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Resenha Livro: Matéria Escura (Blake Crouch)

terça-feira, novembro 21, 2017


Em Breaking Bad, Walter White é um químico genial que fez as escolhas da sua vida sempre apoiado na família, e que em contrapartida também corroeu-se por dentro por sempre sentir que tais escolhas o fizeram abrir mão de si mesmo. A partir do ponto da história em que ele é comunicado do câncer terminal, ele sentiu ali naquela sala da forma mais cruel o inevitável fim da vida, mas sobretudo, de uma só vez o peso do que não realizou nela e do que poderia ser ao invés do valor do que já tinha. Walter ao longo da sua vida não foi ele mesmo, mas também não deu a importância devida ao que tinha no presente. A inveja e a decepção de um homem frustrado foi o que lhe fez pensar que nada mais importava dali por diante; e confrontado pelo temor pelo futuro da sua família, Walter resolveu tornar-se alguém não importando o custo disso, então, ele fez tudo o que não fez para se sentir que o que fazia, no final das contas, o tornava vivo.

E desde as tragédias gregas encenadas e recitadas nos meios das praças, o drama é o modo de colocarmos a ficção em confronto com o nosso presente, isto é, refletirmos acerca do que pode e parece improvável de acontecer. Em geral, encenar uma situação que na pele de um semelhante possa nos causar a empatia o suficiente de refletirmos acerca do certo e do errado em torno de nós mesmos e em como cada decisão pode nos afetar para sempre. Por isso na televisão, as séries na última década saltaram do comum de dar uma risada simples sobre o inusitado, para o sorriso amarelo em torno do drama de ser um homem difícil numa vida complicada. O público acaba ditando o que assiste, e hoje o simples bem contra o mal não satisfaz mais, a zona cinzenta deste "homem difícil" nada mais é do que em algum ponto um reflexo de nós mesmos e é justamente por essa empatia instantânea que surge em algum ponto que essas histórias acabam sendo bem sucedidas.

Não é preciso ser um professor de química genial e nem virar traficante para se identificar com isso, ao acordarmos todos os dias pela manhã é inevitável não refletirmos as sobre nossas escolhas e do que poderia ter ser feito. É confuso, mas nessa dor causada pelo arrependimento que devemos compreender que as escolhas definem o que vivemos, e mais do que isso, são tais escolhas que definem o que nós somos; ou o "logo existir" que Descartes dizia.

Em "Matéria Escura" senti esse paralelo entre a série e o livro. Blake Crouch coloca em reflexão a discussão sobre o quanto estamos dispostos a aceitar nossa realidade, no caso, escolher o amor em detrimento do sucesso profissional. Em suma, sobre o peso das nossas escolhas diante a nossa existência, e o que essas escolhas que definem tal existência são capazes de criar valor diante a possibilidade de podermos viver numa outra escolha.

Jason Dessen é um professor de física, casado com Daniela Vargas e que tem um filho adolescente com ela chamado Charlie. Enfim, logo entende-se que Jason é uma pessoa bem sucedida que mora no subúrbio com uma linda mulher e filho de um jovem promissor. Mas será? O que atormenta a vida desses homens é chamada de vida mediana, é aquela que sentimos que poderíamos ser muito mais por observar exemplos próximos ou ate mesmo esse amigo dizer isso a nós naquela conversa informal. 

Contudo, apesar dos pesares, Jason se considera um homem de sorte e realmente ele é à nossa vista, mas isso até o ponto em que ele todos os dias se dá conta de que é somente um professor de física como qualquer outro e que ao invés de ter um filho com Daniela, ele podia ter priorizado sua carreira. Aliás, e Daniela? Ela se sente realmente feliz de ter aberto mão de sua paixão pela arte? E se ela não tivesse casado com Jason, nem tivesse tido um filho com ele? 

O livro gira em torno dessa pergunta: e se tivéssemos feito tudo diferente? Não em questão de tempo, mas em questão de variações desse tempo.

Nesse "se", ao sair de carro pra comprar sorvete pra sua esposa, ele imagina que o Jason de outra realidade é aquele que foi atrás de seus sonhos e ambições, deixando qualquer emoção de lado; assim, se tornando um doutor em física e fazendo uma descoberta que revolucionaria a ciência. Será que ele seria mais feliz se ele tivesse seguido esse caminho? A questão é que esse Jason da outra realidade tornou esse "se" possível e agora fará de tudo para viver agora o que não escolheu.

Utilizando-se da consultoria de Stephen Hawking, Neil deGrasse Tyson, Michio Kako, entre outros; no livro, Blake une o drama do homem moderno em torno da felicidade improvável à ficção científica, e logo entende-se porque os direitos sobre "Matéria Escura" foram comprados pela Sony desde o formato de manuscrito, pois realmente ele é um livro muito bem escrito e por isso difícil de se largar.

O autor de Wayward Pines escreveu uma obra cativante e surpreendente por se propor a ir bem além da ação e aventura ao utilizar-se da ciência, multiverso e física quântica, sempre de forma simples e didática, para demonstrar a importância acerca das reflexões que temos que fazer sobre o nosso presente e o quanto realmente estamos dispostos a abrir mão de nossa vida em favor de um bem maior, mas sobretudo, do quanto essas nossas escolhas são capazes de definir a nós mesmos e do que realmente nos importa se, como Jason, pudéssemos ter a possibilidade de que podemos viver outro presente de nós mesmos.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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