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O lado tóxico da força em "Os Últimos Jedi"

sexta-feira, dezembro 22, 2017


"Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o direito de dizê-la".

"As redes sociais deram a voz a uma legião de imbecis"

Umberto Eco e Voltaire são dois filósofos separados por quase dois séculos, mas suas duas frases nunca se aproximaram tanto como nos tempos atuais. Creio que a filosofia, como a arte, trabalham em um ritmo evolutivo; e para se renovar, é preciso se arriscar. Para a arte não morrer, é necessária a renovação.

Aposto que quando Picasso pintou seus quadros foi apedrejado pelos admiradores de arte metidos a críticos como uma "não-arte". Para onde se foi a verdadeira criatividade, eles perguntavam. E assim, nesse ritmo de eterno saudosismo, caminha a humanidade, a passos de formiga e sem vontade como Lulu Santos canta.

Abordei isso num texto que fiz relacionando Woody Allen a Nietzsche abordando um ponto de vista sobre o eterno retorno e o filme "Meia Noite em Paris". Nós humanos somos eternos insatisfeitos. E se essa insatisfação constante nos move em direção ao avanço, a mesma é capaz de causar o que chamamos de retrocesso. 

Nesse ritmo constante de vai e vem, a cultura se move. 

Vamos pegar exemplos no rock. AC/DC e Motorhead são exemplos de bandas que foram notabilizadas pela estabelecimento em um gênero muito específico e característico a cada uma das bandas. Quando perguntadas a qual gênero elas pertenciam, diziam que simplesmente ao rock n'roll. Justo. Mas a cada lançamento eram ridicularizadas e acusadas de falta de criatividade, taxadas por uma discografia que soava "tudo igual". Agora vamos citar Iron Maiden e Metallica, duas entidades no heavy metal que quando resolveram alterar seu som de um álbum pro outro, foram apedrejados por se render a indústria ou simplesmente fazer um álbum "ruim". "Cadê a criatividade?" eles novamente diziam.

Filmes passam pelo mesmo processo, e no que se refere a sagas isto é ainda mais delicado. Mexer nesse vespeiro é algo complicado, porém necessário. E talvez o maior exemplo recente seja Heather Ledger que no final das contas é aclamado pelos fãs como o "melhor Coringa dos cinemas", os mesmos que o criticaram por ele ter sido um "caubói gay" em "Brockeback Mountain", portanto não capaz de dar vida a um personagem tão icônico. E assim nesse altos e baixos segue o chororô, aí vão alguns exemplos: Micheal Keaton, acusado de ser magro e esquisito demais para o papel de Bruce Wayne, Ian McKellen taxado como velho demais para ser o Magneto e Hugh Jackman que era "ninguém demais" para ser o Wolverine no X-Men de 1999; até mesmo Ben Affleck - como se ele fosse o maior dos problemas nas adaptações da DC. Exemplos de "por que não te callás?" não faltam e agora a bola da vez é Star Wars.

Disse em minha resenha pra "Os Últimos Jedi" que ele é excelente justamente por ir contra a correnteza que levaria para a simples emulação. O filme avançou a história e fez da inserção de novos personagens a "superação" definitiva da novelona Skywalker, entre Jedis* e Siths*, que durou 6 episódios. Os dois lados caíram e se reergueram, as ideias se renovaram, e o fracasso como Yoda disse para Luke, ensina. Não é nos empoeirados livros sobre a Ordem Jedi que ele encontrará sabedoria, essa é a renovação, reciclar-se para amadurecer. Essa é a vida. E é irônico que justamente o que ele aborda, a arrogância por achar que algo esteja sempre correto, seja o adjetivo perfeito para definir o fã nerd e principalmente de Star Wars.

Certo que nem ligo pro Rotten Tomatoes, mas ele é sim um bom parâmetro. Na média, o filme de Rian Johnson tem 95% de aprovação da crítica e 55% do público. Por que essa diferença? O "fracasso" de um lado é justificado por uma notícia que informa que entre outros motivos um grupo de direita é responsável por criar bots para abaixar a nota do filme no sistema dos tomates, assim como um fã insatisfeito ao criar um abaixo-assinado para que o oitavo episódio seja removido (isso mesmo, uma pausa dramática) do cânone oficial de Star Wars. E não só isso, mas no título diz brilhantemente: "abaixo assinado contra a Disney e seu tratamento com os filmes e seus fãs". 

Sim é isso que você leu. Os fãs que criticaram "O Despertar da Força" por ser praticamente uma cópia de "Uma Nova Esperança", criticam o fato de "Os Últimos Jedi" ser diferente demais do cânone oficial e que esse deveria ser mais como "O Império Contra-Ataca" foi.


O aclamado estudioso dos meios de comunicação Henry Jenkins, lançou o livro "Cultura da Convergência" em 2006 abordando diversas obras da cultura pop da época e seu impacto na comunicação. Isto é, não só as novas mídias provocam a convergência entre os meios de comunicação, como este fenômeno impacta diretamente o que conhecemos como cultura participativa e inteligência coletiva. Resumindo, fenômenos da cultura pop são debatidos, consumidos, e produzidos ininterruptamente; não "morrendo" com o tempo. 

O fenômeno de Star Wars é mensurado pelo cânone não-oficial chamado Legends, e através dele podemos entender a força colaborativa que Star Wars tem no mundo. Hoje o fã não só assiste, mas "manda"; ou pensa que manda. É o fã não se contentando em ser espectador é o que vemos nessa discussão em torno de "Os Últimos Jedi". 

É complicado medir liberdade de expressão e concordo de que você deve lutar para que o quer você quer dizer seja dito, mas creio que ela começa na tentativa de não ser um idiota e saber ignorar algo quando não gostar; e no que se refere a Star Wars, tal abaixo-assinado ridículo demonstra como tais fãs não querem que um filme seja bom, mas dentro de SUA caixinha por eles fazerem parte de sua vida e até do que ele é. Em outras palavras, que a obra seja como eles querem adotando um papel de roteirista e de diretor além de fã. 

O grupo de extrema-direita "alternativa" responsável pelo abaixo assinado, entre outras reivindicações, aponta pra inserção de personagens negros (Poe) e asiáticos (Rose) na trama, questionando o fato de Rey ser a personagem principal da trama em detrimento a Luke ou qualquer outro Skywalker, querendo que os homens sejam realocados na posição de "senhores da sociedade". É isso que você leu, agora ria.

Aliás, Umberto Eco continuou na sua declaração de 2015: "Normalmente, os imbecis eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel"

Obviamente estou atentando pra um grupo EXTREMO e pra sua opinião bizarra que não é válida a partir do momento em que ela desrespeita um semelhante (e não adianta discutir, não é). Mas a legião de fãs tóxicos na cultura nerd tem sua voz ainda mais ativa com a internet (e que bom né?). Mas tais fãs ou não, na busca pela "lacração" de um e outro (no caso do Brasil naturalmente colocando política no meio e questionando a diversidade como algo forçado e "esquerdopata" - como se o fato de eles serem bons atores ou não importasse), só me desmotiva não apenas a fazer parte do "lado nerd da força", mas como da internet social num todo. E sim, te respondo caso você me questione, não farei falta alguma. 

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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