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Resenha Série: The Good Place (1ª Temporada)

segunda-feira, novembro 13, 2017


Não sou uma pessoa que acompanha séries de comédia, pelo contrário, eu confesso que praticamente ignoro qualquer novidade do gênero e inconscientemente separo uma sitcom de uma série, mesmo elas sendo de fato a mesma coisa. Isto é, The Big Bang Theory pra mim acaba sendo uma coisa praticamente diferente de Breaking Bad. Mas também vamos aqui convir de que o gênero acabou ficando naturalmente em segundo plano, restando a tradição e o costume do telespectador que quer chegar em casa do trabalho e rir numa quarta à noite, por exemplo, para segurá-las no horário nobre de qualquer canal que se preze.

Não estou aqui questionando o que é bom ou ruim, mas sim o que é marcante. Faça um exercício, de quais séries de comédia você lembra se não for "The Big Bang Theory", a falecida (por causa da saída do Charlie Sheen) "Two and a Half Men", e "Os Simpsons"? Em comum as duas primeiras foram criadas pelo Chuck Lorre e sim, sobre TBBT está longe de ser uma novidade pra ser recomendada, mas apesar de seus momentos engraçados, ela neste momento tem aquele sabor requentado de piada já contada baseada em esteriótipos nerds; e sobre "Os Simpsons", tá a tanto tempo no ar que perdeu a essência e virou mais um fan-service com as aberturas.

Eu creio que no humor televisivo precisamos de um frescor (até rimou) e certas fórmulas, não séries, necessitam de uma renovação sempre. E se na TV em time que está ganhando não se mexe, resta a nós fazermos esse movimento.

O mundo mudou, aquele cara que fica em frente a TV em certo horário não tem mais sua predominância e eu acredito que o humor também deva acompanhar tais mudanças. E "The Good Place" com seu humor afiado e sobretudo inteligente, tornou-se finalmente o tipo de série de comédia que eu procurava. Uma série, não uma sitcom. Uma série suficientemente boa para eu recomendar.


A série conta a história de Eleanor (Kristen Bell) que, após morrer em um acidente envolvendo um carrinho de supermercado vai parar no "lugar bom", um tipo de paraíso, um lugar para onde todas as pessoas que foram boas e fizeram o bem durante as suas vidas vão quando morrem. Lá ela é recepcionada pelo "arquiteto" desse lugar, Michael (Ted Danson) que lhe explica porque foi parar ali e para aonde será guiada. Só que enquanto está sentada ali e ouve os elogios de Michael, Eleanor lembra que ela era uma egoísta atendente pedante de telemarketing cachaceira, portanto, não faria sentido algum ela estar ali. Contudo, se obviamente uma parcela muito pequena da população ganha um lugar nesse "lugar bom", então "everything is fine" como se lê na parede da sala de espera. Ela foi premiada!

Saindo de lá, ela é guiada por Micheal para a casa que foi planejada para ela que irá morar juntamente com a sua alma gêmea por toda a eternidade, Chidi (William Jackson Harper) um professor de filosofia especializado em ética, e a seus vizinhos: a filantropa Tahani (Jameela Jamil) e a Jianyu (Manny Jacinto), um monge budista que fez um voto de silêncio que se estende para além morte.

Só que como deixei claro no parágrafo anterior, a nossa Eleanor é a Eleanor errada, então ela não deveria merecer estar ali. Essa engano provocado pelo algoritmo supostamente infalível de Michael será responsável por provocar desequilíbrios no "lugar bom", já que Eleanor apesar de reconhecer esse erro, não informa Michael sobre isso (você informaria?) e ainda pede ajuda a sua alma gêmea "falsa", Chidi, para se tornar a pessoa que não conseguiu ser em vida: uma boa pessoa.

Contar mais do que isso seria dar spoilers gratuitamente.

"The Good Place" tem uma premissa extremamente simples, tratando com muito bom humor, leveza e ironia um assunto que acaba sendo espinhoso para religiosos e filósofos que tentam por centenas de anos buscar respostas sobre aonde nós vamos depois da morte. E o mais importante, nós somos bons? E como podemos ser bons? 

E sobre isso Chidi é fundamental, não só porque ele é o responsável por ensinar ética para imoral Eleanor, mas sobretudo porque são as suas aulas de ética e filosofia que se tornam o fio condutor da história no que se refere a nossa compreensão do exagero e moralidade que permeia a série e seus personagens. E digo tentativa. O que torna o personagem hilário, já que justamente por isso ele é incapaz de tomar uma decisão. E bom, se a gente tenta definir o que é ética, e até conseguimos com ajuda do dicionário, por outro lado somos incapazes de praticá-la em sua totalidade. Sim, pensar demais enlouquece. E tentar definir o que é ser bom é pior ainda.

Criada por Micheal Schur (Saturday Night Live), "The Good Place" guarda os melhores textos de comédia da década e sem medo de errar, é uma das melhores séries da atualidade, sendo elas de comédia ou não. Contando com uma caracterização que só colabora para a construção desse mundo non sense, em "The Good Place" desde Kristen Bell (Verônica Mars e Gossip Girl) que é a típica personagem que amamos odiar, até Ted Danson que está simplesmente maravilhoso como Michael, não há um personagem que não passamos a amar na série. Talvez o maior exemplo dessa leveza e bom humor que permeia a série a todo momento seja a assistente à la Cortana/Siri, Janet (D'Arcy Carden), aliás, as atuações passam a impressão de que os atores estão se divertindo ainda mais que a gente vendo a série.

Entre um frozen yogurt e outro, o que nos parece besta e inocente, não se passa de uma ideia vendida através de uma genial e doce metáfora que acaba fazendo todo sentido em um dos melhores plot twists da década, sem medo de errar.

"The Good Place" é única (e está na Netflix). Cite qual foi a última vez que você assistiu a uma sitcom que te fizesse realmente pensar ao tratar de pós-morte, filosofia, algoritmos, céu e inferno. Aliás, não é isso do que se trata a comédia mesmo? Ao invés do velho esquema de gags seguidos que Chuck Lorre e outros praticam tanto na TV e no cinema, que tal fazer humor com uma dose de inteligência? Ele que me desculpe, mas certos roteiristas precisam rever seus conceitos.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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