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Stranger Things e a sombra Jungiana

quinta-feira, janeiro 11, 2018


*traduzido do Medium (original aqui)

Todo mundo que assistiu a Stranger Things, sabe que a série é uma poderosa carta de amor aos desbotados filmes de sci-fi dos anos 80. Com uma trilha sonora típica daquelas cassetes feitas com fita adesiva, a nostalgia bate forte quando a gente vê aquela velha mecânica da "gangue de crianças de se juntam para defender um inimigo em comum"; fórmula que ficou popular nos filmes e shows televisivos que a geração daquela década aprendeu a amar e é como outra grande história: A Jornada do Herói.

A jornada de Eleven na série é percebida através do Mito
Os melhores mitos através da história, em comum, abordam as forças que guardamos nas nossas mentes, e isso também nada mais é do que a base de toda religião e mitologia - a conexão com as forças além da nossa compreensão. 

Enquanto as religiões de hoje em dia pregam a crença em um Deus, isto é, um Ser externo; filmes e histórias tomaram pra si o papel que as mitologias politeístas tiveram um dia. Claro que Stranger Things não é nenhuma exceção nesse meio, mas é outro grande exemplo da interação entre as forças da luz e escuridão dentro de nossas mentes consciente e inconsciente.

O psicanalista Carl Jung dedicou sua vida, ao lado de Freud, no estudo dessa interação entre o consciente e o inconsciente. O que ele descobriu foi que o Self ou o Si-Mesmo tem uma sombra, ou seja, um abismo que abriga os aspectos negativos da nossa mente que nos empurram para baixo ou se recusam a reconhecer; um poço no qual tiramos também nossa energia ou libido e ao mesmo tempo uma grande força de fonte criativa. Quer dizer, para Jung, começar a conhecer a sua escuridão do seu subconsciente pode ser um passo importante para a cura da tensão que o aflige.

Há muitas maneiras aonde podemos traçar paralelos entre Stranger Things, o Mito do Herói e uma alegoria Jungiana. 

Em alguns aspectos, a maioria dos personagens são heróis em conflito, cada um a sua maneira. As cenas em que Mike e Lucas tem dificuldade em perdoar um ao outro, oferece uma analogia clara para o que acaba nos destruindo - a luta entre as necessidades egoístas contra a melhoria coletiva. E naquele confronto, percebemos que tanto Mike quanto Lucas entendem o objetivo da sua luta, mas cada um procura caminhos diferentes para superar a adversidade. Enquanto Lucas é cético, Mike tem fé nela. E os dois só superam suas diferenças quando entendem que só quando a lógica e o sentimento estão juntos, eles podem superar a força das trevas.

O xerife Hopper também exibe traços do Herói. Cético, despreparado, quebrado pela perda da sua filha e viciado em drogas de prescrição, num primeiro momento não temos certeza se ele tem os meios para realmente compreender a situação, ou se ele está pronto para agir dado a sua antipatia inicial. Este é um elemento primordial na Jornada do Herói. Ao longo de uma série de eventos e tarefas, Hopper ao longo da história se mostra bom acima de tudo, aonde sua percepção e a sintonia com os garotos se sobrepõe às suas falhas. Ele desvenda o mistério. No final, ele se mostra iluminado diante à situação, e seu papel encerra primeira temporada no auxílio a Eleven (Onze não, pelamor) com suas lutas no mundo invertido.

E por último, de certa forma, o Dr. Brenner é como a versão consciente do Demogorgon e o Mundo Invertido, uma consciência que tem que deixar de lado sua sombra para superá-la. Sim, ele usa Eleven por causa de seu egoísmo, mas também como se fosse um instinto básico vindo do seu inconsciente, sem querer (e definitivamente inconsciente), guiando sua Sombra para fora. Resumindo, ele é o que acontece quando agimos sem compaixão ou empatia; um sociopata ou alguém que tem a incapacidade de controlar sua Escuridão.

