Empatia

Resolvi começar esse texto com uma imagem ilustrativa verdadeiramente criativa e singela. Sem escudo, sem luto, sem tristeza e desolação de quem ainda chora; mas sim com as cores, com os traços tortos, com a aplicação de um mero trocadilho sincero rendendo-se às homenagens.

Hoje aprendemos mais uma vez o que é empatia.

Chapecó está a mais de 800 quilômetros de São Paulo, mas a empatia deixa a cidade aqui perto. Entre comentários desrespeitosos de gente que não perde a piada mesmo que oportunista e sem graça alguma nas latrinas intelectuais que são chamadas de caixa de comentários da G1 ou mesmo no Facebook lotado de gente que adora ir contra a comoção, aprendemos mais uma vez que numa tragédia a empatia é algo muito maior e que a verdadeira empatia não é desmerecer gravidade dos fatos.

Com essas tragédias como vemos o ser humano pode ser cruel também. Que prega que sofremos por condicionamento dizendo “ah, e quantos morrem diariamente e ninguém liga?", como se houvesse classificação entre seres humanos. E é quando a verdade acaba se revelando na exaltação pela diminuição da comoção da tragédia dizendo que ela ocorre diariamente, aos poucos. 

Concordo, a tragédia é a violência desmedida existir, sim. Um pai que chora, os negros que morrem diariamente... há boeings representando diariamente os caixões carregados. Mas a tragédia choca, machuca; é como a paixão e o amor, há diferenças que não anulam um e outro. É diferente o choque de lamentar-se pelas mortes diárias de sonhos interrompidos dessa forma. 

As pessoas adoram minimizar o que não acontece com elas e pregar de que apenas elas fazem o "moralmente certo" quando na verdade, estas é que nem estão nem aí com ninguém. Contudo, é nesses desastres, nas tragédias de sonhos interrompidos que poderiam acontecer com cada de nós é que percebemos a capacidade de mobilização das pessoas em torno de uma solidariedade e demonstra o quanto os povos são realmente cercados de compaixão no mundo inteiro. A verdadeira empatia é sentir o que o outro está sentindo - e como foi comovente a homenagem da torcida no jogo do Liverpool hoje num silencio sepulcral. 

Passei o dia comovido hoje, porque percebia que a Chapecoense era mais que um time e a gente via a simpatia de longe. Era uma cidade toda envolvida e abraçada em torno de um esporte que muitas vezes pode parecer besta, irrelevante e se mostra por diversas vezes mais que um jogo. 

Empatia é isso, é nos importarmos com sonhos interrompidos, lamentar pela tragédia de ver um time de futebol, uma cidade e por consequência, uma paixão ser arrasada. É o mundo inteiro se importar, são colegas de profissão lamentarem, jornalista e jogadores, e ajudarem a reconstruir um caminho de ascensão que vinha sendo tão bem sucedido. Tragédias como essas escancaram a nossa empatia, ensinam lições, provocam reflexões e revelam como somos capazes de sentir algo melhor, muito melhor. É clichê, mas a vida vale muito pouco. 

Com o tempo a Chapecoense se reerguerá e vencerá de novo assim como cada um de nós se estivéssemos marcados pela tragédia como cada um dos que ainda sobrevivem. Mas a maior empatia que poderia surgir, é que com essa comoção, a Chape se tornou não somente um time. 

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Mesmo que Black Mirror tenha perdido com a sua popularizada nessa terceira temporada produzida pela Netflix a característica do choque (que ao lado de uma ácida reflexão provocavam um rebuliço em nossa cabeça suficiente pra não conseguir assistir outro episódio da série em seguida), a série ainda sucinta muitas discussões (nos dando aquele tapa na cara bem dado) e ainda mantém aquilo de mais importante: falar da tecnologia exagerado o presente. Sim, o presente. E costumo dizer que Black Mirror é aquela série da coceirinha eterna justamente por isso.

No episódio que abre essa primeira temporada chamado "Nosedive" discute-se o conceito de tecnologia aplicado à sociedade, falando do óbvio, mas abrindo um leque de discussão milenar que é a ânsia de notar e ser notado e como a tecnologia serve pra potencializar isso no sistema em que vivemos chamado sociedade.

