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Resenha Cinema: Os Incríveis 2

sexta-feira, julho 13, 2018


14 anos atrás era absurdo pensar na ida sazonal de nerds aos cinemas para ver seus super-heróis prediletos. Podemos discutir quem começou de fato esse fenômeno ao passar por "X-Mens" e "Blades" da vida, mas sem dúvidas a Pixar é uma das grandes responsáveis por provar que essa dinâmica heroica seria um sucesso; principalmente pelo fato de pensar o super-herói como um detalhe que compõe o homem como um todo, e sem as amarras da pré-existência quadrinesca que fazem eu e você discutirmos quem é/foi melhor em cena.

Assim, a Pixar deu a vida aos Incríveis como uma família com poderes que combate o mal, mas sobretudo uma família que tem tais poderes como também traços da sua personalidade, e a narrativa usa como pretexto para falar das inúmeras desilusões da vida adulta que Helena e Beto Pêra passaram pra se encaixar entre os civis. É um filme de super-heróis sem super-heróis. E é por causa dessa liberdade narrativa que a animação de Brad Bird se tornou tão bem sucedida em nossa memória.

Em "Watchmen" - outro representante do panteão de obras sobre super-heróis que não são super-heróis - liamos a frase: "who watch the vigilants?" (quem vai vigiar os vigilantes?). Salvar o mundo também exige responsabilidade, exige lidar com causas e consequências. Brad joga no seguro, o que NÃO é necessariamente ruim. "Os Incríveis 2" reutiliza arcos do passado e olha para o presente. A aguardada sequência da aclamada animação discute isso nas figuras de Beto e de Helena, e 14 anos depois, também coloca na mesa os tempos atuais, ao mesmo tempo em que Brad Bird mantém a essência do primeiro filme continuando a pensar o super-herói como algo que vai além dos poderes. Sempre como família.

Nesse aspecto, o segundo filme dos Incríveis se torna necessário por, mesmo não ser tão inspirado e nem causar como o primeiro, como ele, funcionar como uma história própria fechada em si mesma, que amplia a discussão sobre a ambiguidade sobre suas atitudes. O que é sempre muito interessante, mas claro, usando isso apenas como um pano de fundo.


Continuando exatamente do ponto aonde o primeiro filme parou, quando a família salvava a cidade das mãos do Escavador. Meta atingida, mas com consequências que conhecemos: a destruição daquela região. O que provoca com que os super-heróis sejam novamente proibidos de utilizar seus poderes. Ninguém ali na família se conforma do que aconteceu, principalmente o Sr Incrível, que vê o lado da causa como irrevogável; ao contrário da Mulher-Elástica que vê tudo aquilo como uma "oportunidade" de ser apenas mãe novamente. 

A trama principal do filme no lado heroico não é nada surpreendente com a figura do Hipnotizador (que rende uma bela e perturbadora sequência), mas funciona à serviço dos protagonistas e da narrativa, mostrando como o Sr Incrível enxerga Os Incríveis como super-heróis que devem agir como família, mesmo que ali cada um tenha seus poderes e suficientes para o heroísmo em uma situação específica. 

Enxergando a legalidade dos super-heróis novamente, aparece o personagem de Winston Deavor, ao lado da sua genial irmã Evelyn, que convida a Mulher-Elástica para liderar um programa publicitário intencionado a tornar os super-heróis legalizados novamente. Resumindo: é tudo uma questão de imagem. E o Sr. Incrível de acordo com os dados, não é a pessoa perfeita para o papel.

Isso causa muitos ciúmes nele, ao mesmo tempo em que ele entende que isso é para um bem maior. Enquanto a Mulher-Incrível salva a cidade, ele tem que "salvar" a casa. Devido a divisão do protagonismo, é aí que a sequência desenvolve a principal ligação emocional com o espectador e o torna tão bom. Nas ruas ela se sente engrandecida, vista como um futuro; em casa ele mal dorme com a heroica tarefa de lidar com as desavenças amorosas de Violeta, as lições de matemática de Flecha, e a descoberta dos poderes de Zezé - disparado o ponto mais alto do filme.

Colocados em comparação na telona, fica claro que muitas vezes as tarefas do Sr. Incrível são até mais desgastantes e complicadas que o combate contra o crime sua esposa. Essa inversão de papeis no cinema não é uma novidade, mas "Os Incríveis 2" talvez só tenha existido por não se propor a reinventar a roda, mas sim ao trazer discussões antigas e sempre pertinentes à serviço da diversão do público. Brad Bird nos diz que ser herói também é cuidar da sua família. Isso fica claro na excelente sequência de perseguição quando Helena atende a ligação do seu filho Flecha que pergunta aonde está seu tênis, que não se difere da missão que é Roberto ajudar a Violeta na conquista (impagável) de Toninho Rodrigues.

Ao final da genial trilha sonora feita por Michael Giacchino e das notáveis técnicas de animação da Pixar, a Incrível família se reúne. E dentre as ignorâncias, aprendizados, e desafios que ao final dão um orgulho para todos, cada um em seu próprio desafio que vai muito além da salvação da cidade, indo da aceitação de si mesmos e como o povo enxerga as suas ações, a dinâmica da família se renova como a narrativa Incrível que se renovou nas nossas lembranças mostrando que o heroísmo vai muito além de intensas sequências do bem contra o mal.

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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