Bom, em cada um de nós reside uma vontade, um Mike, um Lucas, um Dustin, uma Nancy, um Jonathan, um chefe Hopper e até um Dr. Brenner. Mesmo uma Barb ou um Steve. Mas talvez os dois personagens mais importantes da série através do pensamento de Jung, é a relação entre Eleven e o Demogorgon.

"A caverna que você teme detém os tesouros que você procura."  - Joseph Campbell

É possível ver o mundo invertido como a Sombra, o inconsciente, o lado desconhecido e escuro da nossa personalidade. Dentro dessa Sombra residem demônios como a raiva, a luxúria, a ganância, a inveja; todos os pecados, as coisas que escolhemos negar, são parte de nós mesmos.

Literalmente, Stranger Things postula o consciente e o inconsciente juntos na vida real numa fusão com a escuridão, o real e o irreal; e é na configuração física do mundo invertido da série que fica evidente a comparação com os dois lados da mente - principalmente se formos considerar que no início da história não conhecemos nada de Hawkins, e portanto, não termos ainda a compreensão da existência do mundo invertido, logo, o inconsciente desconhecido.

Outro paralelo está no fato que embora possamos identificar o Mike como personagem principal, é a partir do aparecimento do Demogorgon que estabelece-se o contraponto ideal do que figura constantemente dentro de nós. Somos ambos, mas é a Eleven que queremos nos tornar. Intrigantes e poderosos.


Não é possível confrontar a Escuridão com a Escuridão, então conhecer a si mesmo é uma grande parte do processo de tornar-se suficiente, ou como diz Jung: a "Individuação".

"Uma vez que o indivíduo não é um ser único mas pressupõe também um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais abrangente."
- Carl Jung

Ao longo da vida, algumas pessoas constantemente correm em encontro com os lados mais sombrios de sua natureza, e alguns procuram compreendê-la e usar dessa força para se iluminar. E ao fazê-lo para o bem, como Eleven fez, eles chegam a Individuação; quando o fazem para o mal, como o Dr. Brenner e o Demogorgon, as coisas não funcionam tão bem.

Ela possui um poder especial que ninguém ao seu redor possui, mas a sua trajetória é marcada pela luta e trepidação, submetida a uma vida trágica com o controle de Brenner por causa de seus poderes. Assim, Eleven é a candidata perfeita para o mito do herói. 

Ela é o herói relutante que eventualmente ganha forças para lutar, mas é importante observar que a sua fé para continuar resiste graças às suas amizades; e apesar do mundo ao seu redor ser traumático em vários aspectos, é assim que ela aprende a bondade da vida. 

Eleven em sua natureza é tímida, desconfiada do mundo exterior; mas em contrapartida ela é cheia de boa vontade, inocente, pensativa, inquieta. Ela é falha, está em conflito, possui um grande poder mas ainda desconhecido da sua parte - tanto que em certo ponto da história quando fere Mike, o deixando inconsciente. Após o ocorrido, ela foge, acreditando que seria rejeitada. Mas graças à sua bondade ela salva a si mesma, quando ela salva Mike dos seus agressores.

Por último, Eleven não derrota o Demogorgon, mas o consome. Ali a Escuridão se faz redentora e não puramente destrutiva, tornando seu futuro tão interessante em termos jungianos

Apesar da sua reputação merecida por tantos estragos e sofrimentos, a distinção da Escuridão dentro de si como algo demoníaco pode ser vista, e deve ser, como algo natural, vivificante, com potencialidades positivas subdesenvolvidas também. Desta forma, a absorção de Eleven é um sinal de seu crescimento, além de uma prova de seu poder; prova de que chegar a um acordo com a sua Escuridão e conscientemente aceitá-lo de forma construtiva, é fundamental para o processo de análise jungiana.

Considerando o poder da história de Stranger Things, nós estamos diante de um mito que demonstra o poder da mente em assimilar as sombras. Estamos na segunda temporada e ainda muita coisa pode acontecer, já que Eleven ali iniciou um arco próprio. Mas se você está preocupado sobre seu destino, é preciso lembrar que, em termos jungianos, a escuridão nunca ganha no final.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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