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Porque tanta gente tá falando de "This Is America"?

sexta-feira, maio 11, 2018


A esta altura você já deve ter ouvido falar de Childish Gambino. Pseudônimo musical do ator e roteirista Donald Glover, criador da série Atlanta e que todos veremos na telona sendo o saudoso Lando Calrassian no filme solo de... Han Solo, que sob o nome do pseudônimo lançou três discos de hip-hop.

Talentosíssimo, sem dúvidas.

Mas o motivo desse texto é graças ao genial clipe "This Is America". E para ilustrar, vou usar o começo do artigo escrito por Thiago Cardim para o (ótimo) site Judão:

Neste último sábado (5), Glover foi o apresentador do Saturday Night Live e aproveitou a oportunidade pra mostrar duas novas canções, This is America e Saturday. Quando acabou o programa, eis que ele me libera no YouTube este vídeo, dirigido por seu parceiro recorrente Hiro Murai, que dirige grande parte dos episódios de Atlanta, e com coreografia da atriz ruandesa Sherrie Silver.

Na resenha de "Um Lugar Silencioso", eu comecei dizendo da definição da palavra audiovisual e cá estamos nós com mais um bom exemplo do que essa palavra realmente significa. "This Is America" não é mais um clipe, é O clipe da nossa época. E mais que um clipe, é um alerta social que diz (novamente) que não há meritocracia; você é o que é, é negro, não importa o cordão de ouro que você tenha pendurado no pescoço. E se esse clipe te incomodou ou chocou, seja você branco, como eu, ou negro, diga para Donald que ele alcançara seu objetivo.


Há tempos uma música não me motivava tanto a ler sua tradução, tão simples quanto direta na carne:

Olha como eu tô me drogando / Eu sou tão estiloso (tão estiloso) / Estou de Gucci / Eu sou tão bonito (é, é) / Eu vou conseguir (ei, vou conseguir) / Preste atenção em mim / Isso aqui é um celular / Isso aí é uma arma / Gravo tudo com a minha câmera Kodak (woo, Black) / Ooh, saiba disso (sim, saiba disso, peraí) / Entendeu? (Sacou? Sacou?) / Ooh, manda ver (21) / Notas de cem, notas de cem, notas de cem (notas de cem) / Contrabando, contrabando, contrabando (contrabando) / Eu tenho um traficante em Oaxaca / Eles vão te achar com um tiro

Obviamente, não é a primeira e nem a última vez que um clipe se atrelará a uma música para criticar algo ou alguma coisa, eternamente estaremos em um constante zeitgeist, um termo bonito para sintetizar o clima político e moral de uma época, o "fluxo de informações". Só que tem uma diferença brutal do que é dito e entre do que é PRECISA ser dito. O zeitgeist que vivemos é um mundo ultra-informativo aonde recebemos informações sobre mortes e esperanças, verdades e mentiras, quase que simultaneamente e sem filtro algum imposto por nós. E se por um lado alienação significa a perda da identidade pessoal e a falta de autonomia, por outro lado, a alienação é algo natural marcado por esse tal zeitgeist. O clipe critica tudo isso e faz repensar, relembrando o debate diário que temos que fazer. Também um zeitgeist, que em "The Handmaid's Tale" e "Corra!" encontra dois bons exemplos.

Saca as pessoas tão inertes que Morpheus alertou em 1999?

Não preciso te dizer sobre o que aparece na tela, é evidente que "This Is America" é sobre racismo e sobre como é foda ser negro. Donald faz um registro audiovisual incômodo que combina uma ácida ironia à violência explícita da tensão racial que o país do Tio Sam vive atualmente, e o nosso país também em inúmeros aspectos - quem lembra de Rafael Braga condenado a 11 anos de prisão por portar Pinho Sol na mochila?

Seja por Gambino aparecer num galpão atirando na cabeça de um negro, metralhando crianças negras, correndo de pessoas brancas sei lá para onde; seja por jovens se suicidarem, usarem seus celulares para filmar essas mortes; seja por um negro sem camisa com um cordão de ouro e uma barriga proeminente pra contrapor todo o mercado musical. Seja por esse hip-hop esquisito, interrompido em sua batida hipnotizante a todo momento até se silenciar, e com Gambino acendendo um cigarro após tudo isso acontecer. O dinheiro é capaz de "mudar uma cor", O.J. Simpson que o diga em seu julgamento encenado brilhantemente em "American Crime Story", contudo, o que Donald Glover faz, é alertar o quanto os negros não-endinheirados como ele sofrem com uma ferida social muito mais profunda que aparenta. Ignorada em grande parte. Enquanto brancos julgam a meritocracia como a capacidade de negros ascenderem de classe social graças ao hip-hop, ao funk aqui no Brasil, e a corrida no Quênia (que seja), por exemplo.

Estão rolando várias teorias sobre tudo o que aparece na tela, normal, Hiro fez o clipe dessa forma para esse pessoal mesmo. São mais de 20 milhões de visualizações até agora no YouTube e infindáveis textos espertíssimos pela internet esclarecendo diversos apontamentos históricos que Gambino fez (por exemplo, aqui e aqui). Para aqueles que estão em silêncio, para aqueles que estão estupefatos. Isto é a America e também é o nosso Brasil, que dia 13 de maio "comemorará" 130 anos da Lei Áurea e não tem nada pra celebrar.

É o que fazemos ao dar de ombros para toda injustiça, afinal, melhor é acender um cigarro e ignorar o que acontece. Optando por replicar a frase que diz que "a culpa é sempre da vítima", ou dando mais importância a uma arma do que ao morto (note no clipe como a arma é retirada em comparação aos corpos). Na verdade, o galpão que Donald está, é seu país - que curiosamente está prestes a eleger um candidato que faz o gesto de arminha com a mão...

Contudo, Gambino sempre nos explica dançando e cantarolando: - isto é a América.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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