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Em "Killing Eve" o bem e o mal coexistem

terça-feira, agosto 07, 2018


Em certo ponto da história, (as maravilhosas) Eve (Sandra Oh) e Villanelle (Jodie Comer) sentam-se frente à frente. Claro que a primeira assustadíssima, por ter a sua casa invadida por uma assassina impiedosa que revela sua psicopatia por tratar aquela situação da forma mais natural possível. E naquele "jantar" extremamente estranho, Eve pergunta a Villanelle quem está agindo junto com ela, e ela responde que a Eve que ela se surpreenderia que quem está no topo são mais próximos do que aparentam ser.

É isso o que se revela ao longo dos 8 episódios da série, não só "com quem está no topo", como Carolyne (Fiona Shaw, a eterna Tia Petúnia) .

A trama de "Killing Eve" é extremamente simples e clichê. Basicamente, a inteligência britânica (MI5) precisa impedir que uma organização russa continue matando seus alvos. Mas claro que estou dizendo isso por ter visto toda a série. Mais uma produção brilhante da BBC, "Killing Eve" brilha pela construção de seu universo. Em outras palavras, aquele "espaço" que separa as protagonistas, e tornando as suas obstinações em um ponto comum.

Villanelle é uma mercenária que recebe de Konstantin as coordenadas para matar pessoas dos mais diversos meios sociais e cargos, mas talvez por estar entediada com esta rotina, deseja colocar uma "assinatura" própria nos assassinatos, o que em contrapartida multiplica deslizes e desperta a atenção das autoridades. Tudo o que Konstantin (Kim Bodnia) não quer. Nesta trilha, entra Eve Polastri, funcionária de uma divisão fantasma da MI5, que intrigada com a característica das mortes, começa a questionar a sua chefia para "pensar fora da caixinha" e passar considerar a sua própria investigação que coloca em rota de colisão com a femme fatale.

Lentamente a série vai colocando as duas em rota de colisão e "Killing Eve" nos conquista pela imprevisibilidade. Se Eve pediu aos seus chefes para "pensar fora da caixa", o trio de criadores, Sally Woodward Gentle, Lee Morris e Phoebe Waller-Bridge usam e abusam de um humor muito sutil, pesado e até mórbido ao mesmo tempo (típico inglês), para aos poucos construir um roteiro em uma verdadeira roleta, e surpreendentemente capaz de tornar Eve e Villanelle igualmente carismáticas. E muito.

Aliás, "Killing Eve" nos deixa bem claro a força das duas em contradizer nossas expectativas (ou confirmá-las também, vai saber) em absolutamente TODOS os episódios. Seja pela decisão de Eve em simplesmente sair do carro e olhar para a cara de Villanelle, seja por essa, com todo o seu sadismo e ironia, dizer que vai usar da sua vítima "pra sexo" (isso é uma piada, mas vemos que ela mata porque... sim).

É interessante perceber a obsessão de Eve em finalmente encontrar Villanelle face-a-face. A morte de seu (excelente) sidekick David (Bill Pargrave) por Villanelle, só foi uma licença para a perseguição se tornar mais implacável. O que Eve quer é assumir protagonismo, tal qual Villanelle quer uma vida "normal" com coisas "normais" - mesmo que ela não seja capaz de diferenciar uma ida ao supermercado de um assassinato brutal.

De alguma forma, as duas se veem refletidas. E em caminhos diferentes, paralelos, as duas são igualmente guiadas pelo que gostam de fazer. Diferentes (é impagável ouvir Villanelle admirando o cabelo de Eve e ver Eve admirando as roupas de Villanelle), mas incapazes de se dar um fim.

Demonstrando de outra forma, como os pólos da mocinha e da vilã se atraem e coexistem.

*A série não tem casa aqui no Brasil, então vá na locadora do Jack Sparrow mais próxima, ok?

Postado por André Prado
Estudante de publicidade, formado em nerdices em geral, pós graduado em Netflix, e phD em piadas idiotas. Gasto dinheiro em comida e com livros que não tenho tempo pra ler.

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