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Resenha Série: La Casa De Papel - Parte 2

sexta-feira, abril 13, 2018


Através do habilidoso texto de Álex Pina, com escorregões naturais contidos em praticamente qualquer obra ficcional (a suspensão da descrença), "La Casa de Papel" tem o mérito de fugir de convencionalidades do eixo hollywoodiano apresentando uma cara comum aos latino-americanos. Uma mistura atraente de roteiro que não deixa de lado em nenhum momento a mão pesada no teor crítico, no caso a insatisfação que os europeus, principalmente espanhóis, tem com o sistema capitalista vigente que nos troca, como o Professor bem exemplifica, por meros pedaços de papel e que provoca um desemprego de beira os 20% na faixa jovem do país. Algo está errado nesta conta.

Envolvido emocionalmente (descobrimos que muito mais do que pensávamos) e com o anti-fascista canto "bella ciao" na cabeça, nós vimos na primeira parte que o plano meticuloso do Professor (Álvaro Morte) girava em torno de um roubo a Casa da Moeda da Espanha. Mas a grande sacada da série (e a que faz certos discursos que a tentam depreciar se tornarem rasos), é que se formos parar pra pensar, este roubo não é exatamente um roubo. Está na cara que imprimir dinheiro não é um roubo, é um enfrentamento ao sistema, mas não é um roubo. Se a Casa da Moeda gera os recursos pra ela mesmo imprimir dinheiro, então o Professor na verdade estaria roubando de quem? Dos bancos?!

Convenhamos que quando uma trama nos faz ter simpatia pelos "bandidos", é porque a mesma funciona muito bem. 

Ao longo de suas aulas, ela deixa claro aos seus comparsas que boa parte inicial para o plano ser bem sucedido girava em torno da mídia. Com ela conquistada, e consequentemente construída por eles a narrativa necessária para o público simpatizar com a gangue das máscaras de Dali, tal qual o gorro verde do Robin Hood, nessa segunda parte a mídia é deixada de lado e a trama foca-se mais nos conflitos pessoais dos ladrões, do Professor e a inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño) que estão literalmente esgotados mentalmente após 100 horas de roubo. Note que até nas cenas externas há a claustrofobia. É aí que vemos o emocional aflorar de vez, tornando a gangue até mais perigosa que a ESTÚPIDA polícia espanhola, e até o tão meticuloso Professor, que quase deixa seu plano ir por água abaixo ao se apaixonar por Raquel.

Descontadas as cenas de novela do romance entre os dois que fazem soar extremante o absurdo o fato de os dois tomarem café e transarem de boas enquanto o circo literalmente está pegando fogo, e o insight forçadíssimo da Raquel que se dá quando ela vê um fio laranja no paletó de seu amado. A  dramaticidade que beira o exagero em certos momentos finais da trama soa justa devido ao envolvimento que temos com os personagens até aquele ponto. 


Ainda sobre essa segunda parte, o elenco trabalha de forma mais eficiente na história ao contrário da (menos a sonsa mãe (Kiti Mánver) da investigadora), se concentrando aonde deve, sem o texto acabar tentando divagar demais em certos personagens e dando um desfecho conciso dentro do possível. E sobre isso, não poderíamos deixar de dedicar um parágrafo inteiro ao célebre refém Arturo (Enrique Arce) - talvez a alegoria mais fiel à aquele ser moralmente podre e idiota, tão tragado e mastigado pelo sistema. 

Sim, diversas tramas colocam mocinhos no lado dos bandidos e vice-versa, é uma conhecida estratégia para provocar empatia ao espectador e penso que o básico para desenvolver um bom roteiro. Só que se a ideia de Álex Pina era desenvolver um personagem pentelho e irritante, Arturo se sagra o campeão como o personagem mais insuportável de todos os tempos. Merece ganhar até medalha. Ao contrário de todos os outros personagens, Arturo durante toda a série não apresentou curva de aprendizado algum e só apareceu na tela para estragar cenas com seus planos de fuga e discursos idiotas. Descontando a arma no pescoço de Denver (Jaime Menendez Lorente), talvez o único momento de Arturo que fez algum sentido, de resto todas as palavras ditas por ele me irritavam profundamente, a ponto de eu nem querer olhar pra sua cara e talvez nem os outros reféns que o suportavam mais sua voz.  

No mês passado, no texto cobrindo a primeira parte da série, discorri longamente sobre a principal mensagem de "La Casa de Papel" em sua primeira parte exibida: o tempo e sua a dominância sobre os pedaços de papel que ditam as classes sociais. Mas indo além, em como o roubo na verdade não era exatamente um roubo. E esse é o grande plot da série validando uma visão mais profunda sobre seu contexto, sendo muito mais do que mais um binge-watching da moda da Netflix.

Graças a uma montagem extremamente simples e bem feita, são garantidas constantes surpresas até o coerente desfecho, que não abrem margem para previsibilidades insultando a inteligência do espectador, tanto pela conveniência que poderia haver nas conhecidas tramas do gênero, tanto pelo desfecho crível atestando o óbvio. Conversando assim diretamente com o conceito tratado na trama que busca a constante reflexão do espectador sobre quem são os reais bandidos da história.

"La Casa de Papel" tem um roteiro viciante, diverte e entretém debaixo de todo um véu novelesco que em certos momentos beira o cômico, evidentemente nos forçando a uma boa suspensão de descrença. E bom, que série hollywoodiana não nos força a isso não é mesmo? 

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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