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Resenha Cinema: Jogador Nº1

terça-feira, julho 03, 2018


Escrito por Ernest Cline e adaptado pelo mestre Steven Spielberg, "Jogador Número 1" (não confundir com o comercial da Brahma com a mensagem subliminar do Ronaldo) parece que foi feito sob encomenda para os dias atuais, cada vez mais esvaziados e tão plásticos devido a rapidez do mundo digital.

Pois é, pareci velho (e sim estou chegando aos 30) nesta última frase; porém ela soa cada vez mais pertinente em um mundo de Playstations e games everywhere. Neste "mundo conectado", se por um lado a tecnologia trabalha para termos um planeta cada vez mais democratizado, consequentemente por outro perdemos o contato que uma fita K7 proporcionava em um esforço hercúleo de fazer uma playlist que hoje compartilhamos com um clique - era quase que uma carta de amor musical. São incontáveis as horas que fiquei em frente ao radio (sim) escutando os top 100 da 89 FM (ou algo assim) para gravar A trilha sonora que usaria no ano.

Viu só como é fácil falar dos momentos que marcaram nossa infância? Nem precisei me esforçar para escrever o longo paragrafo que você leu. E só citei o aspecto musical da coisa...

Então entendo que trabalhar com a nostalgia é algo perigoso, muito perigoso, e entendo aqueles que pensam que "Stranger Things" foi um produto de algoritmos da Netflix - o que realmente não duvido; portanto, é muito tênue a linha que estabelece uma história eficiente da mera nostalgia emocional. Um filme ou um livro não pode trabalhar somente com isso, afinal, é só a construção de uma história marcante que transformará uma obra em algo atemporal e capaz de criar uma nostalgia que incentivará as gerações futuras a lembrar dela com carinho. É assim que o mundo gira.

Autor de pérolas como Indiana Jones e Jurassic Park, Spielberg foi capaz de adaptar o livro para as telinhas de um modo eficiente e juvenil como deveria ser. Foi certeira a decisão de priorizar o CGI sobre o live-action, não só em relação aos personagens mas sobretudo em relação ao ambiente de OASIS. É de tirar o chapéu e ao mesmo tempo desejar que isto vire um game de fato. Vivo e colorido, é compreensível que o mundo criado por James Halliday (Mark Rylance) e Ogden Morrow (Simon Pegg) - espécie de Steve Jobs e Steve Wozniak - seja mais agradável de se viver do que o mundo de bosta e aparentemente superpopuloso que Parzival (Tye Sheridan), Art3mis (Olivia Cooke), Aech (Lena Waithe, a Denise de Master of None), Daito (Win Morisaki) e Sho (Philip Zhao) vivem.


Aliás, tão pertinente quanto atual, a crítica de um mundo perfeitamente possível que AINDA não virou realidade é o supra-sumo do filme. O game virtual de OASIS só juntou o desejo com a necessidade, o créme de la créme da nostalgia "de tempos melhores" não vividos por grande parte da geração com a necessidade urgente dessas pessoas de se sentirem acolhidas e importantes. O que é muito pertinente por si só, afinal, Parzival e Art3mis acabam descobrindo que são vizinhos, e não é difícil que você não tenha um amigo que passe pelo mesmo, tendo uma vontade gigantesca de abrir mão do mundo social em favor de uma vida online "mais divertida" e com propósito - nem que seja de xingar muito no twitter. Não vivemos num OASIS (nem a banda Oasis temos mais), mas estamos a caminho de ter um no futuro.

Tendo o protagonista (Wade Watts) com as iniciais do nome e sobrenome com a mesma letra, uma clara referência ao saudosismo de Stan Lee (que nesse futuro VAI ter sua consciência digitalizada). "Jogador Número 1" nos traz uma magia nostálgica dos anos 80, porém, peca no encaixa de certos aspectos, principalmente no carisma de papelão do protagonista e na dinâmica do próprio grupo - que por ser cinco, claramente foram inspirados na principal característica dos filmes juvenis dos anos 80, também por ter uma vilania encarnada em Nolan Sorrento (Ben Mendelson) tão bem delineada.

Pondo na balança os prós e os contras, fica claro que "Jogador Número 1" será um filme que sobreviverá mais na memória devido às centenas de referências que o mundo de OASIS traz, se formos comparar com a construção opaca dos personagens. Spielberg mais uma vez nos cativa com uma imaginação sem limites ao encaixar muito bem as referências que a obra deixou (aplaudi de joelhos na volta ao hotel Overlook), suficiente para lembrarmos do filme quando formos recomendar "algo divertido"; porém se formos ver os problemas, talvez Ernest Cline no próprio livro não tenha tido o cuidado suficiente na construção de certos elementos que fariam a obra não apenas viver da nostalgia, sendo ainda mais marcante como "Jurassic Park", que ao assistir a trilogia esses dias, senti que continua a funcionar bem após longos 25 anos.

Fica claro que "Jogador Número 1" é um poço de nostalgia escrito por Ernest Cline (um dos roteiristas por sinal), sendo assim perfeita para virar uma espécie de caça referências sem substância. Só que isso não acontece em nenhum momento. Claro que o longa tem vários problemas, como a química inexistente entre os personagens que afeta diretamente a descrente paixão instantânea de Perzival por Art3mis, e a aparição figurativa de Daito e Sho, tanto online como offline, entrando na história tão rapidamente quanto o final do filme; esse que aliás tem uma duração além da conta (2h38). Mas é graças à Steven Spielberg e seu talento em contar boas histórias que a adaptação, apesar desses contratempos, sobrevive e muito bem. E acho que não haveria outro diretor para a tarefa.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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