Ferro a Marvel encontrava-se em uma "sinuca de bico" e olha só, quase que imperceptívelmente para o grande público está mudando esse jogo que já era ganho. E isso começou com James Gunn e os Guardiões da Galáxia vol.2 nessa nova fase, e meu amigo, agora Taika Waititi não fez apenas o terceiro filme do Thor, ele fez o SEU filme do Thor. 

O roteiro é simples. Thor volta para Asgard para avisar o pessoal que um demônio quer trazer até eles o Ragnarok, o fim dos dias viking. Porém, o verdadeiro Odin (Anthony Hopkins) está perdido, e nessa busca ele e Loki (Chris Hensworth) encontram o que nem imaginavam ter, uma irmã mais velha. Hela (Cate Blanchett) foi banida de Asgard por Odin, e é a deusa da morte não por decreto, mas por mérito mesmo, assim como dona do trono de Odin na sua ausência.

Bom, lembra da parte na Terra que citei? Nesse meio tempo, o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) aparece, e resumindo essa confusão toda, o Thor (na metade do filme que é baseada na HQ Planeta Hulk) no final das contas vai parar num planeta remoto (Sakaar) que é o ferro-velho de todo o universo, comandado por um sujeito com um parafuso a menos chamado Grão-Mestre (Jeff Goldblum) que o captura e o obriga a lutar numa arena contra o Hulk (Mark Ruffalo). 

Kenneth Branagh foi responsável pelos dois filmes anteriores do herói e talvez a sua comparação com o longa de Waititi seja exatamente o que evidencia o problema dos outros dois filmes anteriores: eles são sérios demais. Minto, "pseudo-sérios", afinal, como ser sério sobre um herói mitológico irmão do rei da trapaça? E repito, MITOLÓGICO.


Cobra-se "seriedade" dos super-heróis. O que se vê mais em fóruns e caixas de comentários são meliantes se queixando da Marvel por fazer filmes pipoca como se o mundo nerd que é agora de todo mundo, não possa ser de todo mundo. Em "resposta" a esses "desesperados" em mostrar que o mundo nerd é sério e lotado de conteúdo cult, o diretor neo-zelandês Taika Waititi via Twitter tenha dado a resposta perfeita em forma de ironia:

“Concordo. O mundo tá muito hilário nesse momento. Há muita risada na vida real pra um filme ser ‘divertido’. Abaixo a felicidade!”

Pense, um herói mitológico de capa detentor de um martelo à la Excalibur que só os dignos empunham, e agora no espaço... Como levar isso a sério? Então que tal começar a enxergar o Thor e todos os heróis eles são: heróis? Seres ficcionais, personagens que espelham nossas virtudes, o que somos, queremos ser, e nossos desejos. Em suma, o simples desejo de abrir um gibi e ler uma boa história? Divertir-se. Qual o problema de ir ao cinema e querer isso? Pensar que há espaço para tudo e todos e que há heróis para tudo e todos.

Waititi através da telona do cinema abriu um gibi lindo divertido e colorido na nossa frente. Oras, o que era ficção agora se tornou também científica e o diretor fez um filme que ELE também queria ver, nos fazendo compreender que até agora a Marvel quer que seus filmes sejam assim a partir de agora, de fã, para fã. Filmes autorais enquanto a DC tenta acertar o jogo até agora, provando que a editora tem controle total sobre o que faz ao deter um timing correto sobre o que é necessário para contrapor sua concorrente. 

Enfim, Taika Waititi pensou nisso e enxergou Thor simplesmente como um herói, arrancando-lhe do armário o fazendo admitir para todos nós o que é: o herói é uma comédia. 

"We come from the land of the ice and snow
From the midnight sun, where the hot springs flow
The hammer of the gods
W'ell drive our ships to new lands
To fight the horde, and sing and cry
Valhalla, I am coming!"

"Nós viemos da terra
Do gelo e da neve
Do sol da meia-noite
Onde as fontes quentes explodem

O martelo dos deuses vai guiar
Nossos barcos para novas terras
Para combater a horda, cantar e chorar
Valhalla, eu estou indo!"

Embalados pela trilha de Immigrant Song do Led Zeppelin (que toca apenas duas vezes durante o filme e são as mais perfeitas duas vezes), eu imagino que a descontração de Guardiões da Galáxia tenha sido a principal inspiração de Waititi, e não tem problema algum nisso. Thor: Ragnarok é uma grande piada como o Loki, aliás, isso faz a grande estrela nem ser ele mais, o que é ÓTIMO. Todos se divertiram no set como eu na cadeira do cinema e acho que tal qual Anthony Hopkins sendo o Odin

Thor: Ragnarok não é só um filme da Marvel, é um filme sobretudo viking. É colorido como deveria ser, maravilhoso como a Cate Blanchett como a Hela e divertido como o Hulk burrão que amamos, finalmente trazendo o Thor para os holofotes ao transformá-lo finalmente em um herói com H maiúsculo nos cinemas, e não apenas aquele cara fortão que carregava um martelo que ninguém levantava. Tal qual Asgard é um povo e não uma terra; o Thor não é o martelo. É ele mesmo.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários