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Resenha Série: American Crime Story: The People v. O.J. Simpson

terça-feira, janeiro 30, 2018


O icônico advogado de O.J. Simpson (e também de Micheal Jackson), Johnnie Cochran, logo estabeleceu em sala: "precisamos contar uma história", e ele sabia que, uma mentira contada mil vezes tornaria-se verdade. Porém, sabia também e literalmente sofria na cor de sua pele, que essa "mentira" não precisava ser contada mil vezes para se tornar verdade; bastava uma, pois Los Angeles por si só contava ESSA história.

A corrida de sua vida

Em 1994, O.J. Simpson (Cuba Gooding Jr.), astro de futebol americano nos anos 70 e agora estrela da televisão e do cinema (o mais notório sendo o papel na trilogia "Corra que a Polícia Vem Aí") foi acusado de duplo homicídio ao matar a facadas a sua ex-mulher Nicole Brown, e seu amigo, Ronald Goldman em frente à casa dela.

Claro que o crime chocou o país, ele era o equivalente ao Neymar ou ao Pelé com a bola oval, um craque em tudo o que fazia e o expoente claro do negro bem-sucedido com um carisma e charme quase magnéticos. Muitos se recusavam a acreditar que o seu principal herói rendeu-se a completa barbárie.

"The Juice", como era conhecido, era o único suspeito e evidências não faltavam em apontá-lo como culpado. Apesar de não haver testemunha ocular e a arma do crime não ter sido encontrada na época (somente em 2016), a promotoria apresentou como indícios como fios de cabelo na roupa de Ronald, marcas de sapato encontradas no quintal que eram compatíveis com o tamanho de sapato de O.J., e em seu carro sangue, por fora próximo a maçaneta e no banco uma luva ensanguentada. Para completar, ele tinha histórico de agressões a sua ex-esposa.

Mas dois anos antes, em 1992, Los Angeles vivia uma história de claro abuso policial contra o taxista negro Rodney King, que acusado de dirigir em alta velocidade fora brutalmente espancado pela polícia. Registrado por uma testemunha, essas imagens correram o mundo e a absolvição dos policiais só foi a fagulha que faltava pra explodir o barril de pólvora que Los Angeles era. Saques, incêndios e depredações ocorreram causando 58 mortes e deixando milhares de feridos. A história da cidade é de racismo e segregação, e o juri que absolveu os policiais, formado por dez brancos, um negro e um asiático expôs ao mundo o que todos nos EUA sabiam.

Entender esse caso acima, é entender o impacto direto que isso provocou no caso de O.J.

Correndo por sua vida como um bom runnerback faz, ele saiu em fuga pelas estradas da Califórnia talvez assolado pela culpa e assombrado pelas consequências do que fez. Televisionado ao vivo para todo o país, a perseguição que dividia tela com as finais da NBA daquele ano e atraia fãs e admiradores nas pontes que ele passava era do tamanho que o astro sempre foi, e talvez O.J. naqueles cartazes de apoio viu ali o final que seu caso poderia ter, afinal, ele não deixara de ser negro como ele próprio acreditava. Ele viu como poderia ser "100% não culpado".



A narrativa

Naquele ponto a tal caçada a O.J. já tinha apaixonado o país, que não desgrudava seus olhos dos desdobramentos do julgamento. E ele juntamente a seus caríssimos advogados - não à toa o "Dream Team" - formado pelo seu advogado de longa data Robert Shapiro (John Travolta), o já citado ativista da comunidade negra Johnnie Cochran (Courtney B. Vance) e seu amigo Robert Kardashian (David Schwimmer) formaram sua defesa, não em torno de seu cliente, pois era impossível fechar os olhos para as evidências, mas sim em um ideal. Na Los Angeles doente que implodira dois anos antes.

O.J. Simpson foi inocentado por uma questão básica e emocional que o júri, já desgastado e exaurido não só pelo tempo, mas pelo jogo de xadrez que defesa e acusação provocavam investigando o passado dos membros (muito bem mostrado em "A Jury In Jail"), não pode ignorar: as fitas com a voz do detetive da LAPD responsável, Mark Fuhrman, proferindo linguagem racista; questionado sobre no julgamento pela defesa, simplesmente ele invocou a 5ª emenda (direito de ficar em silêncio).

Assim, o benefício da dúvida se instaurou, o silêncio se consentiu em culpa, a defesa venceu pelo cansaço e o julgamento se modificou de vez. "A justiça se fez" ignorando a montanha de evidências da acusação formada por Marcia Clark (Sarah Paulson) e Chris Durden (Sterling K. Brown). Esse foi o golpe final no show midiático que o julgamento se transformou e que praticamente substituiu os homicídios em uma luta pela "justiça racial" de dois anos atrás através do herói.

E assim através da distorção, a narrativa superou os fatos; a verdade, a outra verdade. Acompanhado ao vivo por 20 milhões de pessoas, o julgamento de O.J. Simpson se tornou o julgamento de Departamento de Polícia de Los Angeles, e porquê não, do país.


O veredito
A antologia criada pelo criador de outro American, o Horror Story, é uma obra prima. Sua maneira de ficcionar os fatos reais é irresistível e acompanhar o julgamento de O.J. é embarcar na dança entre acusação e defesa, tornando completamente irrelevante a vontade de ter qualquer spoiler que a vida real pode dar, tal qual se o julgamento estivesse de fato acontecendo.

Ao longo de suas linhas de roteiro, caracterizações excepcionais e atuações dignas de todos os prêmios que a série abocanhou em 2006, ACS brilha, não só pelo próprio julgamento render tantos plot twists que faz qualquer série morrer de inveja, mas por ela evidenciar detalhes e problemas que passaram despercebidos do público em geral na época do julgamento.

Colocando o espectador na frente da discussão sobre o que a manipulação da mídia e o jogo sujo que acontece diante aos olhos da justiça, ACS usa a história pra abordar o escrutínio da mídia sobre as questões raciais e sobretudo sexistas (como no episódio "Marcia, Marcia, Marcia" onde Sarah Paulson simplesmente destrói), num julgamento que beirou o absurdo aonde que as palavras certas nas horas certas se tornaram muito mais importantes que qualquer sangue ou pegada. É difícil dizer o quanto a acusação ou a defesa foram falhas, mas num jogo em que mais de 20 anos após o seu final graças à Ryan Murphy somos convidados a observar, podemos entender as consequências que a justiça pode provocar.

Anos depois do veredito favorável, O.J escreveu um livro chamado "If I Did It" (E se eu fiz...), onde contava como TERIA matado a sua ex-mulher e seu amigo, uma confissão de culpa transformada em romance e que ironicamente vai de encontro ao que seu próprio julgamento se transformou. Foi o deboche final em cima de um povo que clamou por sua inocência e de um sistema que ele pôde moralmente comprar. Porque, como ele disse a seus advogados ainda na prisão: ele não era negro, ele era O.J.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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