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Resenha Cinema: A Chegada

quarta-feira, maio 30, 2018


"Quando um não quer, dois não brigam". Você já deve ter escutado esse ditado da sua avó, e bom, ele não deixa de ser verdadeiro se um dos lados está disposto a escutar. Porém, a máxima de Charles Darwin de que "o mais forte sempre vence" é algo tão intrinsecamente ligado a história humana, que só não desmente totalmente o ditado acima, por causa da capacidade única do ser humano em ter compaixão ao próximo. 

Genocidas por natureza, o ser humano rapidamente alçou ao topo da cadeia alimentar e com a revolução agrícola, e especialmente a escrita, desenvolveu relações que mudariam sua história para sempre. Somos capazes de falar e escutar como nenhum outro mamífero e, até agora, nenhum outro no espaço. E num misto de puro egoísmo com razão prática, nossa avançada cognição é sim motivo para nos vangloriarmos, mas em contrapartida, sedimentados por ordens imaginadas tão inconstantes que basta só um rompimento desse padrão lógico para adentrarmos no mais puro caos. 

Realmente só uma intervenção alienígena nos salva (sic), e a premissa de "A Chegada" é justamente essa. Mas o que aconteceria se isso realmente acontecesse, e se (pior), eles não fizessem absolutamente nada? O que é extremamente crível, já que por mais avançada a tecnologia que os alienígenas teriam, o que nos faz imaginar que desenvolveriam uma comunicação em nossa língua? Portanto, se você espera as explosões que um filme de invasão alienígena teria - saciando nosso apetite pelo apocalipse e a prepotência heroica que a nossa raça supostamente teria por sair dessa - esse não é o seu filme. 

Aliás, para compreender "A Chegada" precisamos ter uma visão não-linear do tempo, e no alto da minha ignorância tentarei fazer isso.


Tomando pra si essa chave, o longa toma o tempo necessário para, juntamente com os personagens, nos fazer observar mais atentamente as coisas pequenas, porém tão fundamentais no tema abordado. É só observar as telas aglutinando os líderes de vários países, os diversos telefones na mesa do quartel, ou mesmo a contradição que cerca a chegada desses seres na Terra que provocam a pergunta sobre o que eles vieram fazer afinal de contas. O ser humano se une e desune e a tensão nunca é deixada de lado, muito mais pelo silêncio do que ação. Em suma, é escutar para antes falar.

Nesse espírito humano que contrapõe a beleza e o mais puro horror refletido no esquentadinho agente da CIA (interpretado por Micheal Stuhlbarg), enquanto o Coronel Weber (Forest Whitaker) de uma placidez misturada com o dever é designado para mediar interesses tão difusos, a linguista Louise Banks (Amy Adams) é designada e engolida lentamente por um mundo que precisa de respostas rápidas diante ao temor do desconhecido. Claro que a resposta mais fácil para todos os problemas é a força militar, contudo, é ela, juntamente com o físico/matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner), que misturando o fascínio e o puro horror que compreende que só é com calma que poderemos juntar as respostas que tanto necessitamos naquele momento, até pelo seu próprio trabalho. Uma breve e mais que pertinente reflexão refratada em nossas próprias vidas que nos queixamos por repetir os mesmos erros.

Abbott e Costello (apelidados carinhosamente pela dupla) são Heptapods que enxergam o tempo como se comunicam - com círculos que demonstram a infinitude; desenhos que podem ter vários significados. Não está certo na minha cabeça se eles proporcionam a dádiva que eles a Banks, ou ela proporciona a si própria tal dádiva ao ter mergulhado fundo e rompido a barreira línguística dos aliens. Talvez as várias interpretações sobre diversos aspectos do longa tenham sido a intenção de Villeneuve. Mas em seu twist elíptico carregado de emoção, percebemos que os blocos que compunham o roteiro, tal qual a linguagem dos Heptapodes, são feitos por uma mensagem extremamente simples e humana: a compreensão. De como sempre teremos o livre-arbítrio e o poder do amor e da empatia em nossas mãos, para sermos capazes de romper qualquer barreira, medo ou repulsa que nós podemos sentir sobre o diferente e/ou desconhecido que provavelmente seja ainda mais fraterno que você. 

O tempo é a única força capaz de domar o ser humano da eterna aflição que o rodeia; e a primeira coisa que solta os olhos em "A Chegada" é a simplicidade ao enxergar esse tempo como uma mera percepção. Aliás, é o tempo e a comunicação que são a base aqui; falar e escutar. Não julgar, sentar ao lado de seu amigo ou inimigo. Coisas tão inerentes tão quanto complicadas para qualquer um de nós.

Não é pessimismo enxergar o mundo sob as lentes de um fogaréu. Estamos mesmo por um fio, há dezenas de décadas; basta um empurrão para corrermos em círculos até cairmos tontos. Contudo, através de "A Chamada", Dennis Villeneuve nos relembra de uma visão particularmente otimista acerca do lugar dos homens no vazio do espaço: apesar de tudo, somos especiais. 

A visão ufanista de um mundo onde todos esqueçam as suas diferenças é talvez o principal estandarte da ficção científica em geral, afinal, é preciso um pouco de utopia em nossas vidas se quisermos vislumbrar algo melhor. Carl Sagan dizia que a ciência e a astronomia são um exercício de humildade. E em "A Chegada", Villeneuve usa a múltipla interpretação da linguagem para nos chamar a atenção de que basta uma mudança de perspectiva para termos alterada nossa relação com o tempo. A comunicação, em uma palavra e nem que seja em um toque. Alicerce básico e que bem utilizado, sempre significará algo maior juntamente com o tempo.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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