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Resenha Série: Altered Carbon (1ª Temporada)

quinta-feira, fevereiro 15, 2018


Confesso que não vi os trailers e vídeos que antecederam a sua estreia, então não vou botar a culpa na Netflix (apesar de não isentá-la) sobre a série ter se "vendido" como um "Blade Runner" de seu catálogo. Essa falta de identidade visual é culpa da própria história e ela não tem vergonha alguma nisso, afinal é um reconhecimento como aquele visual chuvoso, sexualizado, e cheio de neon influencia o cyberpunk na cultura pop, e a série presta uma justa homenagem ao mundo que Philip K. Dick imaginou e que Ridley Scott brilhantemente reproduziu. Aliás creio até que a ideia de "capas", até certo ponto, são a evolução natural da ideia de se ter replicantes, num futuro aonde o ser humano virou uma caricatura de si mesmo ao priorizar o prazer acima de tudo.

Na série temos uma premissa interessante. Um ex-soldado rebelde de um planeta colonizado por japoneses e eslavos, Takeshi Kovacs (vivido primordialmente por Joel Kinnaman), foi "acordado" 250 anos depois de ter sido preso e morto por soldados do Protetorado - uma espécie de Governo mundial - e é "encapado" em um corpo que não é o seu original para resolver um crime.

O século é o número 24, e nesse futuro pessimista, vivemos numa realidade onde a mente é colocada em pilhas corticais, uma espécie de cartão de memória onde ficam a consciência, pensamentos e memória. Superado esse "limite da morte", os ricos vivem nas alturas e trocam de "capas" (clones) como trocam de meias, enquanto os pobres são relegados a superfície e a qualquer corpo que sobrar, tipo um SUS distópico.

Então o ricaço "matusa" Laurens Bancroft (James Purefoy) ressuscitou Kovacs para descobrir o assassinato de si mesmo pois no alto de sua arrogância ele não acredita que tenha sido suicídio - conclusão da polícia representada por Kristin Ortega (Martha Higareda) que se recusa a investigar mais profundamente o ocorrido. Sem saída e seduzido pela proposta de Bancroft, Kovacs aceita a missão de ser investigador nessa nova chance em que 250 anos depois pode ter a chance de recomeçar de novo, mesmo decepcionado e claramente desiludido pelo o que os terrenos viraram. Mas por quê ele? O plot da série é esse.

"Altered Carbon" deixa claro que é sobretudo uma ficção científica que imagina a morte como um limite; uma linha que apesar de todas as desigualdades em vida ainda iguala os seres humanos socialmente e moralmente, e o final desse limite corrompeu de vez o que o homem conhecia sobre si mesmo, desde Bancroft até Reileen, que perpetuam vivendo e enriquecendo. Tudo isso também abre um leque enorme filosófico a respeito da vida e da falsa imortalidade, mas também deixando a cargo do espectador a maioria das respostas às perguntas que a retirada da morte da equação da vida provoca.


Hype é um problema enorme dos grandes e no que se refere a "Altered Carbon". Ela sofre desse mal, portanto, se você espera altas discussões filosóficas sobre esse futuro aonde superamos a morte e os limites do espaço, passe longe. Desligue o cérebro. O quanto você conseguir curtir a história está ligado ao quanto você for capaz de entender a proposta real do que está se vendo. Simples assim.

E contornando as suas arestas, ao final de seus 10 episódios percebe-se que a série se preocupa ao explicar didaticamente as consequências sociais e morais para que o espectador mais comum fique ligado, logo, para também ESSE público que a Netflix precisa atingir e que agora consome conteúdo a qualquer hora. Cabendo ao fã de "Blade Runner", como eu, ou de outras distopias mais complexas a missão de compreender que a série é mais simples do que parece ser.

Então "Altered Carbon" só arranha essa superfície deixando a impressão que apresenta muito e entrega pouco, escolhendo o caminho mais rocambolesco de uma novelona mexicana, principalmente a partir da segunda metade, onde toma um caminho mais simples quando a irmã de Kovacs, Reileen (Dichen Lachman) chora, resmunga e dá os motivos mais rasos possíveis para ter feito o que fez. Puro entretenimento que a I.A. Poe (Chris Conner), dono de um hotel chamado O Corvo (ele portanto), à la Hal 9000 deixa claro com seu humor certeiro e até non-sense.

Abraçando a canastrice e relevando seu ritmo difícil em certos momentos que mostra uma série que  funciona melhor se for maratonada, "Altered Carbon" no final das contas satisfaz por amarrar (forçadamente) de forma lógica todos os muitos e confusos pontos da história, sendo melhor consumida se formos compreendê-la como uma adaptação que primordialmente é uma série de ação que preza pelo exagero e o visual - chegando ao ponto de cansar e de cair na obviedade que revira os nossos olhos em certos momentos, principalmente por já virmos roteiros bem mais trabalhados.

Devido ao seu alto investimento, está claro que a "Altered Carbon" terá uma segunda temporada (que felizmente não contará com o robótico Joel Kinnaman ao que parece). Material tem, afinal, é baseada em uma trilogia de livros de Richard K. Morgan; então se for um tipo de antologia (como ouvi falar que os livros são), talvez a série seja capaz de entregar mais e melhor. Se não, melhor continuar encarando-a como mais um mero entretenimento da Netflix.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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