Lacey (Bryce Dallas Howard) é a típica usuária de redes sociais - que eu e você conhecemos muito bem - e que passa o dia postando o melhor do seu dia para mostrar relevância e suposta felicidade de uma vida perfeita. No episódio, temos um app que simplesmente funciona como avaliador em tempo real do que você é para a outra pessoa; portanto, valerá de tudo para que você cause essa boa impressão alheia e aumente sua nota como se as relações sociais fossem um joguinho, não importando que isso seja moralmente falso.

Assim que a história vai se desenvolvendo, Charlie Brooker trabalha três em cima de três temas relevantes: em pessoas em que o número de shares e likes ditam sua vida provocando uma falsificação constantemente da sua realidade, a dificuldade e por muitas vezes a negação das pessoas em se relacionarem, e a elevação, e por consequência, segregação social que esses tais números provocam.

Basicamente você é o que você posta, não importa se aquilo está sendo real ou se é seu verdadeiro pensamento, vale o número de curtidas e compartilhamentos: como o Twitter por si só que sobrevive dos piadistas de ocasião. E sobre isto, a piada aliás só faz sentido se várias pessoas rirem, isto é ligada ao ego num fio que leva até a nossa felicidade e tudo isso nos leva ao consumismo tecnológico.
Obviamente você não curte algo triste e sim feliz, portanto daí é apenas um passo para que momentos sem sentido muitas vezes apareçam na sua timeline; é a satisfação de compartilhamento de momentos, de ver as outras pessoas curtindo o que você está comendo unido com a inveja que você possa provocar por este momento.

Isso vai de encontro ao sistema de ranqueamento social que "Nosedive" trabalha através de seu app em um flerte com a classe média imergida problema bastante comum, que é o desejo de pertencimento.

Lacey deseja sair da casa do irmão e vê uma casa em um bairro de classe média-alta que é o sonho propagado, mas como se não bastasse a surpresa dela quando a corretora lhe mostra o preço do aluguel esta também lhe diz que para o negócio ser fechado é necessário que ela tenha uma pontuação de 4.5 quando Lacey tem apenas 4.2.

Na brincadeira inocente, o sistema de pontuação ficcional do app meio que passa desapercebido por você diariamente, isto é, no mundo real você demonstra que a outra pessoa é legal curtindo algo dela, ou voltando mais no tempo, avaliando como sexy, legal, e confiável da época do finado Orkut. Afinal, o que mais seria o recado do "amei" numa selfie sua? Voltando a "Nosedive", em outras palavras, só é digno de morar ali quem está adequado a esta nota independentemente de seu valor social. Se o app ranqueia as pessoas na ficção, o que mais então significam nossas roupas na vida real? Já vemos evidências claras disso em sites de relacionamentos que só elegem pessoas que sejam de uma classe social maior vasculhando os perfis sociais buscando um padrão. Como disse, Black Mirror brinca com o presente.

Precisamos ser notados, precisamos da felicidade; e isto leva muitas pessoas a não serem o que são. Isto vai desde aqueles que criticam a ideia até aqueles que abraçam a mesma ideia, como o irmão da Lacey, que na briga que tem com ela corre para o app para ver a sua avaliação e avaliar negativamente a irmã num gesto de vingança. A ameba que critica a ameba por ser ameba está no mesmo barco.

Criticar é pop e por isso há tantos canais desse tipo no Youtube, o falem mal mas falem de mim nunca foi tão válido pois a popularidade se baseia em nada mais do que buscar pessoas que criticam tanto quanto você o sistema, sendo que você mesmo usufrui disso, como o irmão dela. Só que por mais falso e mesquinho que isso seja, o assunto merecedor de todas as críticas e revoltas que ocorrem desde que o homem aprendeu a fazer fogo faz parte de todos nós, isso é o que queremos.

