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A volta de David Letterman é o que o mundo precisava

quarta-feira, janeiro 24, 2018


A capacidade de David Letterman em conduzir uma entrevista é simplesmente incomparável. No formato de talk show em que Jô Soares foi o precursor por aqui, Letterman se tornou um dos maiores entrevistadores da história e ele sabe disso, afinal, talento e prática não faltaram nos seus mais de 6 mil programas gravados e em 33 anos no ar. 

Mas em 2015 ele abriu mão de tudo isso pra se focar nele mesmo. Tirar férias merecidas. Contudo, nesse comecinho de 2018, ele retorna agora pela Netflix em um formato que desafia a própria plataforma. 

Sem as amarras da televisão em volta dele, por que não expandir essa ideia? Num formato de 1h em um programa por mês, sem banda, aonde apenas duas cadeiras separadas por uma mesa são o suficiente, Letterman escolhe quem entrevista e se quiser vai aonde o entrevistado está, utilizando gravações e criando narrativas com começo, meio e fim complementando a entrevista do jeito que ele gostaria e deixando bem claro que nesta altura do campeonato ele não precisa mais entrevistar celebridades desnecessárias e muito menos de atrações musicais no seu programa. Agora, é a boa e velha conversa que é o show. O que de certa forma usa do velho pra dar "outra cara" pro gênero (por aqui desgastado) que ele ajudou a moldar e que na televisão atual é muito mais show do que talk. 

*reconheço que o do Pedro Bial é o que mais se aproxima desse formato tradicional, porém, a edição da Globo "corta" tanto o programa que o deixa artificial e pautado demais.

Nesse primeiro programa My Next Guest Needs No Introduction with David Letterman, ele entrevista ninguém menos que Barack Obama. Um entrevistado que realmente não precisa de apresentações, como Letterman na cadeira de entrevistador. E nesta 1h em um tom bastante amigável e descontraído, ele mostra porque é um verdadeiro mestre em conduzir entrevistas. Misturando os seus 33 anos de experiência com um coração inigualável, ele não deixa aquele momento ser somente um mero entretenimento esquecível no dia seguinte para o espectador, mas também uma conversa entre amigos em que você faz parte. O que eu e você queremos saber e compartilhar com quem admiramos.

Crítico de Trump (e quem em bom senso não seria?), Letterman faz questão de levantar a bola pra Obama dar aquela cortada certeira com sua retórica que deixa qualquer um fascinado e admirado por uma figura de um ex-presidente ser tão apaziguadora, crítica e elegante, sobretudo reconhecido por ser uma pessoa "gente como a gente". Assunto não faltaria pra que fosse cinco horas de programa e ele não poderia ter escolhido melhor entrevistado para inaugurar sua aventura pelo streaming.  

Falando mais sobre o programa, essa aventura do Letterman terá seis programas com entrevistados já definidos e escolhidos a dedo por ele: o ator George Clooney, a humorista Tina Fey, o rapper Jay Z, a Nobel da Paz Malala Yousafzai e o apresentador de rádio Howard Stern. É pouco, realmente é pouco, mas são 6h muito bem gastas com um cara que sabe o que está fazendo e tem talento de sobra. 

No formato em que Letterman afasta de vez o conceito de show que seu programa tinha também, ele achou na Netflix a casa que ele precisava pra mostrar que próprio o formato tem muito mais a dar, e a Netflix, não entrando na onda de talk shows engraçadinhos, encontrou mais uma forma de diversificar ainda mais o seu conteúdo. 

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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