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Resenha Livro: O Vilarejo (Raphael Montes)

quinta-feira, dezembro 07, 2017


Ter contato com "O Vilarejo" é conhecer o que é literatura fix-up. Confesso de que não fazia ideia disso até ler uma matéria sobre o livro, então fui pesquisar um pouco.
Prática que se tornou comum e mais aceita na década de 1950 quando a ficção-científica, fantasia e horror estavam transitando naquelas publicações baratas que conhecemos como literatura pulp. Fix-up na tradução literal significa correção, mas é mais certo tratar tal como "colagem" se formos abordar corretamente sua estruturação. 

Imagine que um autor possua dezenas de contos e noveletas num mesmo cenário, ambiente, com personagens interligados ou frequentes. Partindo desse ponto, o escritor pode unificar essas histórias montando-as como episódios, mesmo que aparentemente isolados, ao acrescentar materiais que os liguem e onde a evolução dos personagens acontece conforme os eventos se sucedem. Isso é basicamente o fix-up.


Agora vamos pensar em Raphael Montes e seu Vilarejo. O universo criado pelo escritor é focado nos sete pecados capitais nomeados pela Igreja, mas com cada um dos nomes dos demônios supostamente responsável por cada uma delas. E este Vilarejo perdido foi habitado por seres humanos que são influenciados, mas sobretudo tomados por estes sentimentos, como a inveja, a soberba, a gula e a ira, que acabam sendo nada mais do que a natureza do ser humano.

Li os contos sequencialmente e apesar deste formato fix-up que proporciona que eles sejam lidos em qualquer ordem sem afetar o resultado final, creio que o impacto final da revelação seja maior dessa forma. 

Com ilustrações de Micheal Damm em suas páginas (uma dica, não veja antes de terminar de ler o capítulo), "O Vilarejo" não se encaixa em uma literatura de terror, mas sim de verdadeiro asco. Bom, asco se encaixa em terror, mas o que quero dizer que o tipo de terror abordado não é aquele que te assusta e nem provoca suspense, mas aquele te faz sentir um verdadeiro ódio por cada um dos moradores e é isso até seu desfecho. 

É uma leitura bem curta (96 páginas) e bem agradável, também surpreendente e que prendeu minha atenção (em cerca de três dias o li, sem forçar), revelando um conteúdo complexo ao nos relembrar pela milésima vez de que as aparências enganam e muito - tipo aquele vizinho ou amigo que você acha que tem uma vida melhor que a sua. E que o que pode ser creditado ao sobrenatural, nada mais é do que a existência do repugnante que é capaz de estar em nós. 

"O caráter do homem é o seu demônio" 

- Heráclito

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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