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Resenha Série: Westworld (2º Temporada)

segunda-feira, julho 02, 2018


Apesar de toda a sua complicação proposital, eu diria que "Westworld" é bem simples; e em seu segundo ano, ela avança um pouco a sua história preparando o terreno para o que o filme de 1973 de Michael Crichton tinha como ponto central: a revolta das máquinas contra os humanos. Mas enquanto Dolores não explode em ira, a série se ocupa de sobretudo expandir ideias sobre as questões filosóficas e existenciais para o que chamamos de vida e na natureza destrutiva do ser humano na relação com os seus semelhantes.

E na verdade esse fascínio é algo recorrente nas obras de Crichton, é só ver "Jurassic Park" (e todas as suas sequências) para entender as semelhanças entre o filme a série, nas direções que as histórias caminham na questão da teimosia do ser humano em se igualar com Deus que sempre convergem em pura ganância, tornando natural a nossa torcida pelos dinossauros, na sua sobrevivência, e pelos robôs, na busca por sua consciência - especialmente quando se revelam os motivos para a existência do parque.

Como o saudoso Dr. Ian Malcolm diria sobre a série: "eu avisei que esse lance de IA ia dar merda".

Bom, o ano dois da série começa com o "despertar" da antes indefesa Dolores (Evan Rachel Wood) e a tão desejada revolta dos anfitriões contra os convidados; e ainda que as belas discussões existenciais e explicações que às vezes tropeçam em redundância mas elucidam de um lado e abrem possibilidades do outro, uma característica marcante da série, a busca de Dolores pela porta que supostamente levaria a sua raça à liberdade é o grande ponto. E é assim que podemos enxergar a série de uma forma mais simplista.

Um assunto largamente discutido nas grande obras da ficção científica, sendo "Blade Runner" a maior delas pra mim, "Westworld" em seus dez episódios diluiu a discussão sobre as lembranças que fazem uma imagem de um humano ser... um humano. O que em outras palavras nos diz: as lembranças constituem o que somos.

Expandindo as tramas paralelas à Dolores/Ford no primeiro ano, e ao final dispensando personagens que só serviram para o andamento da trama, como Teddy (James Marsden) e Hector (Rodrigo Santoro). A dupla de showrunners e roteiristas Jonathan Nolan e Lisa Joy vieram pra bagunçar mentes, apostando em múltiplos protagonistas e numa linha temporal propositalmente confusa, envolvendo a bagunça mental de Bernard (Jeffrey Wright), como se ele fosse uma espécie de representante nosso dentro da trama; a paranoia do Homem de Preto (Ed Harris) que levanta aquela eterna discussão do que é real (se isso é o que sentimos ou se é o que vemos, como da própria natureza humana que tende a destruição); e em relação a Maeve (Thandie Newton) que do papel de prostituta, foi de encontro às lembranças e resolveu ir atrás da sua filha. Nisto entrando o onipresente Ford (Anthony Hopkins) que basicamente "vive" em todos os cantos do parque. Cada vez mais envolto no papel de Deus, Ele que deu o livre-arbítrio as máquinas, e em Maeve, diria que tem a sua Eva.

O parque fora criado para meramente transformar as lembranças do ser humano em dados, mas para Ford, suas "obras de arte" eram uma nova forma de vida feita à imagem e semelhança humana que não podiam ficar contidos em uma só função mercadologica da Delos. Ford era Deus finalmente personificado. E Dolores, Bernard e Maeve foram criados para um propósito maior, que para Ford, podem alcançar algo maior ao contrário dos seres humanos de carne e osso como William/HDP.

Enquanto Maeve tem a ligação emocional de mãe e tem um valor inestimável. Dolores e Bernard divergem sobre o que é liberdade, e portanto são contrapontos que devem coexistir para a sobrevivência da "nova espécie".

"Westworld" é megalomaníaca num excelente sentido. Assumindo proporções bíblicas em sua narrativa, tanto sobre seus personagens (por exemplo, Deus/Ford, Maeve/Maria, Moisés/Dolores, HDP/Anticristo), como em sua narrativa (os livros Gênesis, Êxodo e Apocalipse ficaram bem claros pra mim); a série brilha intensamente em seus 10 episódios. "The Riddle Of Sphinx" (S02E04) e "Lés Écorchés" (S02E07) são obras de arte, tanto quanto "Kiksuya" (S02E08) e "Akane No Mai" (S02E05) são belíssimos fillers dando uma aula de experimentação e acuidade técnica - notem o cuidado com as línguas japonesa e nativa.


Com um roteiro já amplo sobre a condição humana e da vida, "Westworld" sobrevivia muito além dos domingos na sua primeira temporada. Mas é nesse segundo ano que a coisa realmente complicou, fundindo cabeças e opiniões de fãs que se dividiam em aqueles que queriam entender alguma coisa na tela e aqueles que queriam entender alguma coisa também fora da tela. Não é por menos que diversos sites analisaram a série episódio por episódio. E confesso que para a minha experiência ser mais completa, foi necessário comentar do que eu acabei de ver com minha namorada, ler reviews em texto, e assistir lives do YouTube com ela para entender melhor o que acabou de acontecer. É incômodo sim, mas diria que é necessário tão quanto recompensador.

Entre belíssimos figurinos e fotografias do conhecido padrão de qualidade do canal, eu entendo que "Westworld" é ainda sim uma série de nicho, e com um potencial diferente de "Game of Thrones" (que chega ao final em 2019). No entanto, o que faz jus a aposta da HBO em ser uma substituta da sua galinha dos ovos de ouro no canal, é sua capacidade de ser uma série absolutamente transmidiática.

Perfeita para alimentar os "teóricos do YouTube" que adoram teorizar o futuro ("Dark") e/ou destrinchar easter eggs de toda e qualquer série ("Rick and Morty") ao invés de curtir a viagem que a própria história já provoca, é indiscutível que "Westworld" em parte sobrevive semanas após semanas graças a esse público, e tanto Nolan quanto Lisa Joy simplesmente se DIVERTEM fritando cérebros alheios. "Westworld" foi criada para ser assim, então não cabe a mim dizer se isto está certo e o que está errado. Claro que cabem vários pontos de vista, no entanto, discordo daqueles que dizem que a série vive desse "pós", pelo contrário, pra mim a totalidade do roteiro de "Westworld" que constrói isso.

E se a HBO se rotula como "muito mais que um canal", então diria que "Westworld" hoje é muito mais que uma série.

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Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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