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Resenha Série: Santa Clarita Diet

terça-feira, junho 26, 2018


*estou cobrindo as duas primeiras temporadas.

O filósofo francês Henri Bergson em seu ensaio chamado "o Riso" nos diz que "o absurdo cômico é da mesma natureza dos sonhos", e divide seu teorema em três níveis: 1. "No riso, há o relaxamento natural das regras de raciocínio". 2. E neste relaxamento o espírito adormece, e assim nos deixamos ser enganados a ponto de apenas registrar os sons e não mais o sentidos; algo lógico, mas que nos repousa do trabalho intelectual. 3. Por fim, o absurdo cômico que é de natureza igual a "demência" natural do sonho. Resumindo: "no cômico, como no sonho, o relaxamento do raciocínio faz com que aceitemos como verdadeiras lógicas falsas".

Entendo que entender a concepção do cômico é fundamental para apreciar a leveza da proposta de "Santa Clarita Diet". O que seria mais absurdo do que ser casado com um zumbi?

Evidentemente essa palavra é utilizada cuidadosamente no roteiro, já que a transformação de Sheila Hammond (Drew Barrymore) em uma não caracteriza o que conhecemos como tal. Então a sacada do showrunner Victor Fresco (Alf) é justamente convidar o espectador a se desprender da mitologia, ao mesmo tempo que apela pra desconstrução da própria morte. 


Sheila e Joel Hammond (Timothy Olyphant) são um casal de corretores da pacata Santa Clarita, subúrbio de Los Angeles, e que vivem a representação da tranquilidade que seria rotulada como um casamento de margarina. Tem uma filha, Abby (Liv Hewson), se dão bem, e fazem tudo juntos desde o colegial. Blá. Só que tudo muda quando Sheila passa mal e vomita o equivalente a uma vida inteira - inclusive seu coração reduzido a uma bolinha de carne. Porém ela "morreu, mas passa bem". Sheila acorda, Timothy fica aliviado, mas ela vira uma morta-viva bem incomum. 

Bom, como bem explica o vizinho nerd Eric Bemis (Skyler Gisondo), Sheila agora é controlada pelo que Freud chamou de id, o "componente da personalidade composto pela nossa energia inconsciente que trabalha pra satisfazer seus impulsos básicos". Mas contrapondo com aquele morto-vivo devorador de cérebros que conhecemos. Sheila acordou bem mais disposta e ativa, ironicamente se sentindo muito mais viva que antes, só que o problema é que tudo isso vem com uma nova alimentação: carne humana. 

A química da dupla Drew e Olyphant é afiadíssima na ideia de mostrar como absolutamente ninguém ali, nem ela, nem Joel, estão preparados para a situação de tornar a absurda situação de matar e comer seres humanos não tão absurda assim. Esse é o ponto central da série e sua grande sacada é se limitar a isso - como Bergson propôs em seu ensaio: do riso sempre residir no confronto entre o real x incomum. Victor Fresco entendeu assim também e trouxe uma oxigenação que a mitologia dos mortos-vivos (zumbis, que seja) tanto precisava após o estrondo x banalização que "The Walking Dead" deu a alguns anos atrás.

No fundo daquele desespero todo que a situação impõe, Joel é apenas um marido amoroso tentando entender a condição da sua esposa. E Olyphant é impagável sendo a ligação humana como "o surtado vizinho suspeito de sorriso nervoso", ajudando a esposa com essa nova dieta mortal enquanto tenta inutilmente levar uma vida familiar. Sobretudo em relação a sua filha Abby, a filha adolescente que é impactada diretamente pelo novo e impulsivo estilo de vida de sua mãe, que no fundo, "morreu pra voltar à vida". E nessa linha de pensamento, "Santa Clarita Diet" sustenta-se em rir do absurdo e também um pouco mais de nossas vidas ao utilizar do cômico do que é ser um morto-vivo. 


Não é mera coincidência George A. Romero ter colocado os seus zumbis dentro de um shopping: ser um "vivo-morto" é muitas vezes o que chamamos de... vida. 

Por "Santa Clarita Diet" NUNCA se levar em sério, mesmo nos momentos da segunda temporada em que sua própria mitologia desenvolve, tem-se a certeza que independente de seu estado de espírito, a piada SEMPRE vai funcionar; sendo assim aquela escolha certeira de série leve e rápida para ver numa ocasião preguiçosa no amplo catálogo da Netflix. Um entretenimento mais que bem humorado sem reflexões, moralidade e etc; claro que sem esquecer das doses cavalares de sangue e tripas que tanto enoja certas pessoas. =D

PS: De acordo com a Netflix, a terceira temporada de "Santa Clarita Diet" será em 2019 (inclusive, com um belo plot). Aguardemos!

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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