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Resenha Cinema: Eu, Tonya

quarta-feira, junho 20, 2018


O filme conta a história da prodígio Tonya Harding, desde a sua infância com a mãe rígida e por vezes abusiva, passando pelas competições internacionais aonde ficou famosa por ser a primeira patinadora artística a executar o triple axel (movimento que consiste em dar três giros no ar e pousar em pé, que até hoje apenas duas patinadoras conseguiram replicar), até o polêmico incidente que a baniu do esporte, sendo acusada pelo ataque à "sua amiga e rival" Nancy Kerrigan (Caitlin Carver) que a quase tirou da Olimpíada de Inverno de 1994.

Indicado ao Oscar de melhor filme em 2018, "Eu, Tonya" é um filme documental e por vezes um mockumentary (falso documentário) - grande parte do que o faz ser tão eficiente e digno da memória do espectador. A quarta parede é quebrada a todo momento seja pelas declarações dos atores na pele de seus respectivos personagens, seja pela própria Tonya (Margot Robbie, brilhante) que no meio das brigas com seu ex-marido Jeff Gilloly (Sebastian Stan) voltava seu rosto para a câmera e se queixava para nós. Isso não só trouxe ao longa uma intimidade, mas é nos depoimentos dos atores surge a frase que pra mim contextualiza perfeitamente a história de Tonya Harding e seu cabelo desgrenhado: "os americanos precisam de alguém para amar e para odiar".


Há muitas verdades na história da patinadora americana Tonya Harding, sua mãe LaVona (Allison Jenney) e seu ex-marido Jeff. Violência física, psicológica, inveja, ressentimento, e muito talento rodeavam a relação entre os três; e nas "entranhas" dos subúrbios e do estrelato, o sensacionalismo midiático alimentava o imaginário das pessoas sobre a curiosa peça chamada Tonya.

Não sabia de sua história, mas ao ler outras resenhas sobre o filme na época descobri que o incidente de Tonya foi logo antes do assassinato de O.J. Simpson. Claro, numa interpretação mais geral o caso dos dois é bem diferente, mas em comum Tonya e O.J. partilham o "símbolo" do imaginário do sucesso versus fracasso, e isso na minha interpretação ajuda a explicar muita coisa das consequências das decisões erradas que permeiam a sua história.

Tonya não é negra como O.J., mas faz parte do depreciativo rótulo do white trash ou "lixo branco", aquela população branca sem esperança, subescolarizada e sub empregada que tem a violência e o pré-julgamento naturalizados em sua realidade - o que explica em grande parte o fato de Trump ter sido eleito presidente. Prodígio, Tonya despontou no gelo aos 3 anos "arrastando" sua mãe para o esporte que gostava de ver, mas pertencente a uma realidade da qual elas não faziam parte. Talentosa, Tonya treinou horas a fio graças a exigência da sua mãe, que fazia incontáveis horas extras como garçonete para pagar seus treinos - para ela um motivo mais que evidente para LaVona nem deixar Tonya ir ao banheiro durante o treino e ser EXTREMAMENTE competitiva. Ela tinha que ganhar, e um segundo lugar era extremamente humilhante para as duas, principalmente para sua mãe. Mas Tonya graças ao treinamento intensivo, ganhava e aparecia para o país.

Margot Robbie (a direita) emulando o momento em que Tonya Harding (a esquerda) mostra desconsolada para os juízes o problema com o cadarço justificando a sua má apresentação nas Olimpíadas de Inverno de 94.  

A questão é que "sua amiga e rival" Nancy tinha o "perfil de princesa": formosa, elegante, bela; contrastando com Tonya que era bela, mas era cheia de mas. Bela, mas de cabelo desgrenhado, bruta, rebelde e preferia músicas pop do tipo "Sleeping Bag" do ZZ Top ao invés das tradicionais composições clássicas que embalavam a apresentações das concorrentes. Tudo isso aterrorizava os juízes que viam o esporte não só como esporte, mas também como um padrão de atitude que arranhava o "american way of life". São essas as barreiras invisíveis que Tonya ao longo da vida não conseguia ultrapassar, não bastando apenas a "meritocracia" que o treino e o talento podiam proporcionar.

No ataque a "sua amiga e rival" Nancy, seu ex-marido conversou com seu amigo Shawn (Paul Walter Hauser) para dar "uma força" a Tonya e a sua relação tóxica de idas e vindas com ela. Resumindo, a ideia era "apenas" mandar umas cartas para Nancy a "ameaçando" de morte para que ela não participasse das Olimpíadas daquele ano, mas na execução do plano, "o agente antiterrorista do governo" - como se gabou pra todos - contratou dois capangas para dar uma paulada com uma barra de ferro no joelho de Nancy. Não dá pra dizer até a que ponto Tonya sabia disso ou não, mas o fato é que ao acobertar seu ex-marido em relação ao plano - que ele não demorou NADA para confessar ter feito parte, Tonya foi banida do esporte que era parte de sua vida cumprindo uma pena MUITO mais pesada que os cúmplices.

Como disse, isso ocorreu antes de o caso de O.J., e Tonya só não dominou as manchetes por mais tempo por causa dele. Na mídia, "a história de uma menina prodígio pobre que alcança o estrelato, mas é capaz agredir sua rival para ganhar a qualquer custo" seduz tanto os tabloides quanto choca aquele que lê, uma história perfeita para o entretenimento das massas que admiram e julgam o sucesso e o fracasso alheio de forma ácida e nada empática, caindo no esquecimento numa velocidade ainda maior que Tonya alcançara os topo dos pódios.

Em outra hora ela chega até a dizer em tom irônico "é culpa minha?". Em parte ela tem razão, Tonya cresceu em um ambiente tóxico demais de poucas realidades de conquista de algo sólido na vida. Ela tinha um dom, mas é interessante ver e rever, entre decisões erráticas, como há barreiras invisíveis que impedem moças como Tonya e Nancy competirem de igual para igual. A essência do esporte, mas lugar em que a condição social sempre se insere.


Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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