Oras se detestamos tanto a elite, por que então queremos levar uma vida como elas? Por que passamos a vida criticando youtubers que ganham milhares de reais falando bosta sendo que "você faz isso de graça" diariamente? (Demonstrando na fala aquela pontinha hipócrita de inveja unida ao desprezo). O que vale no sistema em que vivemos é a propagação da sua ideia, dançarmos de acordo com a música, mas principalmente a satisfação que as suas ações lhe trazem.

Em outras palavras, o foda-se.





Resenha Cinema: Animais Fantásticos e Onde Habitam


Ambientado no início do século, mais precisamente no ano de 1926, quase 70 anos antes do ano em que se passa a história de Harry, (o nome mais legal dos últimos tempos) Newt Scamander (Eddie Redmayne) desembarca em Nova York com apenas uma maleta. Bom, antes de prosseguir, digamos que Newt é um viajante "adestrador de monstros... fantásticos", um tipo de treinador Pokemon que coleta esses monstros que são muito ameaçadores para o mundo dos trouxas, basicamente para estudá-los e criá-los em sua maleta mágica servindo de lar a esses monstros fantásticos. 

Logo de cara, a vida de Newt é cruzada com a de um trouxa (ou no-maj como na nomenclatura norte-americana), Jacob Kowalski (Dan Fogler), que numa tipica confusão "chapolinesca" acaba trocando de maletas com Newt, assim dando início a confusões do barulho quando este, curioso, acaba abrindo a maleta. Mas antes de Newt descobrir a troca dos monstros por rosquinhas de um padeiro sonhador, a questão é que por ele ter usado da magia com um trouxa leva-o a ter problemas com o Congresso Mágico dos Estados Unidos (Macusa) que tem leis rígidas sobre a questão de segredo de bruxos x trouxas.

Dividido em duas partes, o filme tem representado na recuperação do (capricorniano) pelúcio (que rouba a cena literalmente) essa divisão da parte inicial, e mais divertida do filme, para a segunda parte, mais séria e por consequência mais emocional, que difere ainda mais a ideia que veríamos "mais do mesmo" para uma aventura que apesar de ser ligada ao bruxo, acaba se desenvolvendo sozinha ao dialogar com este público da série, agora já crescido, sobre questões mais sérias e constantemente atuais que pedem uma interpretação mais ampla que expandem a sempre abordada tolerância nos livros do bruxinho. Como a migração que é contextualmente interpretada logo no início do filme somente no olhar do policial para um suspeito bruxo inglês; e política, na questão das diferenças entre o Ministério da Magia de Hogwarts, mais progressista, e a Macusa, bem mais rígida, aceitando até pena de morte como julgamento (alô republicanos). Claramente se configurando numa crítica feroz a sociedade americana. s2

Isso não só desenvolveu a história naturalmente, mas aproximou a fantasia de Hogwarts agora para uma "realidade" mais mundana, fazendo a precisa função de oxigenar o universo bruxo para mais quatro (já confirmados) ou mais filmes abrindo sorri$os de orelha a orelha do pessoal da Warner.

E nesse contexto de tolerância aliás, o filme ganha força com seus personagens tão diferentes e complementares entre si. Como o deslocado Newt em relação ao relacionamento humano, a burocrata Tina (Katherine Waterston) que serve como ponte de Newt para o Congresso dos Bruxos, sua irmã Queenie (Alison Sudol) que lê mentes e consegue tirar de Newt informações que ele nunca revelaria, e o trouxa Jacob, que não só é o excelente alívio cômico do filme, como é aquele personagem que serve justamente para te trazer ainda mais perto do filme, sendo leigo ou não, para o mundo da magia ao reagir fascinado a cada movimento de varinha como justamente agiríamos se a gente pudesse entrar numa mala. Como ele mesmo diz: "Será que eu estou sonhando? Eu não teria imaginação pra isso...".

Já no outro lado temos Mary Lou (Samanta Morton) como a presidente implacável do Ministério, Percival Graves (Colin Farrell) que acaba por se revelar um fascista, o traumatizado Creedence (Ezra Miller) e Grindewald (Johnny Depp, em mais uma versão esquecível, agora rápida, do pirata bêbado qual você sabe qual é). Girando em torno de Newt, os dois núcleos claramente representam a luz e a escuridão, e o roteiro dá espaço a todos eles, explorando seus clichês, seu humor e seus medos confortavelmente, nos fazendo pisar em um terreno confortável.

