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Resenha Série: O Justiceiro (1ª Temporada)

terça-feira, dezembro 26, 2017


De longe a mais séria das produções da Marvel em parceria com a Netflix, "O Justiceiro" é uma série pra incomodar. Pro bem e pro mal. Pesada e difícil de digerir, ao longo de seus 13 episódios na jornada de Frank Castle para descobrir quem matou sua família, se insere aqui uma discussão fundamental, principalmente nos tempos atuais: o que a desesperança pode fazer com um homem. E essa premissa de um homem na busca da vingança pela morte de sua família já funcionaria bem e é o que esperamos logo de cara, ainda mais por ser o Justiceiro; no entanto, a série acerta justamente por ser menos "Justiceiro" e mais Frank Castle (Jon Bernthal).

A história de Frank começa exatamente no ponto da onde sua história terminou na segunda temporada de Demolidor, onde ele acredita ter se livrado de todos os envolvidos pelo assassinato de sua família. O ex-fuzileiro das forças armadas agora trabalha em uma obra e vive totalmente isolado de qualquer relação social; escolha dele, de um homem totalmente quebrado e sem esperança que parece usar todas as suas forças para suportar as lembranças de sua família e do que teve que fazer para retornar para ela.

O sofrimento psicológico vem a cada marretada na parede, a cada soco. O homem que parece indestrutível usa a angústia, o ódio e a dor de cada tiro ou facada que ele suporta para a sua sede de sangue. A cada urro, a vontade para suportar a realidade de que ele só sabe fazer uma coisa como ex-fuzileiro: matar.

Frank aprendeu a ser assim, a ter uma missão. Seu objetivo era voltar pro seu lar e agora ele não se sente mais lugar de nenhum. A série se baseia nisso. No transtorno de ex-combatentes que defenderam com unhas e dentes um país e que retornam para suas casas sem conseguir nunca mais se desvincular do sangue que os cobre.

"Justiceiro" não somente aborda Frank através da discussão que o personagem levanta por ser um anti-herói que, em suma, faz o que todos os outros heróis fazem: a justiça com as próprias mãos. A dualidade muito bem abordada já na aparição do personagem no momento mais crítico quando ele acorrenta Matt Murdock na lage de um prédio, é o momento em que percebemos que somente um passo, um dia ruim, separa um personagem do outro.

Tal dia ruim reflete na descrença sobre um sistema, uma justiça que desperta diferentes visões, e na moral dúbia entre o Justiceiro e Demolidor que no final das contas percebe-se que os dois querem atingir os mesmos objetivos. Uma discussão urgente posta na mesa, ainda mais numa sociedade que discute permanentemente as mesmas questões sobre o direito ao armamento, e que ao ligarmos a televisão, percebe-se o quanto isto pesa na boca de um cidadão que quer justiça e deseja ter poderes pra fazer isso com as próprias mãos.


Posicionando seus personagens no tabuleiro, a série trabalha muito bem seu elenco que retribui na mesma moeda com atuações poderosas.

Se Billy Russo (Ben Barnes) ou Curtis Hoyle (Jason R. Moore) são os pontos que ligam Frank ao seu passado, um sendo o antagonista e outro sendo apenas um cara que tenta, como Frank, superar de alguma forma seu passado; Mahani (Amber Rose Revah) é a personagem que quer justiça e descobre que ela é feita no meio ponto entre o que é moralmente certo e errado, sendo o contraponto de Frank aqui, o ex-analista da NSA David Liebermann aka Micro (Ebon-Moss Bachrach) não só o responsável por expor novamente na tela que o "sonho americano" é uma grande falácia, como ele é uma parte de uma lição verdadeira na construção de amizade numa história. Observem que em nenhum ponto na trama ele impede Frank na sua caçada por justiça; ele é apenas mais um ponto de vista diferente de como se chegar até lá. Impossível é a missão de não se importar com os dois.

A verdade é que absolutamente todos na série carregam cicatrizes que querem esquecer, talvez o próprio sistema. E nesse ponto talvez Lewis Wallcott (Daniel Webber) seja o mais brilhante de todos, com uma história que toca o dedo na ferida e que mostra sua descendente brutal. Sendo mais um jovem que escolheu ser patriota, e que agora não encontra seu lugar na sociedade após retornar de um serviço militar num país distante.

Ainda sobre seus personagens, o artifício usado em comum por todas as séries da parceria Marvel/Netflix foi sempre uma personagem sendo utilizada para tornar ser a "cola" que torne crível de que as séries estão num mesmo universo. Se a enfermeira Claire Temple (Rosario Dawson) é desnecessária para as tramas em diversos aspectos, a jornalista Karen Page (Deborah Ann-Woll) tem pontuais aparições que a tornam fundamental na trama na discussão do sobre armamento de civis, colocando uma pulga atrás da orelha num tempo em que de Trump se declarou contra ao desarmamento após um atentado no Texas.

Contudo, todas as qualidades de "O Justiceiro" são contrapostas pelos seus defeitos. Isso em grande parte é por causa do esquema de todas as séries da parceria, não só em torno de algumas soluções do roteiro (muito bem contornadas pelo showrunner Steve Lighfoot), mas principalmente em torno de sua duração no conhecido esquema de 13 episódios que deixa a série com uma enorme "barriga". Se por um lado ela ajuda a desenvolver seus personagens, por outro torna certas decisões cansativas, como por exemplo essa "barriga" ser motivada somente por pequenas ações de Frank (ou revelações de algum outro personagens) no final de seus episódios com o intuito de dar aquele fôlego pra sua sequência.

Mas seus três episódios finais compensam completamente qualquer tipo de contratempo e fazem "O Justiceiro" valer demais a pena de se assistir, calando a boca de quem alega que a série não é sobre o "Punisher" e sua brutalidade. Na verdade ela é muito mais que isso, é sobre um homem em busca da verdade.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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