post Resenha Filme: Animais Noturnos - DescafeinadoBlog

Resenha Filme: Animais Noturnos

terça-feira, fevereiro 27, 2018


Todo tipo de arte, especialmente literária ou artística (pintura), está intimamente ligada à nossa concepção de mundo. É uma experiência pessoal. E sinceramente não há o que escrever e o que pintar senão sobre nós mesmos, por mais que seja uma ficção ou até adaptação. Tudo será "afetado", até mesmo as minhas resenhas, que acabam revelando as minhas concepções de mundo refletidas na avaliação de um filme, série, música, uma obra de arte, ou mesmo um grafite num muro; é isso o que chamamos de percepção, permanentemente ligada à nossa personalidade. Quando abrimos mão dela, abrimos mão de tudo o que somos.

Edward Sheffield (Jake Gyllenhall) em certo ponto diz a Susan Morrow (Amy Adams) que não poderia escrever sobre algo senão sobre si mesmo. É o toque pessoal que torna uma obra singular. E bom, um escritor precisa de críticas para que seu texto melhore, porém em contrapartida, detesta que isso acarrete em algo negativo, pois sua concepção de mundo transposta naquele livro é vista dessa forma também. Edward faz parte desse time, mas há algo muito mais profundo por trás. Quando Susan contrapõe as palavras ditas ao rosto imutável, Edward quase que reconhece automaticamente que Susan é incapaz de sentir o que ele sente.

Em outro momento em que Edward e Susan estão discutindo no meio da rua, Edward pergunta a Susan se ela o ama, ela diz que sim; e na sua negativa em que ela reconhece que apesar de ele ser romântico e amoroso, é incapaz de viver com alguém sem planos como ele - ou como nas palavras dela na outra discussão: trabalhar em uma livraria e escrever livros, Edward diz que quem "ama tenta fazer dar certo".

No presente, Susan é uma socialite dona de uma galeria de arte casada com Hutton Morrow (Arime Hammer). A distância entre os dois é algo gritante. Não somente pelas "viagens de negócios" de seu marido e nas reuniões no café-da-manhã em que ambos supostamente se interessam pela vida do outro, mas em como Susan parece ser, não de hoje, uma mulher fria e distante; dona e senhora de uma vida perfeita direcionada pelos pais, sequer capaz de lembrar os quadros que comprou para sua galeria.

Em mais uma manhã de aparências, com seu marido na cozinha ela recebe um pacote misterioso contendo um manuscrito de um livro escrito pelo seu ex-marido, da qual se separou a 19 anos atrás. O corte no papel é só mais uma das milhares de alegorias do longa, como se ali naquele ponto Susan fosse finalmente dilacerada pelo passado.

Batizado de "Animais Noturnos" referindo-se a como ele batizava Susan e sua insônia incontrolável, o livro de Edward narra uma viagem de Tony Hastings (também interpretado por Gyllenhall), sua mulher Laura (Isla Fischer) e sua filha India (Ellie Bamber) por uma estrada do Texas. Envoltos por uma noite claustrofóbica que praticamente nos grita "vai dar merda", eles vivem momentos de puro terror quando são atacados na estrada por uma gangue liderada por Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson) e seus capangas.

Marcus sequestra a mãe e a filha de Tony, e seu capanga o leva para outro ponto do deserto, aonde ele é jogado às traças. Caminhando pelo deserto, ele encontra um posto policial chefiado pelo xerife Bobby Andes (Michael Shannon), um cara cansado e conformado pela burocracia que o cerca, mas confrontado pela morte, vê ali a hora certa de "mandar a merda" todos os preceitos básicos de um bom policial.


"Animais Noturnos" é a boa e velha ficção dentro da ficção. O fato de Susan ser dona de uma galeria de arte expõe as cores da sua própria vida. Algo belo, perfeito; imortalizado na tela branca, mas plástico, que requer interpretações.

Quando o livro de Edward repousa na sua mãos, é como um fantasma que assombra Susan e derruba seus óculos sob as páginas que narram a história de Tony e sua agonia interminável por ter perdido absolutamente tudo que lhe importava. Uma atmosfera tensa e complexa aonde em certo momento que os flashbacks vêm e vão, nos questionamos o que é realidade e ficção; e talvez a melhor resposta seja o que Susan transparece em seu olhar.

O "animal noturno" é ela, mas são também Tony, Bobby e Marcus. Cada um com seu arco que transita entre o puro nojo (Marcus), a vingança (Bobby) e o arrependimento (Tony). E é essa última a chave que liga passado, presente e o livro; arrancando ainda mais o sono e incomodando a Susan durante o dia, por ser uma alegoria pelo relacionamento que tiveram e os destroçaram. Duas preciosidades arrancadas da sua vida por um carro velho, largadas como vieram ao mundo como consequência a sua relutância; despertando um desejo por vingança, mas que não poderia aplacar o arrependimento. Será que tanto Edward como Susan na verdade não estão morrendo por dentro?

Dirigido pelo estilista da Gucci, Tony Ford, e lançado no final de 2016; o filme tem uma estética e um roteiro incomum e não é a toa que ele é tão incômodo desde seus primeiros segundos. "Animais Noturnos" é impecável transitando entre o belo e o árido, entre a agonia e a imersão, o novelesco e o surpreendente. Com um elenco impecável (como Jake Gyllenhall é bom ator), Tony Ford prende o espectador na cadeira, questionando os padrões de beleza pré-estabelecidos e as vidas automáticas norte-americanas.

E eu reassisti seu final. Percebi que aquele silêncio e olhar perdido de Amy no restaurante eram uma catarse do que acabei de assisti. Me dei conta de que esse era também o meu olhar; ao mesmo tempo que também percebi que Edward teve uma vingança. Com classe quase que infantil, mas dando um desfecho como se o filme que terminasse nele mesmo. Onde no final das contas, Susan está fadada a ser solitária e não há dinheiro que corrija isso.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

Você pode curtir também

0 comentários