post Resenha Série: Big Little Lies (1ª Temporada) - DescafeinadoBlog

Resenha Série: Big Little Lies (1ª Temporada)

terça-feira, janeiro 16, 2018


Antes de tudo, "Big Little Lies" é sobre um assassinato na cidadezinha de Monterey no estado da Califórnia; mas a grande sacada do roteiro da minissérie é nos fazer esquecer disso, ou pelo menos não dar bola.

A vida plástica daquela pequena comunidade onde todos vivem para buscar a perfeição como algo majoritariamente bom e melhor, é refletido tanto nas escolas, nas ruas, ou no café paradisíaco com vista ao mar, e é literalmente emoldurada nas casas de cada uma das protagonistas. 

O convite ao sexo do banheiro sem porta de Celeste com grandes janelas que mostram as ondas quebrando ao mar, a enorme mesa da cozinha de Madeline, as pias separadas no banheiro da casa de Renata (Laura Dern), o lar alternativo de Bonnie (Zoe Kravitz), a simplicidade e o aperto da casa de Jane... Enfim, as casas que moramos refletem os desejos, o que somos, o que não queremos ser, o que queremos para nosso futuro e dos nossos filhos, mas sobretudo evidenciam o que as pessoas são obrigadas a se tornar para se adequar a certa realidade.

Aliás, observem também as opções de vestuário de cada casal na festa do assassinato, onde por exemplo Celeste é a Audrey Hepburn de pura elegância, Madeline mais devassa de pijama, e Perry um Elvis rebelde.

Sendo assim, no drama envolvendo as protagonistas Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley) não temos só uma série que retrata supostas assassinas, o que na verdade já fica claro nos depoimentos no bom e velho esquema "diz que me diz" dos moradores que confundem sinceridade com a sua íntima avaliação que mesclando passado, presente e futuro, nos levam em um caminho de desconstrução, aonde nada é o que aparenta. 


Em cidadezinhas como em Monterey, há um senso de comunidade implícito pois todos se conhecem e devem se conhecer, mas em contrapartida essa mesma união também provoca uma plasticidade profunda. E isso também se observa no que é pra mim o principal fio condutor da série, que é a figura mãe de cada uma das personagens e dos conflitos que os casais se envolvem em torno da educação dos seus filhos. Isto é, Madeline vive e constrói sua imagem em torno deles, mas a Renata busca construir a comunidade em torna da moral da maternidade; Celeste abandonou sua vida para viver para quem daria a vida, e a Jane é mãe solteira de um filho dócil e indesejado, portanto, um corpo deslocado que se sente ainda mais estranho no meio daquilo tudo.

Bom, na verdade quem são essas pessoas? Talvez é no marido da Celeste, Perry (Alexsander Skargaard) onde se guardam os maiores conflitos. 

Se Nathan (James Tupper), marido de Bonnie, carrega um relacionamento fracassado com Madeline por mais de 15 anos, e Jane carrega um fardo de ser algo que não estava preparada pra ser; como Perry poderia ser um excelente pai e ao mesmo tempo um marido abusador? Até aonde os filhos representam laços inquebráveis que atormentam um casal? 

Vê como o assassinato é somente um pano de fundo para a série? Em nenhum momento ele é realmente "solucionado" como ele mesmo conversa com a própria série, onde ele releva que no final das contas nada é o que aparenta.

Papa-tudo do último Emmy, vencendo em 8 das suas 16 indicações, e favorito para fazer um arrastão do Globo de Ouro desse ano; "Big Little Lies" é simplesmente uma das melhores obras de 2017 e merecida de todos os prêmios ao lado das "Aias".

É chover no molhado elogiar a HBO em seu esmero técnico aplicado a todas as suas séries, desde a trilha-sonora que de tão boa foi lançada no iTunes, até a fotografia deslumbrante de um lugar propositalmente paradisíaco. Mas além de tudo isso, é a metalinguagem que assistimos em "Big Little Lies" que enche os olhos aguçando as mentes de quem adora detalhes e segredos. 

Lidando com inúmeros assuntos (principalmente do universo da mulher), não é absurdo dizer que "Big Little Lies", ao lado de "The Handmaid's Tale", é mais uma série necessária e incômoda para conversar com o espectador e o mundo atual, justamente por abordar universos que se criam por trás das aparências e culturalmente vitimizam o elo mais frágil de diversas formas na "família tradicional". Essas são as pequenas grandes mentiras e o assassinato apenas é mais uma consequência desses segredos. 

Mais do que um assassinato ser uma simples consequência natural da história, em "Big Little Lies" encena-se o que também pode acabar sendo real nas vidas de quem julgamos ser melhores e mais felizes que as nossas; aonde observamos como a construção de uma imagem pessoal que não necessariamente escolhemos viver, é também uma escolha que nos persegue. 

Uma alegoria perfeita para a cena em que Jane corre na praia sem rumo.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários