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Resenha Série: Philip K. Dick's Electric Dreams #09 - Safe and Sound

quinta-feira, julho 19, 2018


De todos os episódios da antologia, "Safe and Sound" é o que tem suas críticas mais evidentes. Longe de ser ruim, claro, até porque a principal característica do autor em seus "sonhos elétricos" é sempre tornar tudo evidente o quanto antes, sem uso exacerbado de plot twists (método OBRIGATÓRIO de 11 entre 10 produções televisivas) para que quem está assistindo não só entenda a crítica mas sobretudo vivencie a sensação que ele viveu.

Parece redundante e chato, mas em todos esses contos escritos nos anos 50 compilados em "Electric Dreams" como também em outras obras como "Minority Report", "Blade Runner" e "O Homem do Castelo Alto", Philip K. Dick trabalhou em cima da sua estranheza perante o mundo e este com ele. Volto a dizer: a arte nada mais que é uma reflexão do contato do artista com o mundo. Sendo assim, PKD "Electric Dreams" respira a paranoia vivida pela Guerra Fria.

Penso que é limitado dizer que apenas a URSS tinha uma ditadura comunista, a terra da liberdade americana também vive sua ditadura, velada, mas uma ditadura capitalista perante ao mundo. Não sou um comunista safadopilantralulaforaPT, longe disso, mas simpatizo com ideias. E se o lado comunista viveu a paranoia, os EUA vivem a sua. Ou você joga o jogo de acordo ou está fora - isso se você não tiver o que vender, vide a Arábia Saudita, Catar e seus petrodólares que a Venezuela deixou de ter simplesmente por não ser tão parça dos americanos.

Bom (respiro), hipocrisias diplomáticas à parte, vamos voltar ao assunto. O "presente distópico" mostrado em "Safe and Sound", e no seu conto "Foster You're Dead", tem como ponto central o consumismo. Se você não tem certa coisa, você não faz parte "do grupo". O ter para ser que a gente tanto ouve por aí.

O conto renova-se com as assistentes virtuais e a nossa paranoia, agora, com o terrorismo. As pessoas trocaram sua liberdade e privacidade pelo conforto e a segurança em um país dividido em "bolhas". Sim, bolhas. Espécies de distritos altamente controlados, quem é um migrante como a Foster Lee (Annalise Basso) e sua mãe Irene (Maura Tierney), é visto como um terrorista ou um mero idiota. Neste "grupo" você até entra, mas só tem conforto no acesso á escola e proteção contra o suposto terrorismo (mesmo sem ataques nos últimos 20 anos) quem tem a pulseira/assistente (altamente invasiva por sinal) Simi.

Enquanto Irene acredita piamente que os ataques terroristas são uma clara manobra do Estado para provocar a sensação paranoica na população, recusando-se veementemente a se dobrar diante a esse estrategema consumista vigilante. Foster chega a escola daquela bolha e é ridicularizada por isso. Sem nem poder acessar ao conteúdo integral das matérias - tal qual como se fosse um paywall - ou mesmo entrar na faculdade sem ser revistada, Foster logo rende-se a esse "contrato social". No início tudo ok, mas a medida que a história se desenrola e seu assistente torna-se a única pessoa em que ela pode confiar, a garota entra em parafuso e passa a desconfiar da sua própria mãe.

O conto foi escrito nos anos 50, a Guerra Fria (felizmente) não faz mais parte da nossa realidade. Porém, seu enredo auto-explicativo, é aquele que tem um questionamento que perpetua por si só.

Evidentemente que o desenvolvimento da história não é o dos mais fortes, mas a sensação que ficou após "Safe and Sound" é de melancolia e pura vergonha de si próprio. É atual até o osso se o colocarmos sobre o nosso país; sobre aceitação e integração, Estado e veracidade.

Até a que ponto tudo que "sabemos" é verdade?

Será mesmo que vale a pena abrir mão da liberdade em favor à segurança? Coloque-se no lugar de Foster. Será que valia a pena dobrar-se para incentivar uma mecânica consumista em torno do belicismo? PKD acreditava que não.

Moral da história: não fique em sua bolha, mesmo que ela seja confortável, quentinha e amiga. =)

As outras resenhas do Descafeinado sobre "Electric Dreams" (em ordem de exibição na Amazon):

E01. The F Maker - O totalitarismo de PKD
E02. The Impossible Planet - Os sonhos para nos manter vivos
E03. The Commuter - Há um lugar melhor para nós?
E04. Crazy Diamond - Talvez tenhamos que olhar para trás
E05. Real Life - O peso das nossas lembranças
E06. Human Is - Coração e otimismo
E07. The Father Thing - Você é um alienígena!
E08. Autofac - Somos todos substituíveis
E10. Kill All Others - "Ideias são à prova de balas"

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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