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Resenha Cinema: Planeta dos Macacos - A Guerra

sexta-feira, dezembro 22, 2017


Tanto o livro de Pierre Boulle quantos todos os outros filmes (numa obra inesgotável para Hollywood), subvertem a ordem natural da natureza para criticar a soberba da humanidade e a utilização desta para justificar a lei do mais forte em priorizar este em detrimento daquele, segregação que, velada ou não, persiste na humanidade ao longo dos séculos. É principalmente nesta nova trilogia que essa discussão evolui.

Deixando de lado naves espaciais e planetas, a trilogia do Planeta dos Macacos foi sempre pautada por um roteiro bem construído, utilizando-se bem dos clichês que essa discussão sobre diversidade promove para ir bem mais além do que os subtítulos de cada capítulo da trilogia sugerem, e isto fica ainda mais evidente quando "A Guerra" do título na verdade é interior, é de Ceasar (Andy Serkis).

Se na letra fria do dicionário o "confronto" é o encontro face-a-face e a "guerra" é o combate, tanto o segundo como o terceiro filme tem uma cola, colocando no ponto central Ceasar, aonde através das suas ações podermos apreender a retórica necessária para diferenciar as duas palavras, e assim, entender o contexto dos dois filmes precisamente. Em suma, a guerra alardeada vai muito além de um confronto armado, mas tanto pra um lado como o outro, ela se mostra através das consequências. Com certeza isso é decepcionante para quem espera que essa Guerra seja somente aquele o produto comum de explosões e mortes, porém o terceiro filme é um ato final que destrói convenções pré-estabelecidas e é justamente por isso que ele brilha tanto e sedimenta a trilogia na minha memória. 

Mantendo o ritmo contemplativo e simbológico de a "A Origem" e "O Confronto", tanto César e o Coronel (Woody Harrelson) são mostrados como contrapostos que se fundem através do desejo de sobrevivência, aonde símios procuram seu lugar e os humanos perecem por causa das suas decisões através de um vírus que cada um carrega. O confronto dos dois lados em si, já foi. A guerra é da natureza contra aquele que a desafiou, e essa faz sua lei valer. 

Bom, sabemos que os humanos irão perecer no final das contas (e até torcemos pra isso), contudo, é uma luta sem ganhadores na medida em que pelo olhar de Ceasar observamos que a luta é dele contra ele mesmo, ao não se deixar levar somente pelo desejo de vingança que o faria tornar-se o líder que ele lutou pra não ser - tanto que sua fala pausada parece expressar que ele tem receio justamente disso. 

Para ele, se o Coronel e seus soldados devem morrer, não deve ser pelas suas mãos, e não há melhor alegoria que o vírus e a própria neve para "enterrar" definitivamente a arrogância e soberba que tomou conta da humanidade que ironicamente pavimentaram a ruína da própria espécie. Não é só pelo muro que o Coronel resolve construir que a mensagem de Matt Reeves aos tempos atuais parece clara. 

Só que por mais que o Coronel seja desenhado com um vilão, isso cai por terra quando entendemos que a sua vida foi destruída pela morte. Sim, por mais caricato que seja a construção de um vilão ser pautada pelo jogo de causa e consequência da vida, ele serve perfeitamente para demonstrar seu propósito "messiânico" como uma consequência natural diante ao medo de sua espécie perder tudo aquilo que a tornou superior às outras. 

E se formos falar em propósito, a trilogia tem como função ampliar o escopo da discussão de Bouille não somente replicando a essência de sua obra que invertia humanos e macacos. Matt Reeves buscou filmar um blockbuster que através do olhar de seu personagem principal, enxergássemos como a busca pelo virtuosismo deve ser constante entre o único ponto que difere a humanidade e os outros seres vivos: a capacidade de fala. E é nessa reflexão que habilmente entram os dois personagens adicionados à trama, o Bad Ape (Steve Zahn) e a menina (se liguem nas referências ao original) Nova (Miller) adotada pelo simpático orogotango Maurice (Karin Konoval); um pela sua veia cômica muito bem-vinda à essa distopia melancólica, e a outra capaz de causar empatia somente por um olhar, demonstrando que a comunicação não-verbal através de um sentimento genuíno de compaixão vale muito mais que mil palavras.


Muito mais político, e por isso mais lento que os outros dois exemplares da trilogia, a Guerra é pautada, como disse, pelas suas consequências, mas sobretudo pelo líder entender a responsabilidade que é ser um espelho para aqueles que o seguem. Por mais que Ceasar tenha seus momentos em que as emoções afloram e o mais inteligente entre os símios e humanos também tenha os seus momentos de fúria e irracionalidade, em "A Guerra" seus olhares (em uma captura de movimento IMPRESSIONANTE) demonstram que há sempre outra decisão a se tomar.

E é assim que a trilogia brilha intensamente num mar de blockbusters de 2017, 16, 15... aonde o subtítulo de Guerra do terceiro filme já entregaria o seu desfecho. O elenco é fundamental no peso de todo o drama e vale pontuar o trabalho espetacular, novamente, de Andy Serkis e de todos os outros "atores macacos" 

É um verdadeiro frescor que nessa avalanche de fórmulas batidas, os clichês sejam utilizados de forma perspicaz à favor de toda a trilogia, assim, abordando temas complexos aos mais simples sem ofender em nenhum momento a inteligência do espectador. Na trilogia, os macacos e principalmente a humanidade nunca foram pintadas como meros contrapontos; didáticos, mas sem pressa alguma, a sensação ao final da história de Ceasar é que reafirmação de que a arte não é só feita para entreter e ser julgada, mas também com a função de refletir nosso lugar.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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