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Resenha Série: Legion (2ª Temporada)

sexta-feira, junho 15, 2018


Primeiro, leia sobre a total quebra de expectativas da primeira temporada de Legion.

Poucas vezes senti que o uso de uma música foi tão certeira quanto a utilizada na abertura da Chapter 19 (S02E11), season finale da segunda temporada. Então vale relembrar:

The Who - Behind Blue Eyes (Por Trás dos Olhos Azuis)

Ninguém sabe como é, ser o homem mau
Ser o homem triste, por trás dos olhos azuis
Ninguém sabe como é, ser odiado
Ser destinado a contar somente mentiras

Mas meus sonhos não são tão vazios
Quanto minha consciência parece ser
Passo horas, de pura solidão
Meu amor é vingança, que nunca está livre

Ninguém sabe como é, sentir estes sentimentos
Como eu sinto, e eu culpo você
Ninguém retorna tão ferozmente sua ira
Nenhuma das minhas dores ou feridas podem transparecer

Mas meus sonhos não são vazios
Quanto minha consciência parece ser
Passo horas, de pura solidão
Meu amor é vingança, que nunca está livre

O diretor e roteirista Noah Hawley nunca nos disse que em Legion haveria um herói, pelo contrário, não é preciso ler HQ nenhuma para saber que o David Haller (Dan Stevens) é o filho do Professor Xavier e que ele, em algum momento, se tornará o poderoso mutante Legião - dono de por volta de 800 personalidades. Aliás, por mais lisérgica e viajada de ácido que Legion seja, é importante perceber o fato de que ela é extremamente simples e didática: em todos seus doze episódios Legion contou os caminhos traçados na batalha entre ele e Amahl Farouk (Navid Negahban) e apenas isso.

Qualquer texto, como esse, tem um começo, meio e final; e se é importante já traçar um objetivo, acredito que seja ainda de maior importância trilhar o caminho e não só o mostrar. E está aí o principal charme de Legion e que a faz uma série espetacular: a sua jornada.

Por mais confusa e maluca que ela seja, Legion felizmente REVIRA expectativas, e entre narrativas tão didáticas, é a série que atualmente mais desafia o espectador. Insiro aqui minhas palmas. Ou será que você não entendeu, por exemplo, que aquele buraco no meio do deserto com uma tampa gigante ao lado sugava os personagens para a verdade inevitável de que Legião é o David e que David é o Legião, o herói que aprendemos a amar é o vilão e não tem o que fazer; tal qual a Alice precisava seguir o coelho pelo buraco para encontrar a revelação? Legion nos conta tudo da forma mais difícil, mas explica tudo da forma mais fácil. A utilização de uma figura de linguagem se chama metáfora.

s.fem. designação de um objeto ou qualidade mediante uma palavra que designa outro objeto ou qualidade que tem com o primeiro uma relação de semelhança.



Durante a temporada passada, David era o homem triste por trás de olhos azuis, era odiado e incompreendido. Naquelas horas de solidão na clínica, conheceu a doida varrida Lenny (Aubrey Plaza, genial) e a sua amada Syd. Lá descobriu o que lhe assombrava e, ao final, experimentou um pouco de seu "caráter messiânico" (não a toa a arte do pôster); porém, como disse acima, Legião é o David e Legião é o vilão da história. Só que Noah Hawley não mostra o óbvio, na verdade, através da jornada "viajada de ácido" Noah nos pega pela mão e nos leva como David para essa descoberta.

Claro que David não imaginava ser o vilão que no fundo acreditava ser, afinal, quem é na verdade? Farouk? Não podemos julgar pelas aparências. E nessa jornada desprovida da dicotomia simples de heroísmo e vilania, Noah em diversas oportunidades nos ensinou didaticamente que "a ilusão começa num sonho, como um ovo". Sim, tivemos essa ilusão; sim, Legion até implantou essa ideia de que David poderia ser o herói, mas sobretudo implantou em David a ideia de que ele ERA o herói.

Para ser herói é necessário ter o virtuosismo dentro de si, simplificando, é o que te faz tomar uma decisão ficando ainda "em cima do muro". Por mais idiota que possa parecer a ideia de o Superman ou o Flash salvar o vilão, ter esse virtuosismo impediria David de furar Oliver (Jemaine Clement), e depois de uma busca desenfreada, culminar no espancamento da cara de Farouk. Ele gostava disso, pois era tudo feito por amor a sua Syd (Rachel Keller). O amor de David era feito de vingança, que nunca está livre.

A viagem da série, é a viagem da mente. A lisergia de Noah Hawley fez valer a jornada. Pois naqueles avisos do alto-falante na Divisão 14 e nas lições narradas por John Hamm (Mad Men), os detalhes nos alertavam de como a mente pode nos pregar belas peças e pode sim ser destinada a nos contar belas mentiras, afinal, a realidade primeiramente é composta por aquilo que sentimos.

"(...) em algum nível, a série inteira é uma parábola de uma doença mental, a ideia de que [David] tentou se matar e ele foi para o hospital, e eles ajeitaram ele, deram-lhe remédios, e o deixaram ir, e ele tomou seus medicamentos por um tempo, e então decidiu que não precisava mais dos remédios e acabou entrando em um surto psicótico. Exceto que David substitui a palavra 'remédios' pela palavra 'amor'. Ele percebeu que tinha essa história de amor que estava fazendo dele uma pessoa melhor - mais sã, mais estável - e, então, começou a mentir para a mulher que amava e a não ser consistente. Quando ele vira as costas para a história de amor, tudo começa a ruir." - Noah Hawley
Obrigado Legion e vamos aguardar a confirmada terceira temporada!

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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