Posso dizer que a sensação mais próxima que tive ao assistir no cinema "Animais Fantásticos e Onde Habitam" foi a plena de satisfação. E cara... como é gostoso sair assim do cinema sem muitas perguntas e sem busca de possíveis respostas, um reflexo direto do roteiro da escritora estreante nessa função que é simples mas se revela complexo na medida certa provando o quanto a escritora é habilidosa na arte de dosar terror com fantasia que na direção de David Yates (já familiarizado com o mundo do bruxinho) ganha ainda mais vida.

Em tempos aonde temos filmes de super-heróis para todo lado e a realidade decai sobre os ombros quase que numa obrigação, como se os personagens tivessem que serem críveis o suficiente para encaixá-los ao nosso mundo, mesmo que esses fossem apenas heróis, apenas ficção sobretudo. O spin-off de J.K Rowling sobre o mundo dos bruxos vem em boa hora para nos relembrar que fantasia também pode ser apenas... fantasia.

Qual o preço do objetivo alcançado?


Eu apenas fiz o ENEM, mas sem loucuras e apenas buscando um bom resultado com o intuito de entrar numa faculdade. Estranho né? Por que alguém que não mora com os pais e se rendeu a uma vida cheia de cobranças e responsabilidades financeiras faria isso? Eu realmente preciso de mais dinheiro, preciso gastar pouco...

Já conformado em ter que me render a um sistema que, baseado em oportunidades, acaba por priorizar os mais abastados financeiramente do que os mais pobres, e consequentemente mais necessitados, de uma faculdade pública; saberia eu que também se "matar" de estudar largando mão de qualquer tipo de lazer e prazer em virtude de uma vida acadêmica, não seria simplesmente o que sou, portanto não seria o que me faz feliz. E com o início dos vestibulares da Unicamp e da Fuvest no intervalo dessa semana, sempre me vem aquela pergunta na mente: Por que estamos fazendo isso? Pra sermos realmente satisfeitos com o futuro abrindo mão totalmente do presente? A verdade é que somos responsáveis pelas nossas obsessões.

O filme "Whiplash" de David Chazelle, é perfeito se quisermos comparar os vestibulares com a música, e como a cultura da cobrança por ser o melhor, a devoção pelo perfeito em ser o "novo melhor alguém", levam uma pessoa ao descontrole da própria vida.

Andrew Neiman (Miles Teller) é um baterista de jazz do melhor conservatório musical dos Estados Unidos e sonha em ser o novo Buddy Rich, seu ídolo; do outro lado temos Terence Fletcher (J.K. Simmons), professor do conservatório e que está sempre a busca de novos talentos para a sua banda. Baterista reserva de sua banda, Andrew é recrutado por Fletcher (com uma insistência, claro) para ensaiar as principais composições da banda, porém os métodos de Fletcher são combinados pela competência e crueldade. Fletcher quer "salvar o jazz", como vários querem "salvar o rock" e ser o grande novo Charlie Parker é a régua que mede o sucesso. Se você não quer ser que nem ele, não será o melhor; e se não quiser ser o melhor, saia daqui. E vemos os efeitos colaterais dessa busca pela perfeição em um de seus alunos, que mesmo com a bênção de seu professor, por causa de tanto sacrifício acaba desenvolvendo depressão e ansiedade e se suicida.

"Whiplash" acaba meio abruptamente, o que nos leva a diferentes compreensões do que nos acabou sendo mostrado ali. Não sabemos se Andrew realmente se tornou o novo Charlie Parker ou mesmo se tornou seu ídolo Buddy Rich, vimos apenas uma satisfação trocada pelo seu professor e aluno. Mas através desse suicídio acabamos entendendo o que essa rotina de treino pode provocar às pessoas, mesmo quando elas alcançam seu objetivo e acabam falhando em alguma oportunidade na vida. É um suposto final então?

A perfeição fica na mente, precisamos continuar assim porque nosso máximo já foi atingido, se falharmos nisso somos preguiçosos. Para que dormir, comer, ter um fim de semana, um amor? Se você buscar uma dessas coisas não está levando a sério. Então abrir mão disso é o sacrifício, o esforço. Se outro conseguiu, porquê eu não consigo? Se eu não conseguir, sou alguém que desistiu, que não batalhou o suficiente

Esse vírus da promessa do sucesso profissional nos é implantado na mente sem que nós percebamos, começando na fase da infância, que em vez de ser uma fase de descobertas e brincadeiras, são uma fase de mini adultos que já tem uma rotina de estudos em tempo integral atrelados à natação, judô, inglês... Tudo muito bem regrado pelos pais, que escravizados pela mesma vida acadêmica que eles planejam para os filhos acabam os largando à uma educação diária de aulas e mais aulas para desenvolver o físico e a mente, os preparando para um futuro bem-sucedido em que eles possam sofrer o menos possível. Que é a fase adolescente/adulta, aonde a competitividade cruel acabam lhe obrigando inconscientemente a ser o melhor se você quiser ser alguém, portanto, supostamente essa criança não precisaria passar pelo calvário de estudar 15 horas por dia buscando o seu sonho, abrindo mão de uma alimentação decente, sono regulado e lazer com os amigos. Mas sabemos que não é bem assim.

Eu tenho 27 anos e ainda não sou formado na faculdade, na verdade ainda não entrei em uma ainda por diversas questões pessoais de amadurecimento e financeiras mesmo, afinal, pra que também buscar esse caminho se eu nem sabia direito o que iria cursar? Nós estamos em uma eterna mudança e nossos objetivos também, se uma criança deveria estar uma fase de conhecimento, o jovem precisa estar em uma fase de amadurecimento. E em vários trancamentos, mudança de curso ou mesmo a cada infelicidade residida naqueles que fazem algo por fazer, vejo que fiz uma boa escolha. Só que não ser assim na minha idade e principalmente depois dos 30 anos é sinal de fracasso.

Crescemos numa geração de bilionários de 20 e poucos anos, caras normais que estão ali porque supostamente "se esforçaram", Não ter um diploma acadêmico lhe faz parecer pior e totalmente incapaz de aprender alguma coisa perante quem o tem, sendo mais um forte exemplo de como a meritocracia quando existe, é simplesmente um pedaço de papel que define sua sabedoria e caráter perante aos outros. No final das contas acaba importando o que está escrito, não se você é realmente bom.

Não me dizem, mas os ecos da sociedade acabam me dizendo:

"Esse cara não deu certo"

"Ele não quer nada com a vida"

"Por quê você não é assim?"

"Como assim você tem 27 anos e não é formado ainda?"

Mas por quê a vida financeira é tão importante sobre o que você quer fazer da vida? Tias dizem: faculdade de História não dá dinheiro, faça Análise de Sistemas. Quem já não ouviu isso? A piadinha sobre cursos de humanas em vender miçangas na praia é recorrente e preocupante se pensar em como essa cultura do mais forte é enraizada socialmente, e muitas vezes quem nos tem que dar apoio, faz uma pressão para sermos o que eles foram ou simplesmente não são devido a mesma falta de oportunidade que pessoas como eu passam.

Numa vida em que nos é ensinado desde sempre que a boa vida requer sacrifícios, temos um exemplo básico da meritocracia aí, afinal, nos dizem que quem quer, consegue. Nos dizem e ensinam que é simples na mídia, afinal, a catadora de lixo que achou um monte de livros de cursinho acabou passando em Cambridge, por que não eu? Um "tá vendo!" ecoa. Desde aquele palestrante daquele livro de auto-ajuda que você leu até aquele seu professor de cursinho mais exigente, a cobrança por ser alguém melhor e maior, a cobrança pra ser alguém bem sucedido, a cobrança por ser o que alguém não foi ou ser sempre o melhor é sempre constante. É claro que nada cai do céu, mas ser o 1% do 1% não nos leva a satisfação necessária para uma vida bem vivida, e nem mesmo esse 1% chegam ao final dessa corrida pelo pote de ouro, que por diversas vezes nos leva a caminhos indesejados pois nem temos ideia ainda de quais eles são.

Quem você quer ser? Essa é a pergunta que só você pode dizer

Resenha CD: Metallica: Hardwired... To Self-Destruct



“Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez, pois quando isso acontece já não se é o mesmo, assim como as águas que já serão outras.” 


Talvez de que você já leu ou ouviu essa frase em algum lugar por aí - e se for amigo meu com certeza. 

Essa frase de Heráclito de Eféso (535 a.C. - 475 a.C) exemplifica muito bem como somos seres eternamente mutáveis, assim como absolutamente tudo que podemos sentir ao nosso redor. Uma pessoa que diz não mudar é aquela que se prende em preconceitos e se limita a certos paradigmas da vida, em outras palavras, cessa a busca pela felicidade. Portanto, a mudança é benéfica pra qualquer ser humano que pensa em ser alguém melhor em qualquer tipo de aspecto.

Claro que esse não é um post filosófico, é um post sobre um disco do Metallica, mas vamos lá para a explicação: os fãs do Metallica são um dos fãs mais insuportáveis do mundo ao lado dos do Iron Maiden, Slipknot e Avenged Sevenfold. Sim, também vou explicar isso. A questão curiosa é que é só surgir um lançamento do Metallica ou simplesmente revisitar sua discografia para surgirem puramente entendidos de afinação de guitarra, afinação, bateria, mixagem, letras, quantidade de riffs, duração de solos... O que é extremamente irritante pois esses tais fãs e certos admiradores de música, julgam mais as comparações do Metallica em si do que se o disco que eles lançaram acabou sendo bom ou ruim. O que me remete a uma grande estupidez e guerra ideológica pra ver quem "odeia mais bonito" a banda devido a sua popularidade, afinal, penso que se "Load" tivesse sido lançado por um outro nome seria agraciado com louros e mais louros entre os fãs de Metallica. Não canso de bater nesse tecla de que o nome Metallica é uma maldição.

Certo que o Metallica (como o Iron Maiden por exemplo) é uma banda expoente no cenário do rock em geral. É simplesmente a maior e mais bem sucedida banda do gênero que já existiu na história e por mais que você possa questionar o trabalho dos caras elegendo um álbum como melhor que outro, eles sempre lotarão estádios e chamarão a atenção para onde forem e o que fizerem. Simples assim. É além de um gosto pessoal reconhecer tal fato, assim como eles envelhecem. O que levanta um questionamento muito interessante sobre a psique de um "metaleiro": odiamos que nossas bandas mudem. É como um amigo, odiamos que ele mude e se arrisque a percorrer outro caminho e é aí que Heráclito entra. Envelhecer traz aprendizado e aprendizado traz mudanças, e o os homens de preto odeiam mudanças, por mais que elas possam ser benéficas. 

O que mais noto em fãs do Metallica em geral é que pelo altíssimo nível visto nos álbuns dos anos 80, aquela época precisa voltar, como se "um homem pudesse mergulhar duas vezes no mesmo rio", sendo que estes mesmos reclamam quando uma banda se repete. Porém, sobre isso é também importante perceber que cada álbum do Metallica - em sua extensa carreira e não tão extensa discografia - é que um álbum é diferente do outro e pela maioria das vezes uma continuação espiritual do último. Víamos um Metallica simplesmente furioso em "Kill'em All", e que gradativamente absorveu influências melódicas e desenvolvimento musical dos próprios músicos até desencadear em "...And Justice For All" e por fim em "Black Album" que marcou a banda para sempre na história aliando peso e o temido termo "pop".

A partir daí chegamos em "Load" (e para muitos a linha final do Metallica bom) que era simplesmente uma continuação do "Black Album", enquanto "Reload" era o irmão desse e foi retomando o peso até chegarmos a bagunça de "St Anger", o justo "Death Magnetic" e agora em "Hardwired". Portanto se percebe que a linha não é reta, é cheia de altos e baixos e experimentações (que diga "Lulu") de uma banda que entre sua petulância proposital de se negar a dar aos fãs o que eles queriam, sempre propôs álbuns com faces diferentes se adequando às influências e musicalidade que a própria banda absorvia. Isto é música, fazer simplesmente o que gosta e o que está afim de fazer. A decisão é dos membros e simplesmente deles, e por isso surgiu um "Load" eu acredito; não foi só a influência comercial que motivou o corte dos cabelos na época.

