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Resenha Cinema: Assassinato No Expresso Oriente

quarta-feira, dezembro 06, 2017


Penso que um remake tem duas funções que se convergem: a homenagem ao produto original e a releitura que traz a obra para os novos tempos ao público atual, e que sobretudo tenha um diferencial que chame atenção ao original. Nisso Kenneth Branagh foi perfeito, pois além de sua releitura da obra mais famosa de Agatha Christie ser elegante o suficiente para ser digna para ser vista como homenagem, seu filme introduz devidamente Hercule Poirot no imaginário atual; tanto para quem leu o livro e assistiu ao filme dos anos 70 com Sean Connery, como para aquele que como eu, até sabia da existência do livro e da autora, mas não sabia da história a fundo. 

Branagh cumpre direitinho seu dever, apresenta o Expresso do Oriente para quem não conhecia e toda a sua aura luxuosa. Contudo, para entender devidamente o livro e o filme, é necessário ficar por dentro de todo o contexto histórico que o cerca. 

O Expresso do Oriente foi um trem de longa distância que operou do final do século XIX até meados dos anos 60 (em seu formato tradicional) e literalmente cortava a Europa ligando Paris até Constantinopla (hoje Istambul) contando com paradas em cidades como Stuttgart, Munique, Viena, Budapeste, Belgrado, Sófia, e no seu apogeu nos anos 30 quando contava com três trajetos, Zurique, Milão, Veneza e Atenas; realmente uma viagem fascinante no imaginário de qualquer um que sonha em conhecer a Europa. O período da qual o livro se passa é em seu apogeu, quando seus trens passaram a ter um serviço de luxo com chefs renomados para trabalhar em seus vagões atendendo frequentemente à membros da realeza, aristocratas, milionários e outras figuras importantes em geral.

O thriller Assassinato no Expresso Oriente se dá pela ligação da autora com o Expresso. 

Em 1931 ela relatou em sua biografia que uma chuva a deixou presa ao trem com os outros passageiros por aproximadamente 24 horas, incidente que logicamente fez a escritora mandar uma carta à seu marido que trabalhava em uma escavação arqueológica em Nínive (atual Iraque), contando sobre o ocorrido e aproveitando a observação forçada, descrevendo detalhes e características físicas dos passageiros que chamaram a sua atenção. Tudo isto serviria de base para seu futuro romance.

A outra parte, a do assassinato, nasceu no ano seguinte no sequestro do bebê Charles Lindberg Jr., filho do famoso aviador Charles Lindberg que em 1932 foi levado de seu berço enquanto dormia em sua casa em New Jersey. Depois de intensas buscas, dois meses depois o bebê foi achado morto pela polícia. Imediatamente as suspeitas caíram em cima dos empregados, e uma empregada chamada Violet Sharp foi apontada como a principal suspeita e cúmplice. Interrogada e pressionada pela mídia e público que ansiava por justiça, ela cometeu suicídio antes de saber que a polícia concluiu que ela não estava envolvida, com isso, o imigrante alemão Bruno Hauptmann acabou como principal suspeito. Acusado e preso, dois anos depois Hauptmann foi executado na cadeira elétrica, jurando inocência em um caso que desperta dúvidas até hoje.

Essa mescla feita por Agatha, fascinada por mistérios, é primorosamente transportada pra tela do cinema, mas infelizmente o suspense de forma geral acabou sendo apenas um borrão. Como se o presente tivesse embalado numa linda embalagem, mas viesse com defeito. 


Por trás da fotografia fria e direção de Branagh simplesmente fantásticas nos enquadramentos de câmera e ambientação da época, o roteiro se ateve prioritariamente ao básico. Contando com uma perspicácia de Poirot (Kenneth Branagh) que chega à suas conclusões num passe de mágica e fala sozinho como se ninguém fosse capaz de o entender, o roteiro preferiu ser bem direto ao ponto; o que deixou os personagens bem delineados em caráter (muito por causa do elenco de peso contando com nomes como Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Penelope Cruz, Judi Dench e William Dafoe), mas sem profundidade alguma que possa nos fazer nos apegar a algum deles ou até dar tempo de desconfiarmos de um deles antes que outra evidência fosse jogada na tela.

Algo justificável ao tipo de público a qual o longa se direciona, escolhendo a "construção do mito" ao jogar todos os holofotes em direção à excentricidade de Poirot e seu TOC (principalmente em seu início). Assim, praticamente ignorando o teor investigativo (não sobre os interrogatórios), o que o deixou também parecer apressado em entregar logo a resolução do problema, me incomodando muito e em certo ponto me fazendo até olhar para o relógio, pois vi a história de Agatha Christie sem NENHUM suspense.

Sobre a "lição de moral" que o livro de Agatha carrega, isso até poderia melhor diluído. Porém é fascinante que a discussão seja totalmente válida após tantas décadas do livro ser lançado, durante a investigação quando julgamentos são feitos aqui e ali, e quando Poirot chega à conclusão do mistério e se vê com as suas convicções de "certo" e "errado" - ou do que gosta e não gosta quando come um bolo com Ratchett - ser confrontada pela realidade. Um crime justifica o outro? Os fins justificam os meios? Em suma, o filme funciona melhor quando a tela se foca Poirot concentrado na sua investigação e menos nos seus TOCs, e no final das contas, observa o assassinato em si como algo sempre muito maior que afeta várias pessoas, onde naquelas breves e brilhantes reflexões percebemos que isso o fez olhar para a vida de outra forma.

Se hoje temos o duelo Marvel x DC, nada mais justo que tirar a poeira de Hercule Poirot para "rivalizar" com Sherlock Holmes no imaginário do público. "Assassinato no Expresso Oriente" é o tipo de filme divertido e bem feito, servindo ao propósito de atiçar a curiosidade pra quem deseja se aprofundar na história e na própria bibliografia da autora. Agora é esperar ansiosamente pela sequência que deverá mostrar o detetive investigando uma morte no Rio Nilo. 

E adivinha como se chama o livro...

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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