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Resenha Série: American Crime Story (2ª Temporada): The Assassination of Gianni Versace

terça-feira, abril 03, 2018


"Nem melhor, nem pior. Apenas diferente". Essa frase de pára-choque de caminhão é a que melhor define antologias, e principalmente essa segunda temporada de "American Crime Story" em comparação a primorosa primeira temporada cobrindo o julgamento de O.J. Simpson.

Traçando paralelos, fomos da linguagem frenética da primeira temporada, para uma segunda lenta e às vezes morosa, mas que sempre deixou claro o seu intuito. Muita gente reclamou do ritmo, tanto quanto outros esperavam uma cobertura maior sobre os Versace, Gianni (Édgar Ramírez) e Donatella (Penélope Cruz); mas está aí o ponto da questão: o tema, como a série em si, é sobre o crime, no caso o assassinato de Gianni e sobretudo sobre o seu assassino Andrew Cunanan (Darren Criss) - caracterizações todas, novamente impressionantes. O.J. teve um depois, Andrew não.

Então se formos comparar as duas antologias e sendo justo ao esquecer que uma é melhor que a outra, "American Crime Story" nessa segunda temporada entrega a "história de um crime" com ainda mais pureza; contendo um estudo profundo, sombrio e ao mesmo tempo belo sobre quem puxou o gatilho e o que o motivou a isso numa narrativa cronológica incomum e brilhante, pontuando como a personalidade e caráter podem levar alguém para o caminho final que mais teme.

Há vários tipos de crimes, assim como há diversos tipos de assassinatos e de assassinos. Psicopatas e sociopatas. E goste você ou não, há de convir que tais figuras são frequentemente e naturalmente romantizadas pois elas são nada mais do que aquelas pessoas que podem estar próximas de você, tão boas e dóceis como possamos ver, às vezes tão humanas quanto nós. O que nos separa é apenas uma decisão, e é aonde o passado entra como pedaços que ajudam a montar esse quebra-cabeça.

Aí entra a figura de Andrew Cunanan e o estudo de Ryan Murphy sobre quem apertou o gatilho que assassinou Gianni Versace com dois tiros no rosto em frente ao portão da sua casa.
Desde cedo o jovem Cunanan foi encorajado a ser especial. Era mesmo, ele era um rapaz brilhante de QI altíssimo, mas o rapaz queria ser muito mais que isso: ele queria ser grande, mas sobretudo não queria ser esquecido.

Aprendendo desde cedo que ele não era comum, o que fica claro na criação do pai Modesto, logo Andrew entendeu que ele poderia ser tudo na vida, menos ordinário. Ele não queria somente ser, mas também ter. Ser aquele jovem especial que seu pai dizia que ele era e ter o reconhecimento do mundo ao seu redor em relação a isso, não só ao seu QI, mas ao que ele sempre podia ser relacionado também às coisas que tinha. Cunanan nunca aceitou ser menos, ele sempre era mais.

Foi naquela época que dentre fotos burocráticas de anuários do colégio, ele preferiu abrir a camisa e escolher a frase que melhor simbolizava o que ele era: "depois de mim, a destruição". Cunanan era o caos, era o que mudava as estruturas e não aceitava menos que isso.


Contudo ele era gay, e isso mudava todo o status-quo diante à sociedade.

Marginalizados e relegados ao esquecimento numa sociedade que se negava a aceitar a sua reles existência, a homofobia vigente naquela década de 90 era baseada no silêncio (o "don't ask, don't tell"), não só contribuindo no rastro de sangue de Andrew - que durou cerca de 3 meses em 1997, chegando ao seu final em julho quando a polícia encontrou o esconderijo de Andrew apenas a algumas quadras da mansão de Versace - como sendo preponderante na formação mental do próprio assassino, aonde esse com sua mania de grandeza já latente, também percebia que fazia parte de uma parte da sociedade que mal existia independentemente do que ele era; e nos assassinatos, parte por oportunismo, parte por uma demonstração de superioridade de Andrew, ele simplesmente "gritava" a esses homens poderosos e talentosos como era injusto pra ele o fato de eles poderem ser o que eram (muito devido ao que tinham), sempre com o aval da sociedade.

Mentiroso latente e compulsivo, Andrew aprendeu em casa que ele era o sonho. Só que ser o sonho, ser grande, não era ser quem ele era; e através da mentira e da encenação que ele acreditava encontrou a solução mais lúdica pra sair da mediocridade em que fora relegado. Isso explica a relação ambígua que ele tinha com sua homossexualidade, olhando para si mesmo e a vendo como maldição devido ao medo de não ser amado, desejado ou incapaz de fazer com que as pessoas o amassem, esquecendo-se da construção da própria personalidade.

Andrew não era um serial killer, nunca quis ser, mas a cada passo era tomado pela inveja e pela ira; pelo pecado e pela destruição que ele colocou em seu anuário, "igualando" as vítimas com ele em direitos, quer dizer, praticamente nenhum, sendo tão marginalizados e envergonhados quanto Andrew. Só que Andrew não pode ser romantizado, aliás nenhum rastro da sua existência. Todos os que morreram, morreram sobretudo por causa dele. É um jogo complexo de caminhos e escolhas destes caminhos. Andrew era o caos e um trem que permaneceu descarrilado, vingando-se de cada um que ele via que era mais bem sucedido, portanto, melhor do que ele, como fora "ensinado".

ACS começa no tiro e gradativamente vai retornando cada vez mais no passado de Cunanan até o presente mostrado em "Alone". Essa decisão que faz a série poder ser vista de duas formas diferentes, sem alterar o impacto da sua narrativa, completando-se em sua season finale num ciclo nada menos que chocante ao espectador observando um Andrew sozinho e acuado, não lhe restando nada mais que o suicídio num ato desesperado em tentar se marcar no tempo.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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