(Estou pensando aqui agora "que bom que o Metallica demora a lançar álbuns". Sim, pois a cada lançamento teria que dar a mesma explicação de uma forma diferente exalando admiração para responder ao ódio por muitas vezes mimizento).

Agora falando sobre o álbum, "Hardwired" vem depois de longos 8 anos desde "Death Magnetic" e acho que para compensar essa demora eles logo lançaram um álbum duplo com seus 77 minutos totais de duração. 

Não, não é um retorno triunfal do Metallica ao trono de maior banda de thrash metal (como se isso precisasse acontecer), o que vemos claramente em "Hardwired" é uma banda madura, disposta a calar a boca de críticos, ao mesmo tempo em que desceu do pedestal mostrando uma bela mescla de sua época de ouro com suas influências atuais em um poderoso álbum de heavy metal, dando aquilo que os fãs mais queriam no final das contas. 

Em outras palavras, "Hardwired" é um álbum para relaxar e apreciar. Fugindo dos padrões do Metallica, aqui não veremos surpresas e nem muitos altos e baixos, o peso aqui é constante e seus defeitos e qualidades também. As qualidades são as inquestionáveis faixas "Hardwired", "Atlas, Rise!", "Spit Out The Bone", "Moth In Flame" que calam a boca de qualquer crítico que dizia que o Metallica não era capaz de revisitar seu passado e "Here Comes Revenge", "Now We're The Dead", "Murder One", "Confusion" e "Dream No More" que mostram a faceta mais moderna do Metallica que citei. Mas os defeitos começam justamente onde as qualidades terminam, são todas as outras faixas que não citei, como "Am I Savage?", "ManUNkind" e "Halo On Fire" que poderiam ser esquecidas ou suprimidas tranquilamente em quem sabe um CD bônus pois infelizmente não acrescentam muito ao material em geral. 

Para finalizar, "Hardwired... To Self-Destruct" é um álbum excelente do Metallica e afirmo que é a melhor coisa que já ouvi desde 'Load" e a mais empolgante desde "Black Album" apesar de seus exageros percebidos em certos momentos e sua cadência à la Black Sabbath que desagradará aos fãs mais inveterados (para variar). Aqui Kirk Hammett está tão bom na guitarra desde sempre e deixou seus famosos wah-wahs mais na gaveta, enquanto Lars Ulrich mostrou uma bateria bem mais diversificada do que em "Death Magnetic". 

Só achei que "Hardwired" poderia ser um disco mais enxuto, mesmo com apenas as nove músicas que citei estaria bom demais, tornando-o assim menos cansativo e menos motivador de pulos de faixa nos players alheios e no meu. Bom, mas isso é a velha mania do Metallica de encher a capacidade de gravação do CD totalmente desde sempre...

Resenha Filme: Homem Irracional


A vida é aquele troço engraçado em que a nossa felicidade se vai a medida em que o nosso sono fica mais raro. A felicidade é rara. E daí vem a pergunta: O que move o homem são as suas ideias, ou as ideias é que movem o homem? Então num mundo cada vez mais louco, ganancioso e amoral, como definir o que é certo ou errado?

Nicolau Maquiavel ensinava que os fins justificam os meios. Claro que seu livro "O Príncipe" foi voltado aos reis da época como um tipo de guia para essas pessoas gananciosas galgarem ao poder; mas dentre sua didática difícil e intrincada, a obra também guarda uma crítica voraz à sociedade que ele via se formar no século 16 e que está fadada a nunca se alterar por mais que os séculos avancem em um eterno "feitiço" que envolve os humanos. No caso, a fome pelo poder é dada a mania de grandeza e prepotência naturais do ser humano.

