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O tempo é dinheiro em La Casa de Papel

segunda-feira, março 05, 2018


"Tempo é dinheiro". Com toda certeza você já deve ter ouvido isso por aí, até rindo com o Super Sam do Chapolin Colorado.

Na verdade, isso nos é ensinado como se fosse por osmose.

Entre o escambo (troca de mercadorias entre duas pessoas) e o pedaço de papel timbrado chamado dinheiro, praticamente não há diferenças. Relações humanas sobrevivem por confiança. No escambo você trocava um produto por outro de menor ou maior valor, portanto o que define o seu objetivo é o que você precisa; no caso do dinheiro é o que se chama de crédito, o bom e velho fiado. Pela sua cara e seu histórico aquela pessoa e/ou instituição confia em você e te dá mais dinheiro; é o que precisamos, apesar que não é necessariamente nosso objetivo. Quanto mais "bom pagador" você é, mais chances você tem de ganhar crédito; isto é, a confiança no semelhante e na significância naquele papel (no país no caso), move a economia e pode derrubá-la na mesma medida.

Essa confiança é traduzida como "lastro", que é simplesmente a denominação real de uma moeda equivalente a produção de riquezas de um país, quer dizer, esse país só poderá imprimir mais dinheiro desde que ele tenha "uma folga" equivalente a seu PIB. É a conta de casa que "não se pode gastar mais do que se tem". Formulando de uma forma simples de se entender, a bolha global de 2008 foi baseada nisso, na impressão de papeis e concessão de crédito à consumidores num tempo que a economia global andava bem das pernas. Quando a economia piorou, as pessoas e os bancos não conseguiram honrar suas dívidas e os papeis passaram a valer como... papeis. Por isso aquele quebra quebra que colocou pessoas na rua nos EUA e que ainda repercute entre os países do Euro.

O trabalho de especuladores, agências de crédito e lobistas, é justamente esse. Medir o valor do dinheiro x cliente e enriquecer às custas da pobreza tal qual se fosse uma corrida de turfe. Esse é o mercado, e essa é uma das mecânicas básicas do mercado que querem "libertar" ainda mais.

Os flashbacks da série (ao menos nessa primeira parte exibida pela Netflix) não remontam ao passado do Professor (Álvaro Morte), mas no primeiro corte na sala de aula aonde ele está ensinando seu plano e porquê dele para os oito ladrões, ele já deixa claro essa insatisfação de como trabalhamos por anos pra receber no máximo "um salário de merda" (ou leia-se: o suficiente pra viver).

Sua motivação é aquela pergunta que passa pela cabeça de qualquer cidadão mais esclarecido e puto com o preço das coisas no mercado: o que é ilegal se agiotas, golpistas e falsários sobrevivem especulando a economia global com a conivência de agências classificadoras e dos próprios governos? Será que é justo medir o esforço através do dinheiro, sobrepondo o tempo à qualidade?


O Professor e a série como um todo preza por uma "anarquia" jogando o próprio jogo do sistema. Para roubar a Casa da Moeda da Espanha ele escolhe a dedo oito ladrões, cada um com habilidade específica, dando o codinome de uma cidade, e propondo-lhes o maior roubo da história em que o desafio era passar 11 dias dentro do edifício imprimindo milhões de Euros.

Sem tender aqui pro discurso panfletário vazio ignorando as variáveis do capitalismo (será que os amantes "reaças" enxergariam os macacões vermelhos da quadrilha como comunismo? Zzzzz), a discussão acima da série é sobre como ela levanta a bola novelizando a força motriz do capitalismo e sua eterna "bolha", ao mesmo tempo que deixa pro espectador lá embaixo na pirâmide social, o natural inconformismo contra um sistema que literalmente compra nosso tempo, enquanto agentes, especuladores, e o próprio Estado imprimem dinheiro infinitamente. Exemplo? O governo Nixon que rasgou o Acordo de Breton Woods em 1971 que impedia qualquer país de imprimir dinheiro arbitrariamente e sem lastro algum (como se o cidadão comum pudesse viver somente com o crédito e o limite de seu cartão), estabelecendo o dólar como moeda fiduciária (não-conversível) ao invés do ouro.

Obviamente, é um roubo à Casa da Moeda da Espanha e isso constitui um crime, mas não de dinheiro como todos esperam e sim o que é intangível: o tempo. Sem matar e sem roubar um centavo de ninguém, mas roubando esse tempo do governo, polícia e mídia enquanto as máquinas trabalham. Dando um verdadeiro nó nas corporações programadas para "salvar vidas", os ladrões deixam as bolsas cheias de dinheiro no chão e se "prendem" dentro do banco, dando, entre outras iscas, o tempo suficiente enquanto essas instituições se perguntam o por quê da loucura.

Com a crise das relações trabalhistas onde o Estado passa adiante a relação com o cidadão às empregadoras, o tempo se aproxima cada vez mais com o dinheiro a medida que ganhamos por produtividade e somos pressionados por resultados em curto prazo. São 30 dias pra você ter pago seu salário, portanto, a duração de seu salário significa a dominância que você tem sobre o tempo. É ele  que importa e o Professor entendeu isso.

Seja motoboy ou agente financeiro, entre a entrega da pizza e de ativos financeiros, a lógica aplicada é a mesma. Dinheiro portanto, é apenas um papel sem valor nominal, o que dá valor a ele na verdade é o tempo que você leva pra consegui-lo.

Contando com um roteiro ágil e que não tem vergonha nenhuma de se aproximar do meio novelesco e rocambolesco até certo ponto, "La Casa de Papel" tem também alguns furos bem óbvios na história e uma polícia extremamente burra em vários momentos; porém, salvo os pormenores, a série criada por Álex Pina rouba também o nosso tempo contando a história de um roubo completamente subversiva e viciante, contrapondo diversos clichês que poderíamos enumerar sobre esse tipo de gênero.

N.E.: Produzida pelo Canal 4 da Espanha e distribuída pela Netflix aqui no Brasil, a série já foi exibida por completo na Espanha em 15 episódios de 1h20, então não estranhe se te disserem que há uma segunda temporada. O que a Netflix fez foi "picotar" os 7 primeiros episódios da "versão espanhola" em 13 de 45-55 minutos. Um trabalho de edição imperceptível (diga-se de passagem, parafraseando o filósofo contemporâneo Neto) com a parte dois agendada para abril.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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