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Resenha Série: Dark (1ª Temporada)

quinta-feira, dezembro 28, 2017


Nesse mar de produções que fazem a vida ser breve demais para se acompanhar tudo que faria parte daquela série de livros "100 (coloque qualquer coisa aqui) antes de morrer", são relativamente poucas aquelas que nos marcam realmente e iremos relembrar quase ao acaso quando formos beber com um amigo que nos pergunta o que andamos vendo de bom na Netflix.

Somos espectadores calejados, e nesse mar que nos proporciona opções além da vista, diria que pouco realmente nos surpreende. E não que tal roteiro seja ruim, é que no exercício natural de dedução, a repetição de um artifício utilizado em uma outra produção consequentemente nos faz pensar num possível final. O "já visto", ou o termo francês que tomamos emprestado chamado: déjà-vu.

A questão não é "onde", mas "quando"; enfim, é preciso ter algum diferencial para fisgar um espectador. E dentro da caixinha desse tipo específico de séries, se encaixa a alemã "Dark".

Com um trailer que basicamente contou a premissa de uma cidadezinha pequena em busca de uma criança perdida que nos remete diretamente a séries como "Stranger Things", eu confesso que justamente por isso eu não tive muita curiosidade de ver a série, ou pelo menos ela não estava naquela minha lista de séries que preciso ver o quanto antes. Mas olhe novamente para o pôster que mostra um jovem de capa amarela vislumbrando uma caverna. Pode ser que você já tenha deduzido de que ela se trata de uma história de terror, porém, nesse feriado de Natal eu fui surpreendido positivamente por uma mistura interessantíssima de filosofia, ciência, e viagens no tempo.

E as certezas acabam por aí.

Como se fosse um jogo proposital do roteiro com o espectador, a sensação de "déjà vu" que Martha Nielsen afirma ter logo no primeiro episódio quando Jonas Kahnwald a beija, convenientemente é o ponto que nos separa completamente da sensação que temos no primeiro episódio de termos já visto esse tipo de história (e confesso, é só escrevendo essa resenha que me dou conta desse detalhe). Na verdade, sentimos que em nenhum momento o roteiro se envergonha por ser confuso ou complexo, como brinca com o espectador, revelando detalhes que contam do seu final logo em seu início sem mesmo nos darmos conta disso - pense sobre suas primeiras cenas que você entenderá do que estou falando.

E convenhamos, são pouquíssimas as séries que veremos mais de uma vez (talvez nem comprando o box de alguma delas), mas "Dark" se diferencia desse nicho por utilizar-se do déjà-vu em benefício dela própria. Por detalhes irem se revelando a cada novo olhar, a série se desenvolve nas nossas cabeças dias e dias após termos terminado de assistir a ela seja uma ou mais vezes. E na verdade, são histórias assim que sobrevivem no imaginário.


O acerto e o principal diferencial da série, é ela não se focar no sumiço de tal personagem (no caso Mikkel) para validar sua trama. Criada por Baran bo Odar (que dirige a maioria dos episódios) e Jantje Friese (responsável por assinar o roteiro), "Dark" se passa na cidadezinha de Winden, um pacato município industrial alemão cujo maior destaque é a presença de uma usina nuclear. E nesse lugar aonde supostamente nunca acontece nada, somos envolvidos por um roteiro cheio de mistério envolvendo um suicídio e um desaparecimento, de Micheal Kahnwald e Mikkel Nielsen respectivamente.

A trama que aos poucos desmembra em quatro famílias, os Kahnwald, os Nielsen, os Tiedemann e os Doppler (veja a árvore genealógica no final), em três épocas distintas, 1953, 1983 e 2019, propositalmente nos deixa confusos ao ver tantos personagens na tela, perdidaços, mas curiosamente em contrapartida, o roteiro trabalha isso de forma extremamente coerente e cativante, onde o saber não é o mais importante que entender.

Numa abordagem pouco ortodoxa em relação à viagem no tempo, didatizando questões científicas como buracos de minhoca e buracos negros, e Nietzsche e Einstein, seus personagens nessa primeira temporada são apenas peças de um tabuleiro muito maior. A atmosfera da cidadezinha de Walden que supostamente nunca acontece nada, a não ser pra quem lá tenha vivido mais que 33 anos, é repleta de segredos que todos seus habitantes parecem ter. Todos guardam segredos e mistérios nas cavernas dessas famílias. E assim, ciclicamente, a série e tempo, para o público assim como seus personagens, prende-se a questão de que o "onde" não importa, mas sim o "como", em como certas coisas ocorrem/ocorreram.

Confuso? Bom, "Dark" explica somente o que deve ser explicado, abrindo a possibilidade para que quem assiste possa ter também suas teorias e compreensões. Algo que praticamente vai em encontro à "Stranger Things", só que invertendo a ordem de afeto. Se lá temos afeto pelos seus personagens, em "Dark" temos afeto é pela história.

Aliás, diria também que quanto menos for contado de "Dark" é melhor - se é que é possível falar dela sem soltar um spoiler ou escrevendo uma tese de doutorado. Nesse aspecto é melhor ater-se a sua fotografia espetacular. O esmero e o carinho aplicados à série são embasbacantes, garantindo a atmosfera melancólica da série suficientemente para nos sentirmos em Winden também - e em vermos que em 2019 não existem guarda-chuvas.

Renovada para a segunda temporada tão quanto a primeira terminou, o sucesso aponta para uma sequência que nos trará tantas perguntas quanto respostas (como isso não fosse suficiente), e nesse mar de personagens, "Dark" construiu um lugar que parece um lugar realmente, em uma história que fica sendo sua também.

E se é que VOCÊ me entende, trocadilhos à parte, nessa sensação de completa escuridão diante às viagens do tempo de "Dark", chegamos à conclusão de que não há outro nome que batizaria melhor essa série brilhante que só a Netflix nos proporcionaria saber da existência nesse final de 2017.

Sério, isso te ajudará muito!

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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