Em um andamento bem mais sério e lento que sua conhecida e extensa filmografia em que contamos nos dedos seus filmes mais introspectivos, como o fantástico "Crimes e Pecados" de 1989, Allen é o diretor que sempre coloca dilemas morais em seus filmes, dos mais simples aos mais difíceis e dos mais sociais aos mais pessoais. Ele sempre desenhou uma figura otimista do amor, mas talvez por causa dele, o homem numa forma atabalhoada acabe idealizando tanto esse sentimento que termina em solidão, totalmente desenganado. É como se o homem tivesse esquecido do amor num todo em detrimento de uma mesquinheza e egoismo sem tamanho, em que no alto de sua prepotência, definisse uma desinência a uma grandeza esquecendo-se de que os outros são semelhantes a ele.

Woody Allen construiu Abe (Joaquin Phoenix) como a figura do homem moderno, solitário e descrente nos outros e nele mesmo, de uma barriga proeminente e andar curvado, como se fosse para ilustrar a rotina que torna a vida como uma morte lenta, Abe é o homem em que todos esperavam mais, mas frustrado pela intermitência da vida, ele é muito menos. Ex-jornalista que cobriu uma guerra violenta e sem sentido (como todas as guerras), agora ele leciona filosofia numa pequena cidade e com citações a Sartre, Kant e Heidegger - este para quem se baseia ao escrever seu livro e constantemente adia - Abe anda da casa para a faculdade e da faculdade para casa procurando a sua garrafa de whisky no único escape prático que ele vê.

Num universo aonde escolhas e suicídio se tornaram praticamente o mesmo, é o ato de se questionar e ver os outros cometerem atrocidades com o intuito de compreender o certo e errado, que a tarefa de uma vida sem sentido algum se torna um fardo insustentável e somente a quebra de moral que ele incentiva constantemente a seus alunos a fazer, poderia por terminar essa dor.

Mas a vida de Abe muda quando ele escuta uma conversa que desperta-lhe uma luz, um propósito, um sentido. É matar para viver. A quebra dessa moral foi lhe posta a frente ao decidir pela vida de um homem que se está praticando constantemente o mal, não faria falta se deixasse de existir. Seria uma missão para um bem maior, como um heroísmo torto.

É irônico que essa depressão pelo ato de viver seja atraente no final das contas para as mulheres, no caso duas, que veem em Abe aquele que ou desnudam suas crenças, ou em alguém que não está nem aí. No caso, respectivamente, Jill (Emma Stone) e a professora Rita Richards (Parkey Posey). Uma está em um namoro sério mas é a típica aluna que se encanta pelo intelecto do professor que através das conversas pessimistas, acaba por saciar a sede da aluna de questionar a visão de uma confortável vida que está pré-estabelecido pra ela; outra está em um casamento fracassado e nem hesita em imaginar-se fugindo com Abe para qualquer lugar, mesmo desconfiando de que ele seja um assassino - na verdade isso pouco importa pra ela que quer somente um homem que a coma bem. Assim, não temos no filme uma história de um triângulo amoroso tradicional, mas sim uma ampla discussão sobre moral e ética.

Mas afinal, as ideias movem o homem ou o homem é movido pelas ideias? Diria que pelo poder. Maquiavel via isso e se baseou em supostas moralidades impostas socialmente para escrever a frase que o define até hoje num mantra atemporal. Mas Dostoiévski criticou essa visão em "Crime e Castigo". Ali vemos que se os fins justificam os meios, essa justificativa acaba por não preencher esses fins. Podemos decidir pela vida de outro homem em benefício maior próprio e a sociedade em geral? E num mundo tão violento, ganancioso e cada vez mais insano, como a moralidade se define? Estamos destinados ao quê nesse mundo afinal?

Woody Allen, misturando filosofia e drama, trouxe essas discussões se inspirando especificamente nesse livro para roteirizar seu "Homem Irracional", que a medida em que a trama avança, passamos a entender perfeitamente a irracionalidade dos dias comuns. Na trama, Abe viu o que fez como bom, não sentiu culpa pois foi pela vida ou morte da sua alma. contudo, Abe transformou-se naquilo que abominou naquela guerra sem sentido que cobriu: um assassino.