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Resenha Série: Manhunt: Unabomber

sexta-feira, janeiro 05, 2018


Séries documentais tem a difícil tarefa de recontar os fatos sem que sua compreensão seja óbvia. "Narcos" e a "American Crime Story" são dois bons exemplos de como se fazer isso sem deixar de lado o esmero narrativo televisivo. Aliás, contar histórias é algo que todos nós fazemos, só que a grande questão é como isso é feito; e talvez a missão de tais series documentais seja a busca da compreensão do outro lado. Essa é a grande sacada e o que realmente nos prende por pontuar algo claro: "mocinhos e bandidos" são apenas dois lados separados pela história, mas principalmente pela lei.

"Manhunt: Unabomber" é o tipo de série excelente que acaba sendo escondida pelo frisson de outras. Saindo no mesmo mês que "Black Mirror" no catálogo da Netflix, a série documental produzida pelo Discovery Channel reconta a história do terrorista Unabomber.

Graduado e doutor em matemática pela Universidade de Michigan, Theodore Kaczynski (Paul Bettany, o Visão de Vingadores) tornou-se o "Unabomber" promovendo diversos ataques entre 1978 e 1995, enviando bombas pelo correio à aqueles que ele considerava, direta ou indiretamente, responsáveis pela degradação da natureza com a qual, para ele, o ser humano deveria ter mais contato.

O prodígio Kaczynski defende a ideia de que "a Revolução Industrial tem sido um desastre para a raça humana". Ele reconheceu o extremismo de tais atentados se declarando culpado e recusando qualquer defesa jurídica ao ser preso em 95, porém argumentou que eles foram necessários pois só assim ele atrairia a atenção do público para o fato de que o incontrolável avanço tecnológico ameaçava a integridade da Natureza e a nossa liberdade ao renunciarmos da nossa autonomia perante aos benefícios que a tecnologia proporciona.

Kaczynski em quase 20 anos foi responsável por matar 3 pessoas e ferir outras 23, atacando preferencialmente cientistas e pesquisadores de universidades e executivos de companhias aéreas e industriais, ganhando o título de "The Unabomber" (ou "UNABOM", acrônimo de university and airline bomber) pelo FBI e pela mídia antes de ter a sua identidade revelada.

Apesar dos grandes esforços do FBI, não foi a caçada tradicional que prendeu o terrorista, e é aí que entra a figura de James R. Fitzgerald (Sam Worthington).

Responsável por introduzir nas investigações do FBI o que chama-se de Linguística Forense, Fitz ajudou a prender um dos maiores terroristas do país após o manifesto de Kaczynski ser publicado no The New York Times. Enxergando o que renomados investigadores se recusavam a ver, Fitz apostou alto que alguém reconheceria o estilo de escrita de Kaczynski, e assim foi, quando os familiares do terrorista o reconheceram e entregaram sua localização.


Naturalmente colocando em confronto os protagonistas Ted e Fitz, mas sobretudo, buscando fugir da burocracia dos roteiros documentais comuns ao percorrer aquela zona cinzenta correlacionando as ideias e histórias dos protagonistas, o roteiro apurado da dupla Chris Noth e Jane Lynch deixa claro que não estamos frente à uma simples "encenação de fatos reais", e que sim, os impactos do manifesto de Kaczynski merecem uma reflexão e não somente uma demonização devido aos meios em que ele utilizou para ser "ouvido". O que importa aqui é o ponto de vista, ainda mais quando lembramos que muitas coisas que ele disse em seu manifesto, acabam sendo pertinentes diante à uma sociedade moderna industrializada cada vez mais dependente da tecnologia.

Ao se afastar do tom que a gente espera de um canal sem tradição nesse gênero e especialmente daquele joguinho previsível de mocinho x bandido, nós somos levados por atuações seguras - especialmente de Bettany - que, ao lado do roteiro, acertadamente apelam pro emocional do espectador que torce para as ideias de Fitz serem levadas em conta no FBI; mas também sente por Kaczynski na mesma intensidade.

É devido à esse desenvolvimento dos protagonistas que a minissérie ganha enormes elogios e se coloca ao lado de "Mindhunter" no catálogo da Netflix como mais uma opção de alta qualidade, contando mais um lado da origem dos estudos forenses do FBI e sendo indispensável aos amantes do gênero criminal.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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