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Vamos falar de Fargo?

segunda-feira, janeiro 08, 2018


Ao final das três temporadas de Fargo, me chamou atenção o nome de um episódio da segunda temporada "The Myth of Sisyphus" (S02E03), ou "O Mito de Sísifo".

O mito e a filosofia

Na mitologia grega, Sísifo era um mortal, o mais astuto deles (se formos fazer uma comparação meio absurda seria como Loki da mitologia nórdica na arte da "trapaça") e devido a sua perspicácia em enganar todos à sua volta, incluindo os deuses, Sísifo foi condenado mortalmente por isso.

Como punição, ele se encarregaria de empurrar uma grande pedra de mármore numa montanha até o seu topo, e chegando ao cume, a pedra rolaria para baixo e ele novamente teria que começar tudo de novo. Um castigo para mostrar-lhe que os mortais não tem a liberdade dos deuses, e só podem exercer a sua liberdade em seus afazeres cotidianos, isto é, exercer a liberdade que os cabe para viver sua vida ao máximo.

Em 1941, Albert Camus escreveu um ensaio com esse mito como título. Lá ele nos introduz na filosofia do homem na busca por um sentido, unidade e clareza no rosto de um mundo desprovido de deus e a eternidade, e nos pergunta: seria a realização do absurdo o suicídio?

Para Camus, lidar com o absurdo da vida exige revolta, como Sísifo, que desafiou os deuses e foi condenado a realizar uma tarefa penosa e... inútil.

Para o filósofo e escritor argelino, o absurdo surge quando os humanos sentem que precisam entender a satisfação diante à irracionalidade do mundo, o que em contrapartida, é absurdo por si só, já que é impossível reduzir o mundo a um princípio racional e razoável. E por mais amargo que seja, aceitar que "tudo é permitido" é reconhecer um fato, e então, a possibilidade de uma "vida absurda". Aquela que é vivida ao máximo, consciente da finitude de uma ação, sem julgamentos posteriores ou sombra de esperança.

Tendo posto isso, voltamos a Sísifo, onde no capítulo final desse ensaio, além de nos deixar claro que para ele Sísifo é um exemplo de "vida absurda", Camus nos apresenta uma metáfora para a vida moderna de trabalhadores em empregos fúteis, condenados a executar tarefas repetitivas por toda a vida. Um destino trágico que apenas em raros momentos se torna consciente, quando, diante à essa realidade, encarnamos um pouco de Sísifo em nós e desafiamos os "deuses" que regem a nossa vida.

No capítulo que antecede Sísifo, Camus explora o "absurdo" do criador ou do artista. Uma vez que a explicação na vida é impossível, o absurdo da arte é restrito a uma descrição das inúmeras experiências do mundo. Como bem ele diz: "Se o mundo fosse claro, a arte não existiria". E assim chegamos ao mundo das séries.

Mas vamos focar no absurdo e em seu castigo. E na arte e no trágico.

1ª temporada
A bola de neve de Fargo

Regida pelo absurdo e pelo homem comum, é talvez através da mitologia de Sísifo que se esclarecem todos os atributos-chave das histórias de Fargo. Seja pelos personagens sempre postos em simetria, contrapondo trejeitos e atitudes, seja pela própria pedra aonde pode-se relacionar com a própria neve, em que as mentiras não só esmagam, como engolem o homem comum que é atingido pelo acaso como se fosse uma "punição dos deuses".

Não é por menos que Fargo se ambienta num lugar frio e nevado em qualquer lugar na divisa de Minnesota com o Canadá que parecem exemplificar cada morador que vive esperando o nada numa cidade que não acontece nada. E em um jogo de inevitabilidade de causa em consequência, a série é uma grande fábula que flerta a todo momento com o absurdo. O absurdo é porque a vida é absurda; e nesta vida absurda, comicamente é o acaso e o erro que levam as histórias de Fargo adiante.

Seja porque tenha um sentimento de não ser em Lester Nygaard (Martin Freeman), um sonho expressado pelo casal Ed e Peggy Blonquist (Jesse Plemons e Kirsten Dunst) ou de uma briga familiar sem sentido por causa de um selo entre Emmit e Raymond Stussi (Ewan McGregor); em comum eles em algum momento são contrapostos por homens absurdos que sabem o que querem, verdadeiros diabos, como Lorne Malvo (Billy Bob Thornton) e V.M. Varga (David Thewlis), dois vilões tão brilhantes quanto implacáveis (especialmente Malvo que lembra os melhores momentos de Anton Chigurh).

Em Fargo, os personagens demonstram faces bem definidas, em que os chefes de policia Bill (Bob Odenkirk) e Hank (Ted Danson) se negam a acreditar na maldade humana ou querem ver apenas tudo voltar ao normal naquele mundo, enquanto Molly (Allison Tolman), seu pai Lou Solverson (Patrick Wilson) e Gloria Burgie (Carrie Coon) representam o próprio Sísifo e sua resiliência em tentar buscar a verdade apesar do próprio desejo que tudo volte a ser como era, mesmo com a pedra repetidamente descendo a montanha.

Como Lou dizia, o massacre de Sioux Falls realmente foi horrível.

2ª temporada
Uma comédia de erros

Noah Hawley habilmente abre Fargo com a tradicional frase utilizado no longa dos irmãos Coen: "Baseada em fatos reais". Logo a frase nos chama a atenção do espectador, que passa a ver a série já com outros olhos. E a genialidade está justamente aí, algo que fui perceber ao decorrer dos episódios.

Contar uma história é uma arte, e Fargo é simplesmente irretocável nas suas três temporadas contadas em formato antológico, no entanto, numa mesma região, com personagens que se inteligam ou meio de situações. E nessa arte de contar histórias, brilhantemente Noah Hawley brinca com a gente numa observação a fundo da própria verdade.

Há três verdades, a sua, a minha, e o que aconteceu; e será que em Fargo falamos sobre a verdade ou no que se tornou a verdade?

É tão trágico quanto engraçado dar contar disso, e é algo bem exemplificado naquela cena do disco voador em "The Castle" (S02E09) aonde o ato de contar uma história são fatos que se tornam uma verdade. Parece que Hawley quis mostrar isso através de Varga, um vilão invisível e odioso que conta histórias e supostas verdades, ditados populares russos que no final das contas, ele mesmo inventou.

Lembram de Sioux Falls? Através do roteiro, Hawley deixa essa dúvida em nossa cabeça utilizando-se do absurdo que uma história pode guardar. E bom, vamos pensar. Será a história de um disco voador tão absurda quanto um cara morto por um ar-condicionado? Enfim, são histórias. Fargo é isso.

3ª temporada
Conclusão

Simplesmente linda nas suas bucólicas paisagens nevadas. Fargo é uma tragicomédia de primeira.

Com uma fotografia e trilha sonora irretocáveis que conversam com o espectador e com a própria história, o que é fundamental, somos literalmente abençoados por diálogos memoráveis e personagens inesquecíveis.

Atualmente sendo o maior exemplo de série que conversa com um longa, Fargo é uma obra que se baseia em outra mas tem sua própria personalidade, tornando-se assim tão indispensável quanto o filme em que ela se inspirou. Na verdade, tornou-se o tipo de série que nos relembra porque a gente assiste séries.

Uma verdadeira lição de Noah Hawley que a Netflix DEU de presente pra você no Natal passado.

Então assista, e não reclame depois que faltam histórias que os cativem de verdade.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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