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Resenha Cinema: Pantera Negra

segunda-feira, fevereiro 26, 2018


A internet está lotada de especialistas, sociólogos e doutores formados na "faculdade da vida", e a cada vez que algum deles aponta que o mundo está chato demais me dá um comichão. Estou lotado deles e de conformismo, já que essa geração felizmente está morrendo (espero).

Geração ainda presente que diz que bater na tecla de que "Pantera Negra" é um filme daqueles NECESSÁRIOS, tal qual "Handmaid's Tale" foi para o mundo das séries, é uma chatice sem tamanho; afinal, Blade, Luke Cage, Ororo Monroe e John Stewart (até Hancock!) estão aí para "provar" que os negros são sim representados no cinema e que essa papinho de representatividade, igualdade e empoderamento é vitimismo puro de vagabundo que quer chamar atenção, já que eles podem andar na rua, comer, trabalhar e fazer todas as outras coisas que todos eles brancos de classe média fazem.

Esses são "a favor da humanidade". Mas a verdade que dói e muitos desses doutores são incapazes de compreender, é que a partir do momento que o ódio não é visto como causa e os exageros da justificativa são mais vistos (afinal são exageros) do que própria justificativa para esse ódio, serve como apenas um espelho do próprio extremismo que os doutrina. Saca o ditado: o que os olhos veem o coração não sente? É um paralelo básico que define como na realidade eles até podem se importar, mas ignoram e suam para invalidar discurso querendo o mais do mesmo porque PARA NÓS brancos cis a velada higienização está boa e o mundo não deve mudar.

E bom, já aviso. Se você veio aqui procurando uma crítica técnica, veio ao lugar errado; se você lê o Descafeinado entende. Quero puxar uma cadeira e conversar contigo.

Tanto Blade, Luke, Ororo e John são apenas representações de cor. Negros marginalizados que só são um pedaço americano que lembra a existência da África e dos negros no país do Tio Sam, ignorando que essa parte enorme da humanidade tem sim uma cultura igualmente rica totalmente desprendida do eurocentrismo que toma conta do globo e da vida acadêmica, que à rigor, somente coloca a África no mapa como um continente excêntrico que o homo sapiens felizmente "saiu".

A parte em que "o vilão" Killmonger (Micheal B. Jordan) aparece num museu admirando peças que foram trazidos da África, se questionando se peças que foram roubadas da sua terra configuram um roubo, é o cerne da questão após a linda história animada de Wakanda ter sido contada. Tudo é muito mais cinza do que parece. E notaram as aspas? É nelas que estão pontuadas a força do filme.


Daí se você é um pouco letrado, sabe bem que rolou séculos de sequestros, torturas, demonizações, destruição de identidade e cerceamento cultural do povo europeu avançado, e que perduram até hoje após o fim da escravatura de negros largados a própria sorte com o intuito de justificar a escravidão veladamente pelo capitalismo.

Dizem que para realmente medirmos o caráter de é uma criança é necessário voltar 100 anos na história. Crescemos não só com a educação dos nossos pais, mas também cercados com o mundo a volta, a cultura e a própria situação dessa família. A real é que não vivemos numa bolha desde o século XIX, e vamos adquirindo costumes através de escolhas, erros e acertos, e essas escolhas são motivadas pelo o que pontuei no parágrafo anterior. Quer dizer Killmonger, roubou o que lhe foi roubado, e aquele machado de Vibranium revelado por Ulisses Claw (Andy Serkis) representava um pai que lhe foi tirado e um país próspero que se escondia de seu povo devido a ignorância secular de outro povo.

Só esse lado justifica o "nacionalismo que não faz mal a ninguém" de Wakanda e aí chegamos nas maiores qualidades do filme, não tornando-o o melhor da Marvel, longe disso, nem precisa. O CGI incomoda, parte do ritmo do filme também pode; mas "Pantera Negra" é mais que isso, é um filme rico na sua narrativa, com atuações poderosas e coerentes, de cultura e de história, de tradição e passado, de respeito e de humildade; é o filme mais forte e sério da Marvel porque ela subverte todo e qualquer padrão que se estabeleceu nesses 10 anos por exaltar coisas certas no momento certo reafirmando como super-heróis não são só para crianças. São narrativas.

E lembram das aspas que dei para a palavra vilão? Pois é, é na dualidade de vilão e mocinho de motivações e questionamentos corretos que pra mim reside a maior riqueza narrativa do filme. É quando ao final, T'Challa (Chadwick Boseman) se separa de Killmonger assim que o rei/herói
repensa e vê algo bom e maior em Killmonger muito além de seu país em que fora criado.

Histórias servem pra isso, para pensar e repensar. Como T'Challa pensou ao final com Killmonger em seus braços, entendendo que de forma torta o nacionalismo de orgulho fora transformado em vingança por um erro que se transformou em ódio ao Killmonger ter sido deixado para trás.

Eles eram família, como nós homo sapiens somos vindos da mesma marginal África que é linda somente nos museus e histórias. É justamente dessa realidade que Killmonger sofreu da qual Wakanda se protegia, mas para T'Challa era a hora de ser um rei e repensar tudo isso para mostrar a força de seu povo. Ao contrário de seu pai, prometeu não errar mais; não esquecer mais criança alguma.

Pois todos eram Wakanda.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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