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Resenha Cinema: A Forma da Água

quarta-feira, fevereiro 14, 2018


Indicado a 13 Oscars (OscarS ou OscareS, tá aí a questão) incluindo filme e diretor para Guillermo Del Toro, "A Forma da Água" é sobretudo um filme de amor, com a assinatura de Del Toro.

Mas para termos uma visão desse amor demonstrado por Del Toro, é também importante observar o contexto geral do filme ao irmos um pouco além do mote principal da história, que é o fato de o amor verdadeiro se sobrepor a qualquer atributo físico ou limitação.

Não caia no conto da carochinha de que "mulher só gosta de dinheiro" ou "homem é tudo igual". Há coisas muito além, e a compreensão exata dessa "futilidade" repetida como um sábio dito popular, é  observada a partir do momento em que nos utilizamos do material para complementar o espiritual. É como comer um chocolate ou quando compramos algo que na realidade não precisamos, o consumismo em todos os aspectos só é justificado pelo hipnotismo social que nos diz que aquilo é necessário e bom. Precisamos do novo de qualquer maneira, do que possa nos satisfazer, mas sobretudo de alguém que nos aqueça em um abraço. O mais difícil e inexplicável. E nessa visão que é separada pelo material e espiritual, o ser humano é passível de tornar-se um produto enquanto não encontra o que deseja, e ele próprio se trata dessa forma quando ele só quer satisfação.

Mas essa escolha invariavelmente nos deixa solitários.


“O que sou eu? Movo minha boca, como ele. Eu não emito som, como ele. O que ele faz comigo? Tudo o que sou, tudo o que tenho sido. Ele me trouxe aqui.”

O gestual emocionado de Elisa (Sally Hawkins) a seu vizinho e amigo Giles (Richard Jenkins) - de arrancar lágrimas e os mais sinceros aplausos à atriz (indicada ao Oscar) - refletem a sua solidão. Essa é uma das palavras-chave. Não que Elisa esteja aflita com isso, afinal, seu emprego e sua amizade com Giles e também com sua companheira de trabalho Zelda (Octavia Spencer) num primeiro olhar a satisfazem; porém num segundo olhar já vemos que não é bem assim.

Os dias passam, a rotina corre e ocorre naquele curto timelapse que mostra Elisa, entre orgasmos, cartões de ponto e sapateados, envolta no silêncio. Sim, a verdade é que isso não é uma escolha: ela é muda. Como Giles é um culto senhor e talentoso pintor, castigado pelo tempo e gay. Como Zelda é negra e ainda vive numa época em que para se manter um casamento é necessário o silêncio - talvez por isso ela fale pelos cotovelos. Em comum, os três estão solitários; mas se Zelda ainda encontrou alguém, Elisa e Giles só intensificam ainda mais a mensagem sobre como as diferenças são capazes de isolar os seres humanos.

E por mais que o filme não seja "pintado de cinza" com o bem e o mal estando bem delineados, é necessário um olhar mais atento para o outro lado da história para perceber os mesmos paralelos.

Strickland (Michael Shannon) e Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg) também flertam com a mesma solidão. Contrapostos pelas paixões, os dois também estão aprisionados. Enquanto o primeiro vive o sonho americano com a sua família e deseja toda a antítese disso demonstrada pela seu desejo carnal pela submissão e silêncio (não é por menos que ele compra um Cadillac), o segundo é designado a abrir mão da sua paixão pela ciência para "o bem" de seu país; aliás é esse "bem" que os definem, a diferença é marcada em até aonde eles estão dispostos a ir. E é nesse mundo envolto pela Guerra Fria aonde o conflito ideológico entre americanos e soviéticos moldam seus cidadãos e os tornam também sem escolhas, até Strickland, que por motivos "honrados" aos poucos se degrada e se torna um cruel tirano. 

Nos americanos anos 50 lotados de preconceito e bizarramente atuais até hoje, é nessa Guerra silenciosa que um dos maiores trunfos surge quando uma criatura bizarra é achada nas águas da Amazônia. O contexto da criatura interpretada por Doug Jones (e claramente inspirada pelo Monstro da Lagoa Negra) é permeado pela política, mas pincelado pela mística; e é num golpe de curiosidade e inocência que Elisa o conhece. 

O desconhecido nos apavora e fascina, contrapostos pela violência e fascínio que opõem cientista e militar/chefe de segurança, país contra país, negros contra brancos; cenário que a criatura submersa por ovos cozidos e pela música encontra-se com a faxineira muda e solitária. Achada nas margens de um rio, como a criatura, Elisa une-se pelo silêncio com a criatura que abre a boca tão quanto para comer, como Elisa.

E na bizarrice e na solidão em que Giles, Zelda e o Doutor vivem, que há, cada um a sua maneira, a ânsia pela manutenção do que é belo e verdadeiro na sincera mão amiga que estendem para Elisa e porquê não para a criatura também.

Para mim não importa como um laboratório militar tenha um controle de segurança tão risível. Uma suspensão da crença que em certo ponto é necessário para se apreciar um filme, principalmente nesses tipos de história que vão diretamente de encontro do que conhecemos como fábulas; algo que já vimos tão brilhantemente demonstrado por Del Toro em "Labirinto do Fauno" em sua história e visual impecáveis, e entre atemporais histórias de amor recicladas como A Bela e a Fera.

Em "A Forma da Água", o diretor atinge o máximo disso. Entre seu roteiro simples, sensível trilha sonora e a fotografia belíssima, o filme é o cinema na sua forma mais pura e significativa - aonde ironicamente Elisa e Giles moram - formado essencialmente pelo sentimento do espectador. Uma verdadeira poesia na tela que aquece os corações e torna-se firme na memória, tornando insignificantes os caminhos previsíveis do roteiro que a todo instante acabam sendo superados pelas sinceras lágrimas que são capazes de cair num silêncio particular nosso, enquanto Elisa e a Criatura nada dizem.

Uma fuga da realidade para o espectador e para protagonista, que sem palavras, nos faz perceber que a magia supera qualquer entendimento, claro. Mas que essa magia é o que chamamos também de amor, situação em que um olhar é capaz de superar qualquer barreira que possa separar os diferentes e onde um abraço é capaz de se sobrepor a cada palavra dita.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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